Memórias de adolescência

Nanette Konig fala do reencontro com a colega de escola Anne Frank no campo de concentração onde a autora do diário morreria

Mônica Manir e Carol Pires, O Estado de S.Paulo

24 Julho 2011 | 00h42

"Esqueletas. Ambas."

Nanette tropeça em alguns adjetivos. Também confunde "lá" com "aqui" de vez em quando. Escorregadelas perdoáveis para quem carrega o holandês como primeiro idioma, o inglês como segundo e o português como língua de adoção. Mas Nanette Blitz Konig não se desorienta no tempo nem no espaço. Sem titubear, relata como ela e Anne Frank se reapresentaram em 1945, no campo de concentração alemão de Bergen-Belsen: esqueléticas, esquálidas, anêmicas, quase zumbis. Não tinham mais carne; só os ossos do quadril saltavam. Enrolada num cobertor, Anne tremia feito vara verde. Despira-se das roupas empestadas de piolhos, mas não a tempo de evitar a contaminação pelo tifo endêmico.

Deram-se um abraço a seco, sem lágrimas. Anne contou que não havia fugido para a Suíça, como circulou na escola em que as duas estudaram, em Amsterdã. Com a família, ela se refugiou por dois anos nos fundos do prédio onde funcionava o escritório do pai, na Rua Prinsengracht, 263, em Amsterdã mesmo. Ali escreveu um diário, que pretendia transformar em livro quando saísse do campo de concentração. Anne estava com Margot, a irmã mais velha, e as duas ainda desfiaram os horrores que viveram em Auschwitz-Birkenau, onde ficaram confinadas.

As três adolescentes se cruzariam mais um par de vezes até o último encontro, em 12 de março. Dias depois, por meio de uma enfermeira holandesa, Nanette soube que Anne e Margot haviam morrido de "tifus". Os aliados chegaram dali a uns 15 dias.

"Eles, os ingleses, não sabiam o que fazer com aquela pilha de cadáveres e aquela legião de gente esfomeada", diz Nanette. Deram de beber a quem pediu, mas foi como afogá-los. Muitos que aceitaram comer morreram de indigestão. Nanette recebeu uma lata de leite condensado. Não passou das primeiras colheradas. Aquilo lhe pareceu absurdamente doce. Teria sido isso o que a salvou? Nanette congela a audiência com seus olhos celestes: "Sobrevivi porque não morri".

Ela abre uma pasta preta entumecida de documentos. Ali guarda, entre outras relíquias, fotos de infância, uma delas no colégio no qual estudou com Anne entre outubro de 1941 e julho de 1942, quando Anne foi para o esconderijo. Nanette era dois meses mais velha que a colega. Nasceu em 6 de abril de 1929 em Amsterdã e vivia no sul da cidade com o pai, Martijn Willem Blitz, executivo do Amsterdamsche Bank, a mãe, Helena Victoria Davids, sul-africana criada na Inglaterra, e o irmão Bernard, mais velho que ela. O mais novo, Willem como o pai, morrera aos 4 anos, por problemas cardíacos. Nanette fazia ginástica artística e patinação, andava de bicicleta, saía com o pai para remar e nas férias viajava para a Suíça e para a Inglaterra.

Com a ocupação da Holanda, a partir de 10 de maio de 1940, a vida dos Blitz entrou em convulsão. Passaram a usar uma estrela amarela pregada à roupa, na qual estava escrito jood (judeu, em holandês). Ela tira da pasta a estrela de algodão. "Fui eu mesma que costurei", mostrando, quase intacta, a linha que contorna o rótulo. Servidores públicos judeus foram demitidos. Diretores de escola se viram obrigados a relatar o número de alunos judeus. A partir dessas listas, foram organizadas 25 escolas específicas para eles. Nanette e Anne caíram na mesma classe.

"Tínhamos uma amiga comum, a Jacqueline (Van Maarsen), mas Anne não queria dividi-la com ninguém", lembra Nanette, chamada de Nannie por amigas. "Ela gostava que parassem para ouvi-la, estava sempre preocupada com o cabelo, queria chamar a atenção dos meninos, e eu não estava nessa fase."

