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Nação Paulistana

A maior metrópole da América do Sul, com quase onze milhões de habitantes, é uma cidade de grandes contrastes e antagonismos: convive-se diariamente e, quase sempre simultaneamente, com a Idade da Pedra e a Era Cibernética no mesmo espaço. Multicultural, diversa e plural, é a metrópole das oportunidades para muitos, brasileiros ou não, tornados cidadãos paulistanos em um planeta urbano sem fronteiras. 

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Laura Valente de Macedo *,
Especial para O Estado de S. Paulo

25 Janeiro 2016 | 20h30

São Paulo pode ser descrita de muitos pontos de vista diferentes, como aquele elefante dos cegos, mas cada um tem que buscar sua própria cidade em meio ao emaranhado de ruas e edifícios desconexos, salpicado de beleza aqui e ali. Nesta cidade que tem escala de país, tribos e sotaques multiplicam-se em histórias entrelaçadas, territórios que se conectam e se sobrepõem. E é nessa mistura que reside a beleza da nação paulistana: o melhor de São Paulo é sua gente. Mas, como vive toda essa gente?

Enfrentar o transporte público lotado e o trânsito congestionado faz parte da rotina do paulistano e, o ar carregado de poluição é distribuído democraticamente. De tempos em tempos o cidadão paciente é privado de acesso por causa de enchentes, ou de água, por causa da estiagem. E, mesmo que se dê conta de que seus rios não passam de esgotos a céu aberto, o contribuinte segue indiferente, resignado com o saneamento deficiente recebido em troca de seus impostos. Definitivamente, não é uma cidade para amadores. Ou vulneráveis... as calçadas paulistanas são verdadeiras armadilhas, seja em bairros nobres ou não, nos centros e nas periferias. 

São Paulo é amada, odiada, admirada, mas, sobretudo, desrespeitada por muitos dos que dela se beneficiam. Mesmo assim, é generosa: aqui encontra-se de tudo; boa comida, música para todos os gostos, cultura erudita e popular, parques e até silêncio - raro, porém, disponível em alguns poucos espaços fechados (nunca nas ruas, por onde veículos circulam dia e noite sem parar com seus motores infernais). Paga-se caro para se desfrutar das boas coisas que o maior mercado consumidor da América Latina pode oferecer. Serviços básicos, como educação, segurança e saúde, quem pode, paga em dobro, quem não pode, espera na fila.

Então, por que insistimos em viver aqui? Os números nos contam que as vantagens são percebidas como maiores do que as mazelas que temos que suportar e, para as quais também contribuímos, por ação ou por omissão. É o preço por se viver no portal brasileiro do mundo civilizado. 

Aqui como em outras cidades globais, densidade urbana está associada a produtividade e eficiência, a emprego, arrecadação e desenvolvimento. São Paulo abriga centros de excelência em pesquisa e inovação e o maior número de escritórios multinacionais no mundo, atrás apenas de Nova York. Em 2011, a consultoria internacional KPMG ranqueou São Paulo em quarto lugar entre as capitais mundiais que mais captaram investimentos diretos estrangeiros e, a despeito do momento de crise e da descentralização econômica dos últimos anos no Brasil, São Paulo continua sendo a terceira economia nacional. 

Houve um tempo em que muitos queriam vir para São Paulo, para estudar, trabalhar, construir uma boa vida, talvez regressar à terra de origem em condição melhor, mas sempre voltar, talvez até ficar e trazer os seus. Todos contribuíram para a construção da nação paulistana. Mas hoje, muita gente está deixando São Paulo, cansada de lutar e de se constatar desamparada, de pagar por promessas que não se materializam. 

Para os que persistem, porém, a cidade se humaniza, abrindo espaço para as novas gerações que não veem no automóvel o símbolo máximo do sucesso. Aos poucos os ciclistas ganham espaço nas vias, os pedestres ocupam algumas calçadas a mais, manifestantes saem às ruas e, abre-se o diálogo onde antes havia descaso. O conceito de cidade sustentável começa a fazer sentido para muitos e meio ambiente, sabe-se agora, é mais do que a floresta distante. Hoje somos diferentes, as pessoas tornaram São Paulo melhor, mas ainda é preciso muito mais. São Paulo somos nós.

* Laura Valente de Macedo é consultora, especialista em políticas e gestão para sustentabilidade. Arquiteta, tem mestrado em gestão ambiental pela Universidade de Oxford e é doutoranda no IEE/PROCAM -USP, com pesquisa sobre governança multinível, cidades e mudanças climáticas

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