Epitácio Pessoa/Estadão
Epitácio Pessoa/Estadão

Ministério Público de SP capacita docentes para mediar conflitos

O Ministério Público de São Paulo iniciou um programa para capacitar professores da rede estadual que atuam como mediadores escolares. O objetivo é, até o fim de 2013, oferecer conhecimentos específicos sobre justiça restaurativa e, assim, auxiliá-los na prevenção e resolução de conflitos.

Ocimara Balmant, O Estado de S. Paulo

31 Dezembro 2012 | 02h02

O objetivo da justiça restaurativa - diferentemente da cultura punitiva, que busca um culpado para o conflito - é identificar o que causou o problema e intervir na situação a partir de três princípios: diálogo, reflexão e responsabilização. Só neste primeiro ano, mil professores serão capacitados no Estado. Os docentes são indicados pela direção da escola em que atuam.

"Nossa ideia com esta parceria com a Secretaria de Educação é evitar que a violência surja e, nos casos em que ela aparecer, conseguir resolver o caso sem atitudes drásticas, como a expulsão. Pelo contrário: usar essas situações como oportunidades de mudanças e de aprendizagem", afirma o promotor Antônio Carlos Ozório Nunes, coordenador do programa.

Durante os encontros são ensinadas técnicas de reparação de conflitos e feitas simulações que recriam momentos de embate entre alunos ou aqueles que envolvem estudantes e docentes.

Com 47 anos de idade e 15 de magistério, o professor Tarsis Campos foi indicado para fazer a capacitação porque atua há três anos como mediador na escola estadual Wilson Ramos Brandão, que tem cerca de 800 alunos e fica na periferia de Sorocaba. Apesar da experiência, ele conta que o curso promovido pelo MP tem ajudado na promoção de consensos.

Todos os dias, conta Campos, são cerca de dez conflitos resolvidos, o que abrange desde bate-boca e agressão entre alunos, passando por desavenças entre estudantes e professores, até violência fora dos muros da escola. "Dia desses, por exemplo, vi uma aluna arranhada. Quando fui investigar, ela estava sendo agredida em casa. Acionei o Conselho Tutelar na mesma hora."

Todas essas histórias estão nos diários de bordo criados pelo professor. Desde que começou o trabalho, já são 4 volumes. A leitura atenta das memórias, diz Campos, mostra queda nos casos de violência e também menor resistência ao seu trabalho. "Acabei sendo muito querido. Atualmente, alguns alunos me procuram só para desabafar."

Em Capão Bonito, também no interior do Estado, o professor Cesar Rodolpho afirma que após a implementação do projeto na escola estadual Dr. Raul Venturelli houve queda até no nível de estresse dos docentes. "Ao trabalhar com os alunos, me tornei um companheiro de luta, porque a carga da sala de aula é muito grande." Três anos depois, o maior problema da escola não é mais o uso e o tráfico de drogas, mas sim o uso indevido do celular.

Histórico. A formação em justiça restaurativa oferecida pelo Ministério Público é a terceira fase do programa de formação de mediadores oferecido pela Secretaria de Estado da Educação de São Paulo. A primeira etapa é introdutória - apresenta o conceito de mediação e ensina o professor a fazer diagnóstico de vulnerabilidade escolar e mapeamento de recursos comunitários, entre outros temas.

A segunda fase é composta por ciclos com videoconferências sobre assuntos como violência doméstica e exploração sexual de crianças e adolescentes.

O projeto começou em 2010 e já capacitou cerca de 3 mil professores. Hoje, 2.160 escolas no Estado já atuam com mediadores. A meta é que, até o início de 2015, todas as 5 mil escolas da rede estadual tenham ao menos um professor com essa função.

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