'Não há nada contra a prova do Enem'

Com posse marcada para 11 de janeiro, dirigente admite possibilidade de instituição substituir vestibular pelo exame

Entrevista com

BRENO PIRES, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

16 Dezembro 2012 | 02h05

Reitor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) pelos próximos quatro anos, Julio Cezar Durigan, com posse marcada para 11 de janeiro, não descarta a hipótese de a instituição adotar nos próximos anos o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) como única prova seletiva para ingresso em seus cursos, em substituição ao vestibular tradicional.

Atualmente, a pontuação do Enem já pode ser utilizada parcialmente pelos candidatos no vestibular da Unesp - mas vale, no máximo, 10% da nota final. Para uma adesão completa, Durigan afirma que o Enem precisaria se tornar mais confiável - isso envolveria, por exemplo, uma aplicação segura e um nível de exigência alto em relação ao conteúdo cobrado na prova.

"Não há nada contra a prova do Enem. Mas, por outro lado, há uma série de garantias necessárias para que instituições como a Unesp, a Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e a USP (Universidade de São Paulo), que têm um vestibular consolidado há anos, possam mudar de repente a regra na seleção", afirma o educador, que é membro do Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (Cruesp).

No mês passado, o dirigente criou polêmica ao anunciar que as universidades estaduais paulistas apresentariam uma proposta ao governador Geraldo Alckmin para adoção de um programa de cotas que destinaria 50% das vagas a alunos que cursaram integralmente o ensino médio em escolas públicas. Agora, em entrevista ao Estado, Durigan fala sobre os planos para a sua primeira gestão como reitor - ele era vice-reitor e estava ocupando o cargo desde que Herman Voorwald assumiu a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo. Expansão, sustentabilidade, integração com a comunidade e internacionalização são alguns dos desafios da Unesp para os próximos anos.

É possível que a Unesp passe a adotar o Enem como única prova seletiva de ingresso dentro de alguns anos?

Depende de uma série de coisas, mas é possível. É tudo questão de o Enem se mostrar um exame confiável e que dê qualidade para os alunos que vão entrar. A partir do momento em que as universidades estaduais paulistas tiverem garantias da realização dessa seleção, não há problemas para que adotem o Enem como forma de seleção.

Quais são essas garantias?

São garantias como a confiabilidade no exame, a forma de aplicação, a matéria que é exigida. Antes de tudo, há uma série de características que precisam estar conversadas e adequadamente solucionadas.

O Enem neste ano não teve problemas quanto à segurança na aplicação das provas. Pode estar se consolidando?

É o primeiro ano. Nos outros anos houve (problemas). Se tivéssemos trocado o nosso vestibular todo pelo Enem teríamos tido problemas. A Unesp já usa o Enem, de forma mais cuidadosa.

Quais são as prioridades no seu plano de gestão?

A proposta se divide em três partes. A primeira parte da nossa proposta é a manutenção. Precisamos atender bem o tripé: reposição de pessoal, investimentos em infraestrutura e custeio do dia a dia das unidades. A segunda parte envolve investimento em algumas áreas que consideramos vitais: investimento em tecnologia da informação e comunicação. Por sermos descentralizados, com 24 câmpus no Estado, temos de aprimorar a comunicação a distância, por videoconferência, para professores de unidades que ficam distantes.

Existem planos de expansão de unidades?

Temos o câmpus criado em São João da Boa Vista, com dois novos cursos de Engenharia, para o ano que vem. Já tivemos expansão recente de 11 cursos de Engenharia, contando com esses dois. Seis cursos serão implementados em março de 2013 e cinco em março de 2014. A nossa universidade está crescendo também em qualidade. Com 36 anos, já está entre as 100 melhores universidades do mundo com até 50 anos no ranking da Times Higher Education, junto com a Unicamp. Crescemos a ponto de a universidade ser reconhecida nacionalmente e internacionalmente. Todo prefeito e todo município do Estado de São Paulo gostariam de ter um câmpus da Unesp.

A Unesp anunciou em outubro que terá aulas em inglês para a pós-graduação, para aproximar os estrangeiros. A internacionalização é uma meta sua?

Sim. O inglês é necessário porque os alunos de universidades de línguas complicadas, como China e Alemanha, dificilmente vêm estudar conosco se a disciplina é ministrada em português. Isso limita muito a comunicação deles. Vamos oferecer 65 disciplinas de diferentes áreas para aumentar a integração. E, junto com isso, as disciplinas precisam ter características padronizadas para que os estudantes possam usar os créditos lá fora. Por isso, estamos nos preparando para nos adequar ao Sistema Europeu de Transferência de Créditos (ECTS, em inglês). Também já temos um convênio com a Universidade de Grenoble, na França. Os alunos de Engenharia (Civil e Mecânica) cursam parte das aulas aqui e parte lá, e quando se formam obtêm um diploma duplo.

Em relação à comunicação a distância, já existem novos planos para a educação online além do curso de Pedagogia que é oferecido pela Unesp?

Temos o Redefor, um curso para fortalecimento da formação de docentes da rede pública do Estado de São Paulo. Atendemos 900 e queremos ir para 3.500 no próximo ano, mas depende de o governo bancar. Temos também a proposta de colocar cursos para alunos com deficiências, como alunos cegos, alunos surdos.

A Unesp participa do Enade. Qual é a sua visão sobre a importância dessa prova para as universidades estaduais?

Eu sou um defensor do Enade, acho que a universidade pública tem melhor qualidade que as outras - a pública paulista, sobretudo - e ela não pode se negar a ser avaliada. Unesp vai continuar participando.

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