Morre um mito da música erudita

O musicólogo norte-americano, homenageado por Obama, escreveu livros de referência em sua área

, O Estado de S.Paulo

11 Dezembro 2012 | 02h06

Memória

Um dos maiores pianistas e historiadores da música do século 20, o norte-americano Charles Rosen morreu anteontem, no Hospital Monte Sinai de Nova York, de câncer, aos 85 anos. Visto como um homem da Renascença, Rosen é autor de livros de referência na área, como O Estilo Clássico (1971) e A Forma Sonata (1980), de certo modo uma continuação do primeiro por analisar essa forma musical típica da era clássica. O último livro publicado por Rosen, Freedom and the Arts (Harvard University Press, R$ 121,50), lançado em abril do ano passado nos EUA, traz uma coletânea de ensaios seus sobre música e literatura - ele era doutor em literatura francesa pela Universidade de Princeton.

A estreia de Rosen em Nova York como pianista, em 1951, foi seguida pela gravação completa dos Estudos de Debussy, abrindo as principais salas de concerto da Europa para o norte-americano. Alguns dos mais renomados compositores do século 20, entre eles Stravinski e Pierre Boulez, escreveram peças especialmente para serem gravadas por Rosen, que ajudou a promover a obra pianística do compositor norte-americano Elliott Carter, morto no mês passado. É dele a primeira gravação do Concerto Duplo (1959) do músico.

A importância de Rosen é medida até mesmo pelo esforço que fez para entender a modernidade musical - ele que, aos 7 anos, ouviu Debussy pela primeira vez e detestou, dizendo que era preciso ter uma lei para proibir peças musicais como a do compositor impressionista francês, que gravaria quando adulto. Rosen começou a aprender piano ainda garoto e foi aluno de Moritz Rosenthal, nascido em 1862, que chegou a ter aulas com Liszt.

Nascido em Nova York em 5 de maio de 1927, Rosen recebeu neste ano do presidente Barack Obama a medalha National Humanities por sua contribuição cultural. Erudito, ele detestava competições e dizia que arte não é uma questão de gosto, mas de entendimento - lembrando que também Beethoven sofreu a incompreensão de seus contemporâneos, como Igor Stravinski e Pierre Boulez sofreriam no século 20.

Beethoven, aliás, é um dos três autores analisados por Rosen em O Estilo Clássico. Dele, o musicólogo estuda as sonatas para piano, elegendo ainda Haydn (os quartetos de cordas) e Mozart (as óperas cômicas).

As últimas sonatas para piano de Beethoven foram gravadas por Rosen, que também registrou obras-primas do repertório barroco, destacando-se A Arte da Fuga e as Variações Goldberg, de Bach, além de peças de Schumann. Sobre a época do último, ele escreveu A Geração Romântica, lançado pela Edusp há dez anos e esgotado, que cobre da morte de Beethoven à de Chopin, e ainda um livro fundamental que analisa a produção literária do período, Poetas Românticos, Críticos e Outros Loucos (Ateliê Editorial, 280 págs., R$ 48).

Há quem defenda que o intelectualismo de Rosen atrapalhou sua carreira de pianista, prejudicada pela interpretação fria dos compositores românticos, mas basta ouvir seu registro das Variações Diabelli, de Beethoven, para derrubar o mito. Rosen podia ser cerebral, mas certamente não era um intérprete insensível./ ANTONIO GONÇALVES FILHO

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