Ir para o conteúdo
ir para o conteúdo
 • 
Você está em Notícias >
Início do conteúdo

Morre bispo que foi personagem central na greve da CSN

D. Waldyr Calheiros, que tinha 90 anos, foi perseguido durante a ditadura militar

01 de dezembro de 2013 | 20h 05
Felipe Werneck - Agência Estado

RIO - O bispo emérito de Barra do Piraí e Volta Redonda, no sul fluminense, dom Waldyr Calheiros, que teve papel decisivo na luta contra a ditadura militar (1964-1985), morreu na manhã de sábado, 30, aos 90 anos. Com uma trajetória marcada pelo envolvimento em causas sociais e pela defesa intransigente dos direitos humanos, ele foi ameaçado e perseguido por militares, mas não se calou.

D. Waldyr foi autor da denúncia que resultou na punição dos responsáveis pela morte de 4 soldados - Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão
D. Waldyr foi autor da denúncia que resultou na punição dos responsáveis pela morte de 4 soldados

D. Waldyr foi o autor da denúncia que resultou na punição dos responsáveis pela morte sob tortura de quatro soldados em um batalhão do Exército em Barra Mansa, em 1972, e destacou-se como um dos personagens centrais na histórica greve da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), em que três operários foram mortos por militares, em 1988. Ele estava internado com infecção pulmonar desde o início de novembro e morreu de falência múltipla dos órgãos. O corpo foi velado em Volta Redonda, onde ele era conhecido como "bispo de sangue". O enterro está previsto para esta segunda, 2.

Em 12 de setembro, d. Waldyr havia gravado seu depoimento à Comissão Nacional da Verdade (CNV). O papel do bispo no caso dos quatro soldados mortos sob tortura foi revelado pelo historiador americano Kenneth Serbin, autor de uma tese e de livros sobre o tema, como "Diálogos na sombra - Bispos e militares, tortura e justiça social na ditadura", de 2001 (Cia das Letras). Quando houve o golpe militar, em 1964, d. Waldyr já havia sido nomeado pelo papa como bispo auxiliar da Arquidiocese do Rio, mas ainda não tinha tomado posse. No dia do golpe, ele não deixou de se manifestar durante uma missa, na presença de militares. "O que nós assistimos foi um golpe militar. Os militares não querem a reforma agrária e outras reformas que foram anunciadas", declarou. Dois dias depois, recebeu a visita de um secretário do arcebispo, pedindo que não falasse mais de golpe. "Entendi a visita como um recado indireto do cardeal", disse ele em depoimento para o livro "O bispo de Volta Redonda: memórias de Dom Waldyr Calheiros", lançado em 2001 pela Fundação Getulio Vargas. Uma das organizadoras do livro, junto com Serbin e Célia Maria Leite Costa, foi a historiadora e cientista política Dulce Pandolfi.

Para Dulce, a punição de militares acusados de tortura e morte no batalhão de Barra Mansa foi um caso único em todo o regime. "Não sei de outros casos. Acho que foi o primeiro, de fato. Como a Igreja tinha uma ambiguidade em relação ao regime, ele (d. Waldyr) conseguiu uma brecha. Se colocava na linha de frente, tipo ou vai ou racha. Quando pegava uma causa, não dava trégua, teve um papel importantíssimo. Foi um dos principais bispos na organização dos trabalhadores e movimentos, assim como na luta contra a ditadura. Acho até que não teve o destaque que merecia", diz a historiadora.

Os militares acusados no relatório preparado por d. Waldyr - e entregue pela cúpula da CNBB ao general Antonio Carlos Muricy - foram julgados e expulsos do Exército. Dulce lembra que em diversos momentos auxiliares do bispo foram perseguidos pela ditadura. "Em todos os casos ele teve uma coragem impressionante, colocava (os militares) em xeque mate." Na conversa de mais de 15 horas sobre sua história de vida para o livro da FGV, o bispo relatou a ameaça que sofreu após a denúncia contra os militares que torturaram e mataram os recrutas no quartel de Barra Mansa. Soldados e um professor que frequentava a igreja bateram à sua porta às 2 da madrugada sugerindo que ele não levasse o caso adiante. "Estou junto às famílias desoladas dos mortos. Então você quer que não se faça justiça e defende a impunidade? É triste uma religião que protege os poderosos, esquece os pequenos e fracos, defende a morte", respondeu d. Waldyr.

