Na ausência do Decididor

Para sociólogo, república bolivariana enfrentará dificuldades sem o caudilho em cena

LEONARDO VIVAS,

15 Dezembro 2012 | 15h55

Finalmente abriu-se a cortina na Venezuela e se soube o que todo mundo suspeitava: o caudilho da revolução bolivariana não só não se curou do câncer que o aflige, mas sua vida e a vida de sua revolução podem estar comprometidas. Ter se postulado como candidato presidencial neste 2012 com uma doença tão grave foi uma grande farsa. Ninguém mais pode acreditar que o presidente, os médicos, o governo cubano e os dirigentes chavistas não soubessem que três arriscadas operações e tratamentos posteriores deixariam a saúde do caudilho comprometida. E no entanto o povo venezuelano não recebe um boletim médico preciso sobre seu presidente. A doença de Chávez é o segredo mais bem guardado em Cuba e na Venezuela.

Esse abrir de cortina envolve três pontos. Primeiro, a democracia, que tantas lutas custou a gerações de venezuelanos, chegou ao nível mais baixo possível. O fato de o eleitorado ter sido inescrupulosamente enganado mostra instituições corroídas pelo personalismo do presidente e pela adulação a ele. Segundo, embora haja momentos tristes e dolorosos na vida de qualquer povo (a Venezuela conheceu vários), mais de 8 milhões de venezuelanos aceitaram prestar-se voluntariamente a uma farsa monumental. Isso os coloca ao lado dos europeus que, felizes como minhocas, um dia apoiaram Mussolini e Franco, para não citar outros piores.

Terceiro, a decisão de ocultamento, planejada e executada friamente pela liderança máxima da revolução bolivariana, faz pensar que a vida pública venezuelana seja atualmente um reinado de mentiras contumazes. E, se isso vale para uma decisão tão delicada, como manipular a doença do chefe de Estado, que dizer de outros milhares de ações de governo nestes catorze anos? Que dizer da opacidade com que são administrados os fundos petrolíferos, tanto os internos da PDVSA quanto os que irrigam as diferentes instituições públicas? Que dizer da infinidade de decisões judiciais que distorcem o caminho da Justiça para favorecer grandes e pequenos dirigentes da revolução? E das acusações de corrupção e prevaricação?

A partir do momento em que o presidente admitiu os problemas para se recuperar – ou sobreviver – e nomeou Nicolás Maduro sucessor, entramos numa fase diferente. De tanto personalizar o poder e colocar as instituições públicas a serviço de uma só vontade, a bizarra república bolivariana antevê dificuldades para funcionar na ausência do caudilho. O país não está preparado para que instituições públicas de grande complexidade, como o sistema judiciário, funcionem com dinâmica própria sem o grande tomador de decisões. O mesmo se pode dizer das finanças públicas e da economia. Na ausência do grande chefe da revolução, se a república não para de vez, no mínimo perde impulso. Chávez traçou todas as estratégias: a aquisição da indústria petroleira na crise de abril de 2002, as campanhas para a reeleição, as nacionalizações e expropriações, o controle férreo da moeda, as alianças internacionais com Estados párias, sem esquecer o famoso projeto de socialismo comunal.

Isso não quer dizer que a revolução bolivariana esteja em fase terminal, como parece estar seu criador. Dadas as circunstâncias em que o caudilho sai de cena, em meio a eleições para governador e com eventuais eleições presidenciais para substituí-lo em 2013, o chavismo fica bem politicamente. Pode-se dar como certo seu triunfo nas eleições para governador, por reflexo da vitória presidencial de 7 de outubro. No 17 de dezembro, as probabilidades de que o país se vista de vermelho são altas.

Podemos dizer o mesmo sobre uma eleição presidencial para substituir Chávez. Imagine o leitor: alguns comícios em meio ao tumulto do retorno dos restos fúnebres do caudilho. O clima emocional que marcou 2012 é a plataforma ideal para o lançamento de Nicolás Maduro e seu possível triunfo.

Falou-se muito de Maduro, de sua brilhante ascensão de dirigente sindical aos postos mais elevados da república, que representa a ala civil da revolução, que tem a confiança de Fidel, Raúl e outros. Desconfia-se de sua capacidade para tomar as rédeas. Mas as primeiras impressões sugerem que seria estabelecido um modus vivendi na divisão do poder entre diferentes alas para resistir à tempestade. Ainda assim, serão tempos difíceis.

Há uma bomba-relógio na economia. Se Maduro ganhar, espera-o a desvalorização do bolívar, a desordem das finanças públicas, o virtual colapso da economia produtiva. Vamos assistir a explosões de protesto pelo cumprimento das promessas eleitorais de 2012. É difícil prever o curso que seguirá o regime. A melhor probabilidade de se manter longe de uma crise pior é conseguir acordos com a oposição para um maior equilíbrio do poder, acordos que garantam a participação oposicionista em outros poderes públicos, seja a auditoria fiscal, o sistema judicial ou a Assembleia Nacional. Se Maduro perder, outro galo cantará. Mas essa é outra história. / TRADUÇÃO JULIANA SAYURI

* LEONARDO VIVAS É SOCIÓLOGO VENEZUELANO, DIRETOR DO LATIN AMERICAN INITIATIVE DO CARR CENTER FOR HUMAN RIGHTS DE HARVARD

 

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