Nanette levanta-se para buscar algo. Uma fisga de sol corta a sala do sobrado tombado do Sumaré, bairro da zona oeste de São Paulo onde ela vive com John, o marido, há 53 anos. Nanette volta com uma versão holandesa do Diário e se reconhece como E.S. numa das páginas. "Não quis que colocassem meu nome verdadeiro." Ela é vista pela autora como uma menina que falava demais e não parecia muito simpática.

Ainda assim, foi convidada para a festa de 13 anos de Anne, no dia 12 de junho de 1942. Toda a classe foi convidada. Nanette se lembra dos presentes espalhados sobre a mesa, um dos quais o diário encapado com tecido xadrez vermelho e verde, na verdade um caderno de autógrafos, dado por Otto Frank à filha. Nanette levou um broche, que Anne menciona no diário. O marco da festa foi a projeção de um super 8 no qual aparecia uma mulher preparando uma geleia sobre a pia da cozinha. "Não entendi o que havia de especial nisso porque minha mãe também fazia geleia assim." Depois Rin Tin Tin irrompeu na tela, e então Nanette se deu conta de que estava tudo no mesmo rolo de filme.

A cena da geleia era um comercial da Opekta, fábrica de pectina de Otto Frank. E a mulher da geleia se tornou coadjuvante na luta contra o nazismo. Miep Gies, empregada de Otto, ajudou a proteger a família no anexo e encontrou o diário de Anne depois que a Gestapo deixou o lugar arrastando os moradores para o campo de concentração.

Em setembro de 1943 foi a vez dos Blitz conheceram um campo in loco, o de Westerbock, na Holanda. Dali foram de trem para Bergen-Belsen, a 300 quilômetros de Berlim. Faziam parte de uma lista diferenciada de judeus, um grupo de estoque, que poderia ser trocado por prisioneiros de guerra alemães. Por isso não tiveram o cabelo raspado nem os braços tatuados com números.

Em Bergen-Belsen não havia câmaras de gás. Mas entre 1941 e a primavera de 1945 mais de 70 mil pessoas - entre judeus, prisioneiros de guerra, deficientes físicos, negros, ciganos, testemunhas de Jeová e homossexuais - morreram no campo, de inanição, doença ou assassinados. Em novembro de 1944, aos 47 anos, o pai de Nanette sucumbiu à desnutrição e à tristeza. "Ele morreu inconformado, achava que podia ter saído da Holanda a tempo, e não o fez." Bernard, o irmão, foi deportado de Bergen-Belsen para Oranienburg no dia 4 de dezembro de 1944, mas nem chegou ao destino: morreu assassinado, a tiros, antes de entrar no vagão. No dia seguinte, a mãe aterraria em Magdeburg para trabalhar numa fábrica de componentes para aviões com mais de 2 mil mulheres. Em 10 de abril de 1945, Helena morreu dentro de um trem em Beenford, dois dias depois da partida. O comboio ia para a Suécia.

Sozinha, Nanette foi levada para o Campo 7 de Bergen-Belsen, exclusivamente feminino. Era a mais nova e achou que não cabia mais sanidade no corpo. "Mas um dia acordei e falei para mim mesma: "Você é órfã, e isso já é bastante difícil; pior ainda se for uma órfã louca"." Por falha nas sinapses, esqueceu uma série de fatos. Pinça da memória o dia em que ficou quase 36 horas de pé; outro quando foi libertada da fila da morte por um guarda, que lhe apontou uma arma para a cabeça e depois atirou para cima; e quando esteve cara a cara com Josef Kramer, "A Besta de Belsen", chefe do campo de Auschwitz-Birkenau e depois de Bergen-Belsen.

Quando o campo foi libertado pelas tropas britânicas, em abril, Nanette se aproximou de um major chamado Berney e pediu, em inglês, que ele mandasse uma carta a uma tia sua na Grã-Bretanha. "Ele ficou surpreso que uma menina falasse inglês tão bem e mandou a mensagem de que eu estava viva."