Em outro episódio marcante, quando soube que auxiliares seus haviam sido presos, ele apresentou-se ao Exército e pediu para ser preso no lugar deles. A acusação era de serem "subversivos" ligados ao bispo. "Se o grande criminoso sou eu, vim ficar solidários a eles", disse d. Waldyr. O coronel que o recebeu havia dito que não poderia prender um bispo, mesmo que ele lhe desse um tiro. "Não sei atirar e nem quero aprender, mas vou ficar preso", respondeu d. Waldyr, que ficou mais de 12 horas no quartel e saiu junto com os auxiliares. Houve vários outros casos de prisões e invasões da diocese por militares.

Protetor de presos políticos e engajado nas lutas sociais, o bispo também combateu a hierarquia na Igreja. Ele criticava os rituais excessivos e a postura rígida, além do distanciamento do povo, diz Dulce. "Era muito próximo dos movimentos sociais, essa foi a marca dele. Foi super inovador, fez uma estrutura descentralizada em Volta Redonda e criou mais de 100 grupos comunitários, compostos por religiosos e leigos."

Alagoano de Murici, d. Waldyr foi bispo auxiliar do Rio de 1964 a 1966 e bispo da diocese de Barra do Piraí e Volta Redonda por 34 anos, de 1966 a 1999. Grande defensor dos princípios da Teologia da Libertação e incentivador das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e das pastorais sociais, ele estudou Filosofia no Seminário Maior de Maceió (AL) e Teologia no Seminário São José, no Rio. O professor da PUC-Rio e da UERJ Adair Rocha, amigo de d. Waldyr, lembra que muitos o chamavam de bispo socialista. "Ele era o que conseguia, inclusive dentro dos setores progressistas da CNBB, colocar as coisas politicamente mais avançadas." Para d. Waldyr, o modelo capitalista era incapaz de resolver os graves problemas de desigualdades sociais, e o grande desafio para a esquerda era encontrar uma "alternativa verdadeira".

A atuação de d. Waldyr foi sempre muito marcada pela aproximação com os operários de Volta Redonda. Na greve de 1988, ele tomou posição a favor dos funcionários da CSN, que reivindicavam melhores condições de trabalho, e abrigou líderes do movimento. Recebeu uma carta da Congregação para os bispos com advertências relacionadas à sua pregação. O documento fazia parte do esforço do papa João Paulo 2.º para conter o avanço da Teologia da Libertação na América Latina. O mentor da ação era o então prefeito da Congregação para Doutrina da Fé, o cardeal alemão Joseph Ratzinger, lembrou o jornalista Roldão Arruda em seu blog no Estadão.

Em nota, a arquidiocese do Rio apontou d. Waldyr como defensor dos pobres e marginalizados, destacando sua atuação como o 'Bispo da Juventude', especialmente durante a ditadura: "Ficou conhecido ainda por seu engajamento nas lutas sociais em favor dos menos favorecidos, como o movimento dos posseiros e o movimento sindical. Jamais negou abrigo e apoio a todos os perseguidos políticos que buscaram sua ajuda. Lutou desde sempre pelos direitos dos trabalhadores e de todos os segmentos oprimidos da população brasileira, estendendo o seu apoio também às lutas de outros povos pela liberdade e pelo fim da exploração econômica da força de trabalho."





Tópicos: D, Waldyr, Morte

Estadão PME - Links patrocinados

Anuncie aqui

Siga o Estadão




Você já leu 5 textos neste mês

Continue Lendo

Cadastre-se agora ou faça seu login

É rápido e grátis

Faça o login se você já é cadastro ou assinante

Ou faça o login com o gmail

Login com Google

Sou assinante - Acesso

Para assinar, utilize o seu login e senha de assinante

Já sou cadastrado

Para acessar, utilize o seu login e senha

Utilize os mesmos login e senha já cadastrados anteriormente no Estadão

Quero criar meu login

Acesso fácil e rápido

Se você é assinante do Jornal impresso, preencha os dados abaixo e cadastre-se para criar seu login e senha

Esqueci minha senha

Acesso fácil e rápido

Quero me cadastrar

Acesso fácil e rápido

Cadastre-se já e tenha acesso total ao conteúdo do site do Estadão. Seus dados serão guardados com total segurança e sigilo

Cadastro realizado

Obrigado, você optou por aproveitar todo o nosso conteúdo

Em instantes, você receberá uma mensagem no e-mail. Clique no link fornecido e crie sua senha

Importante!

Caso você não receba o e-mail, verifique se o filtro anti-spam do seu e-mail esta ativado

Quero me cadastrar

Acesso fácil e rápido

Estamos atualizando nosso cadastro, por favor confirme os dados abaixo