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Marina desmistifica temores em jantar com agronegógio

ROBERTO SAMORA - REUTERS

30 Agosto 2014 | 15h 09

A candidata do PSB à Presidência, Marina Silva, desmistificou na noite de sexta-feira, em jantar com cerca de 50 empresários e representantes das principais cadeias produtivas do agronegócio, os maiores temores que agricultores e agroindústrias poderiam ter em relação ao seu passado de ambientalista radical.

Ela mostrou ainda sua “visão pragmática”, sua capacidade de dialogar e apresentou informações de seu programa de governo alinhadas com o que o setor esperava, segundo relatou à Reuters o diretor-executivo da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), Luiz Cornacchioni, que participou do jantar.

O evento, no qual também esteve presente o vice de Marina, Beto Albuquerque, foi promovido pelo respeitado consultor da indústria de açúcar e etanol, Plinio Nastari, da Datagro.

O encontro, que reuniu representantes das principais commodities agrícolas, como soja, cana e milho, além de pecuaristas, integrantes das indústrias das carnes, de florestas plantadas, biodiesel e até mesmo bancos de investimentos ligados ao agribusiness, serviu para eliminar algumas ressalvas que existiam de parte do segmento do agronegócio em relação à candidata.

“Acho que muitos pontos foram desmistificados, tem muita coisa que é mito. Pelo que vi lá, pelo que pude perceber, vários mitos foram quebrados”, avaliou Cornacchioni.

Tais mitos, que incluiriam por exemplo uma posição contra o plantio de produtos agrícolas transgênicos, hoje usados amplamente pelos produtores brasileiros, foram eliminados por uma Marina com boa capacidade de conversar com um setor que responde por quase um quarto do PIB do Brasil e por cerca de 100 bilhões de dólares em exportações anuais, disse Cornacchioni.

“Ela se mostrou uma pessoa que está aberta para o diálogo e que sabe da importância do agronegócio na agenda de sustentabilidade e na agenda do país. Eu saí de lá com uma sensação muito positiva”, disse o representante da Abag, associação que congrega desde as principais multinacionais do agronegócio, empresas agrícolas listadas na Bovespa, bancos, e até associações como a União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica).

A posição no jantar, que teve ainda a presença de Beto Albuquerque, vice na chapa de Marina, confirmou impressão de importantes representantes do setor do agronegócio antecipada em reportagem da Reuters, pouco antes de Marina ser oficializada como candidata do PSB.

Segundo o diretor-executivo da Abag, o jantar não significou, no entanto, um apoio à candidata em detrimento de outros.

“Não teve um marco político no jantar, foi um encontro para o setor poder dizer a ela quais são as preocupações, dizer quais são as nossas agendas... em nenhum momento se falou disso (de apoio). A agenda era muito mais de aproximação e de entendimento”, disse ele.

“É um momento onde todos os candidatos têm que apresentar suas propostas, e é obrigação nossa estarmos abertos”, acrescentou, preferindo não nomear os participantes do jantar nem as entidades presentes, mas destacando que todas as cadeias produtivas estavam representadas.

Pesquisa Datafolha divulgada na sexta-feira mostrou Marina empatada em primeiro lugar com a presidente Dilma Rousseff (PT) no primeiro turno, com 34 por cento das intenções de voto, e derrotando a petista num segundo turno. O presidenciável do PSDB, Aécio Neves, teve apenas 15 por cento de intenções de voto no levantamento.

Com base no que falaram Marina e o candidato à vice, além do que consta no programa de governo divulgado, Cornacchioni avaliou que as propostas apresentadas estão bem em linha com o que foi conversado anteriormente com Eduardo Campos, o candidato do PSB morto em acidente aéreo no início de agosto.

“Em linha geral, é um plano alinhado, sempre tem alguns pontos para discutir e entender melhor, mas pelo que eu vi lá está dentro do que consideramos importante”, disse o representante da Abag.

Para Cornacchioni, foi possível notar uma “visão bastante pragmática e boa” de Marina e de Beto Albuquerque sobre a importância do setor, “inclusive do ponto de vista da sustentabilidade e de questões sociais”, que permitiriam a melhoria de renda da população brasileira.

A visão é contrária a de alguns ambientalistas, que culpam o agronegócio, especialmente a pecuária e os produtores de soja, de responsabilidade pelo desmatamento da Amazônia e outros biomas do Brasil.

CÓDIGO FLORESTAL

Segundo Cornacchioni, a candidata não indicou intenção de fazer mudanças no código florestal que possam causar preocupações. “Temos uma lei aprovada e temos que colocar em prática, temos que regulamentar e botar para andar, temos instrumentos para fazer valer o código”, completou.

Para o diretor-executivo da Abag, Marina “foi muito pragmática nisso, ela quer colocar em prática o que está no código”.

O Brasil tem menos de 10 meses para cumprir o prazo legal para cadastramento de milhões de propriedades rurais exigido pelo atual Código Florestal e este trabalho, junto com a regularização dos passivos ambientais, vai demandar esforços também das grandes empresas do setor, como indústrias e tradings.

O Código Florestal aprovado em 2012 prevê que todas as propriedades rurais informem às autoridades quais são suas coordenadas geográficas e a ocupação das terras: se estão cobertas por mata nativa, rios, pastagens ou lavouras, por exemplo.

No entanto, o processo de cadastro tem andado a passos lentos. Até o início de agosto, 285,6 mil cadastros haviam sido recebidos, informou o Ministério do Meio Ambiente, contra um universo de 5,175 milhões de propriedades rurais no país.

(Com reportagem adicional de Gustavo Bonato)

(Edição de Alexandre Caverni e Leonardo Goy)