Não manguem do mangarito

Para quê saber dessas coisas esquisitas se elas não podem ser compradas no supermercado?, pode perguntar o leitor. Ora, uma coisa pode vir antes da outra e assim, talo a talo, avançamos. Quem sabe um dia você não se depara com uma bacia de mangarito na feira de uma pequena cidade que foi visitar ao acaso? Se você souber o que é, vai querer comprar.

O Estado de S.Paulo

16 Agosto 2012 | 03h11

Sabe aquele ambiente de "beldroegas em carreirinha indiscreta" que Guimarães Rosa descreve como o lugar esvaziado pela malária no conto Sarapalha, em Sagarana? Meu primeiro mangarito veio de um lugar assim, como uma metáfora para seu quase completo desaparecimento.

Foi há mais de dez anos, em Pirenópolis. Fui visitar a sogra do dono da pousada, que vivia num engenho desativado. O cenário era o de abandono da terra. A mulher viúva, que fazia comidas deliciosas em panelas de alumínio areado na cozinha encardida pela fumaça de lenha, me mostrou a horta tomada de carurus, serralhas e ervas daninhas. Entre o inço e a tiririca seca, avistei uma moita de folhas viçosas em forma de coração. "Ah, é mangarito. Já tive muito, agora esse aí nasceu de teimoso, pode pegar se quiser, que eu compro batatas." Claro que aceitei.

Plantei no sítio os rizomas que trouxe. Logo se multiplicaram.

Eu só conhecia de nome, de tanto meus pais falarem - mangarito com frango caipira, mangarito assado na brasa com melado, etc. - e de uma crônica da Nina Horta, a primeira pessoa que vi falando do mangarito na mídia.

Tenho medo de enganar o leitor fazendo-o pensar que comer mangaritos o levará à epifania. Não é o caso. A experiência pode trazer rompantes de alegria pelo conjunto da obra e não só pelo sabor delicado, que tem certa doçura e terrosidade que passam longe, sem picância, amargor nem acidez. Ele tem a marca da ancestralidade, do vegetal rústico, sazonal, nutritivo, não contaminado, dos tempos da horta bem cuidada de fundo de quintal, quando se podia colher variedades brancas, amarelas e roxas.

Esses das fotos são ditos roxos, embora a polpa seja laranja e a superfície tenha coloração rosada. E como são gostosos com melado ou com galinha caipira. Foram presente do seu João Lino Vieira, o maior mangariteiro que conheço, que trabalha com variedades diferentes. Logo vai ter do amarelo, me prometeu.

Enquanto seu João segue reproduzindo variedades que descobre Brasil afora, centros de pesquisa trabalham para recuperar o consumo de hortaliças tradicionais, como faz a Embrapa Hortaliças que vai apresentar agora, em agosto, na Feira da Agricultura Familiar e do Trabalho Rural (Agrifam ), em Agudos, o resultado desse trabalho.

Quem quiser plantar, procure Embrapa ou Instituto Agronômico de Campinas (IAC). E, para plantar e comer, tem o seu João Lino (Tel. 11 971 526 585, www-mangarito.blogspot.com), que manda por correio.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.