Por pouco a mensagem soaria falsa. Nanette contraiu tifo e entrou em coma. Pesando 32 quilos em 1,69 m, foi tirada do campo. Ao acordar, uma enfermeira procurava a inglesa sobrevivente de Bergen-Belsen, local ao qual nunca quis voltar, nem para visitar o memorial. Por três anos ficou internada em Amsterdã, tratando-se de tuberculose. Levaria quatro anos para voltar a menstruar.

Nesse meio tempo recebeu uma carta de Otto Frank, que guarda na tal pasta preta. "Otto pediu para me encontrar e me contou, no hospital, que tinha planos de publicar o diário de Anne", lembra. "Ele me perguntou o que eu achava, e eu respondi: "Se o senhor assim quiser...". Eu era só uma menina." Ainda convalescia quando leu a primeira versão do livro, da qual Otto tirara as partes sobre a sexualidade da filha e suas brigas com a mãe.

O Diário de Anne Frank, hoje publicado na íntegra, foi traduzido para 67 línguas. Nele, Anne relata como viveu no esconderijo onde duas famílias passavam praticamente todo o dia em silêncio, sem mesmo dar descarga. O único contato com a natureza era a visão de uma castanheira crescendo no quintal do vizinho. Símbolo de esperança, a árvore caiu em agosto de 2010 numa tempestade e ainda é motivo de pendenga judicial entre a fundação Support Anne Frank Tree e o construtor da estrutura de apoio, acusado de não fazer o suficiente para evitar a queda.

De alta em 1948, Nanette foi para Londres, onde reencontrou a família. Aos 19 anos terminou a escola e passou a trabalhar como secretária bilíngue. Numa festa conheceu o húngaro John Frederik Konig, que já tinha passagem comprada para o Brasil. Órfão, viveria com os tios em São Paulo. Sem tempo para um romance, ele dispensou Nanette no ônibus, mas lançou um desafio ao destino: "Se a encontrar de novo, eu vou casá-la".

O acaso os uniu na rua. Saíram juntos por cinco semanas, depois se corresponderam por dois anos. Enlaçaram-se em 1953 e multiplicaram-se em três filhos, seis netos e dois bisnetos. O filho mais novo, Martin, mora em São Paulo; a mais velha, Elizabeth, em Miami; e a do meio, Judith, no Canadá, onde um dos netos de Nanette morreu em uma avalanche em 2003, aos 15 anos. "Quando eu recebi essa notícia, pensei: eu não mereço. Mas a vida é assim mesmo, não é outra."

Aos 82 anos, Nanette nunca foi ao psicólogo, e como trauma guarda a fobia de lugares cheios e lembranças como o gemido das mulheres no Campo 7. Apesar de essa história ser "horrorosa" - um de seus adjetivos prediletos para qualificar tais recordações -, ela não foge de recontá-la. Quando um dos netos estudava a 2ª Guerra, ela foi à escola dar seu testemunho. Quando, depois de avó, cursou economia na PUC-SP, estendia seu currículo de vida e morte aos colegas de então.

No mês passado, em Buenos Aires, deu 15 entrevistas e fez 9 apresentações - uma delas no Senado - em comemoração ao aniversário de Anne Frank, aos dois anos do Centro Ana Frank e à apresentação de um projeto de lei também com o nome da autora, que institui o "dia dos adolescentes e jovens pela convivência e inclusão social contra toda forma de violência e discriminação". Aos que dizem que é um gesto glorioso passar a vida desencavando um inferno em vez de enterrá-lo, Nanette contesta: "Não é uma glória, é uma necessidade". Existiam aproximadamente 140 mil judeus na Holanda em 1940, só 35 mil sobreviveram. Dos 110 mil deportados, só 5.450 voltaram - Nanette entre eles. "Devemos estar cientes das circunstâncias econômicas e sociais que causaram o Holocausto e de como foi possível para Hitler manipular as massas tão exitosamente", diz.

No caminho até o portão, ela claudica. Tem artrose nas pernas, mas escapa da cirurgia com ginástica e alongamentos diários. O lusco-fusco transforma seus olhos celestes em cor de líquen. Ou não? John tira a dúvida em inglês, a língua com a qual se comunicam em casa. Nem azuis, nem verdes: "red". Pode passar o tempo que for. Nanette ainda se emociona com o sofrimento do mundo.

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