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Macaco, o totem do Brasil?

Os entusiastas da igualdade racial parecem surfar na maré montante do que gera notícia rápida

Bernardo Buarque de Hollanda,

03 Maio 2014 | 15h28

O recente recrudescimento de episódios de racismo no futebol, agora manifestados em clubes da Europa que constituem a vitrine futebolística do mundo, como as equipes multimilionárias da Espanha, parece corresponder a uma reação, consciente ou inconsciente, de segmentos de torcedores extremistas e chauvinistas frente ao ciclo de fortalecimento das relações capitalistas no esporte.

Ligados aos grandes clubes e aos campeonatos europeus de maior visibilidade internacional, esses torcedores manifestam sua hostilidade refratária tendo como alvo principal jogadores de origem negra, mestiça ou estrangeira, oriundos em sua grande maioria da América do Sul, da África e das regiões periféricas que historicamente constituíram as colônias fornecedoras de matéria-prima, mão de obra e mercadorias baratas para a Europa.

A dinâmica contemporânea do capitalismo e os meganegócios do futebol empresarial põem em tela os grandes temas da atualidade. Alguns deles ocupam a agenda política da Comunidade Europeia, tais como a redefinição de suas fronteiras internas, a corrente das migrações populacionais em seu interior e a integração dos grupos étnicos que a ela afluem dos quatro cantos do globo.

Vistas como entraves à plena realização desses ideais que buscam refletir um sistema econômico perfeito, regido por um fluxo de trocas que somente conheceria as supostas leis do mercado, as pugnas racistas, xenofóbicas e neofascistas de determinados grupúsculos de torcedores simbolizariam o polo provinciano, regionalista e tradicionalista de resistência às forças integradoras, modernizadoras e cosmopolitas do capitalismo no futebol.

Conforme explicita Hobsbawm em um de seus últimos livros publicados em vida, Globalização, Democracia e Terrorismo (2007), esse esporte padeceria de uma espécie de esquizofrenia constitutiva, que se intensifica em princípios do século 21. Para o historiador britânico, tal prática se encontra cindida entre o elemento nacional, derradeiro refúgio das paixões do mundo antigo, e o elemento transnacional, a mais nova face do capitalismo globalizado.

À luz desse dilema, os surtos preconceituosos dos torcedores que se valem das rivalidades clubísticas para detratar o oponente costumam ser lidos pela imprensa na chave da anomalia. Tratar-se-ia de uma regressão atávica, agora simbolizada no descompasso entre as duas linhas de força majoritárias do futebol: o cosmopolitismo universalista de abertura à diferença e o chauvinismo provinciano de negação do diferente.

Esse diagnóstico mais geral vem à tona num momento em que tais casos parecem se suceder com frequência, tendo desta vez os jogadores brasileiros como foco recorrente, a exemplo do ocorrido com Daniel Alves e Neymar, no último domingo. Como se sabe, não são situações isoladas. Para recapitular, mencionem-se os urros simiescos da torcida de um clube peruano, país com expressivos contingentes negros em sua população, dirigidos contra o volante Tinga, do Cruzeiro, durante a primeira rodada da Copa Libertadores da América deste ano.

Lembrem-se também os insultos de preconceito lançados contra o atleta Arouca, do Santos, após a partida válida pelo Campeonato Paulista de 2014, no interior de São Paulo. Quase simultaneamente, um árbitro de origem negra teve seu carro depredado, com pencas de banana deixadas sobre o capô do veículo, à saída de uma partida do campeonato gaúcho.

É evidente que não estamos diante de uma novidade. Os incidentes escandalosos poderiam ser encontrados igualmente em exemplos do passado, de modo a se buscar um continuum que se prolongaria até o presente. Cinco anos atrás, em 2009, o jogador Grafite também fora ofendido por um atleta argentino – “negro e macaco” eram as duas categorias acusatórias acionadas por Desábato, como lembra a antropóloga Lilia Moritz Schwarcz – em fato que suscitou enorme atenção da opinião pública à época.

Na América do Sul, tais representações coletivas fazem-se tradicionalmente presentes em confrontos futebolísticos do Brasil contra os países vizinhos. Durante os anos 1920, os brasileiros jogavam os campeonatos sul-americanos na Argentina e no Chile, ocasião em que eram chamados de macaquitos pelos adversários. A referência pejorativa, por sua vez, remontava à Guerra do Paraguai, quando soldados negros, ainda escravos, eram alforriados ao regresso da luta.

Tal fato chegou a indignar o escritor mulato Lima Barreto, conforme relata José Miguel Wisnik, em seu extraordinário livro Veneno Remédio. O autor de Policarpo Quaresma, notório antagonista da prática do futebol no Brasil, revoltou-se com o xingamento ofensivo dos argentinos e chilenos. Para tanto, procurou responder à altura e transformou o estigma em elogio, a vergonha em orgulho, o suposto defeito em qualidade. O procedimento, aliás, é recorrente entre torcidas de futebol, que valoram positivamente os símbolos do porco, do gambá, do urubu e da favela, convertendo o negativo em positivo, na autoidentificação com o seu clube do coração.

