Marco Polo e a saga do macarrão

Muitos europeus viajaram pelo mundo durante a Idade Média. Foram os exploradores que mais se aventuravam naquele período histórico, ou seja, entre 395, ano da divisão do Império Romano, e a queda de Constantinopla, em 1453. Mas nem todos produziram documentos sobre suas aventuras. Isso explica por que Marco Polo (1254-1324), explorador e mercador veneziano, descendente da nobreza da Dalmácia, na atual Croácia, tornou-se famoso através dos séculos. Ele foi um dos raros a descrever os próprios feitos. O Livro das Maravilhas (L&PM Editores, Porto Alegre, 1985), que ditou ao amigo e literato Rustichello da Pisa, relatando a viagem ao Extremo Oriente, estimulou a imaginação de gerações inteiras e encorajou navegadores como Cristóvão Colombo, que o leu antes de descobrir a América. Redigido originalmente em franco-veneziano, trata da viagem que Marco Polo empreendeu entre 1271 e 1295, acompanhado do pai, Niccolò, e do tio Matteo. Na expedição de ida, atravessou os planaltos da Anatólia, no Irã, o Alto Afeganistão, o Pamir e o Turquestão chinês, para alcançar Pequim, onde teria chegado a exercer grande influência; na volta, percorreu a Indochina, Indonésia, Ceilão e costa da Índia. O Livro das Maravilhas menciona todos esses lugares e inclusive alguns não visitados por ele, como o arquipélago do Japão, chamado de Cipango, as costas da Arábia, a Etiópia e o litoral africano até Zanzibar. Marco Polo zarpou de Veneza aos 17 anos, para uma viagem através de mares tranqüilos ou hostis, montanhas abruptas, plainos sem fim ou desertos inóspitos, regiões de sol abrasador ou temperaturas enregelantes, terras virgens ou cultivadas. Regressando à terra natal, 24 anos depois, lutou ao lado dos compatriotas na guerra contra a República de Gênova e desta caiu prisioneiro. No cárcere, ditou ao colega de cela Rustichello da Pisa seu livro pitoresco. Se forem verdadeiras as narrativas, viu riquezas inesperadas do solo ou subsolo e jóias deslumbrantes, sentiu o aroma de perfumes inebriantes, saboreou manjares inesquecíveis. Fez a primeira referência européia aos campos petrolíferos do Cáspio, descrevendo "um líquido semelhante ao azeite, porém que não serve para comer, mas para queimar e ungir homens e animais". Disse que o mar da região "produz grande quantidade de peixes, sobretudo esturjões, salmões e muitos outros". Afirmou que em torno da cidade de Baudac (hoje Bagdá) "há grandes bosques de palmeiras onde se produzem as melhores tâmaras do mundo". Encantou-se com o pistache, o gergelim ("um grão parecido com o linho do qual fazem azeite"), o painço e o ruibarbo (planta originária do Tibete, utilizada no preparo de doces) e o iogurte, que conheceu entre os tártaros (grupo étnico relacionado aos turcos e aos mongóis) e afirmou ser "leite desidratado, sólido como uma pasta seca". Marco Polo voltou a Veneza com riquezas, tecidos e especiarias maravilhosas. Inicialmente, acharam as histórias exageradas. Depois, confirmadas algumas delas, atribuíram-lhe contribuições notáveis. Ele haveria trazido da China informações sobre a pólvora, o compasso marinho, a máquina impressora, o sorvete e, sobretudo, o macarrão ou pasta seca, do qual foi considerado por muito tempo o introdutor na Itália. A última história, sim, mostrou-se fantasiosa. Em torno do ano 1000, portanto dois séculos e meio antes da viagem de Marco Polo, o livro De arte Coquinaria per Vermicelli e Maccaroni Siciliani, escrito por Martino Corno, cozinheiro do patriarca de Aquiléia, no noroeste italiano, publicou a primeira receita conhecida de macarrão. No século 12 já funcionava nas vizinhanças de Palermo, hoje capital da Sicília, uma indústria de pasta, na época chamada de itrija (palavra derivada do árabe itriyah, pão cortado em tiras). Em outra obra, de 1154, Il libro di chi si Diletta a Girare il Mondo, do geógrafo de origem árabe Al-Idrisi, que atuava na Sicília, fala-se de uma localidade chamada Trabia, cuja população fazia e exportava macarrão. Tais informações levavam à crença de que, em vez de ter sido trazida por Marco Polo, a pasta seca desembarcou na Itália pelo sul, por obra dos árabes, quando ocuparam a Sicília no século 9. Eles precisaram desidratá-la para carregá-la nas longas travessias pelo deserto e viagens ao exterior, garantindo uma alimentação saborosa e nutritiva. Conheceram o macarrão na Mesopotâmia, que por sua vez o recebeu, por caminhos tortuosos, da China. Em 2005, fechou-se o cerco. Pesquisadores do Instituto de Geologia e Geofísica da Academia de Ciências de Pequim encontraram nas ruínas de Lajia, junto ao Rio Amarelo, um recipiente contendo fios de massa cilíndricos, à base de milhete (planta herbácea de origem asiática), feitos 4 mil anos atrás. Conclusão: até prova em contrário, os chineses são os pais do macarrão. Mas os italianos não se entregam. Ultimamente, renunciam à hipótese de Marco Polo e minimizam as contribuições dos árabes e chineses. A tendência dos seus pesquisadores é considerar que, como o pão e outras jóias da culinária mundial, a pasta seria um alimento de criação espontânea e coletiva, surgida ao mesmo tempo entre vários povos, como resultado da descoberta dos cereais, de seu cultivo e destino alimentar. Curiosamente, podem estar certos. jadiaslopes@terra.com.br

Dias Lopes, O Estado de S.Paulo

02 Maio 2008 | 00h33

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