No artigo Macaquitos, publicado na revista Careta a 23 de outubro de 1920, Lima Barreto propôs a adoção do macaco como o verdadeiro totem nacional. Da mesma maneira que o galo para a França, o urso para a Rússia, a águia para a Alemanha, o leão para a Bélgica e o leopardo para a Inglaterra, o macaco passaria a ser a identificação totêmica do brasileiro, haja vista se tratar de um animal inteligente, frugívoro – adicto, em especial, da banana – e parente próximo do homem, segundo, em tom irônico, advertia Barreto.

O modo pelo qual Lima Barreto reagiu à ofensa da imprensa argentina contra os atletas da seleção brasileira no início dos campeonatos sul-americanos de quase cem anos atrás nos remete ao mais recente ato de discriminação no futebol. O escândalo midiático ocorreu no dia 27 de abril, quando um torcedor do clube espanhol Villareal arremessou uma banana na direção do jogador brasileiro Daniel Alves, que atua no Barcelona como lateral direito.

O ato irônico do jogador, ao pegar a banana atirada no gramado, descascá-la, comê-la em frente ao público e escarnecer do torcedor prorrompeu no Brasil em uma cadeia de reações prós e contra sua atitude. A repercussão não tardou a agitar as redes sociais, com apropriações vindas a reboque, quer seja a campanha publicitária idealizada pelos agentes de Neymar, quer seja a grife lançada por um apresentador de tevê global.

Em contrapartida à provável espontaneidade de Daniel no gramado, o que sucedeu na sua esteira parece ter um caráter menos espontâneo, condicionado pelas estratégias do marketing virtual e da administração da imagem de personagens públicas em torno do “politicamente correto”.

Nesse caso, no entanto, os marqueteiros invadem um terreno minado e vão de encontro a um dos debates que é também uma das feridas mais caras ao brasileiro. Ela diz respeito à integração do negro numa sociedade de classes, para remeter à expressão de Florestan Fernandes, e à mentalidade senhorial de que falava Joaquim Nabuco, que não terminava com o fim da escravidão.

Enquanto jogadores, celebridades e personalidades da mídia se solidarizam com a publicidade lançada pelo astro brasileiro da equipe catalã, militantes dos movimentos negros questionam a adoção espalhafatosa da banana e do macaco como símbolos antirracistas.

Isso chama a atenção porque, curiosamente, as manifestações contra a discriminação racial são encampadas por personagens sem nenhum vínculo histórico de luta contra o racismo no Brasil. Os repentinos entusiastas da igualdade racial parecem surfar na maré montante do que gera notícia rápida e rasteira, ainda que seus fins pareçam ser nobres e altruísticos: a abolição universal de todos os tipos de preconceito.

Polêmicas à parte, à esquerda e à direita, merece ser apontada uma diferença concreta de tratamento, capaz de exemplificar o modus operandi do assim chamado “racismo à brasileira”. Ele pode ser observado na maneira diferenciada como o caso Daniel Alves foi tratado no Brasil e na Espanha.

Se o repúdio à ofensa ocorreu tanto lá quanto cá, é curioso que a punição dada ao torcedor do Villarreal pelo próprio clube tenha sido implacável.

No dia seguinte ao jogo, o arremessador da banana foi identificado. Logo em seguida, a diretoria do clube espanhol anunciou o cancelamento de sua carteira de sócio, optou por suspender seu carnê de entrada no estádio El Madrigal e proclamou o banimento em definitivo do jovem torcedor. Ele nunca mais poderá frequentar os jogos do time em sua cidade.

Além da penalização cabal do clube, o torcedor foi também preso de imediato pela polícia local, sendo instado a depor e responder por desacato ao código penal do país. Já no Brasil, a campanha pedagógico-comercial roubou a cena, por assim dizer. Ela adquiriu poses festivas na suposta conscientização contra a discriminação. Sendo assim, não houve mobilização dos líderes da campanha para atuar em cima de situações concretas.

Embora aqui, como na Espanha, haja uma legislação que criminaliza a prática de racismo, ninguém se dispôs a ir à busca de punições exemplares para os racistas que frequentam os estádios brasileiros.

Apesar de toda a mobilização da imprensa no início do ano, nenhum torcedor que ofendeu o jogador santista Arouca foi afinal localizado. As ações da polícia e dos dirigentes dos clubes responsáveis foram tímidas e caíram no esquecimento. Da mesma forma, os agressores do árbitro Mário Chagas, que depredaram seu carro e o hostilizaram, tampouco foram punidos e o juiz resolveu encerrar prematuramente sua carreira.

Nesse cenário de impunidade, as boas intenções expressas pelos que aparecem na moda da mídia convivem com ações pouco eficazes quando se trata de aplicar a lei e cobrar das autoridades uma mudança de postura, com atitudes e respostas enérgicas. Ao mesmo tempo indignados e tolerantes com o racismo, os brasileiros cultivam a sensação de que ninguém é preconceituoso em seu país. Continuam assim, mesmo sem o querer, a conviver ambiguamente com suas práticas, dentro e fora de campo.

BERNARDO BUARQUE DE HOLLANDA É PROFESSOR DA ESCOLA DE CIÊNCIAS SOCIAIS/CPDOC-FGV

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