'Não se sabe o que ocorre dentro do Banco do Vaticano'

Declaração é de Mario Staderini, secretário do Partido Radical Italiano, que investiga o Instituto para Obras Religiosas

CIDADE DO VATICANO, O Estado de S.Paulo

11 Março 2013 | 02h06

O banco mais opaco do mundo não fica na Suíça, nas Ilhas Cayman ou nas Bahamas. Ele fica no Vaticano. Essa é a acusação que faz o secretário do Partido Radical Italiano, Mario Staderini, um dos principais políticos responsáveis pelos assuntos financeiros e fiscais da Santa Sé em Roma, que cobra do próximo papa uma reforma de seu sistema bancário da Igreja.

"Hoje, uma pessoa que tenha acesso ao Vaticano pode pegar uma mala com dinheiro no centro de Roma, caminhar até a Cidade do Vaticano, entrar no banco e fazer um depósito", declarou Staderini em entrevista exclusiva ao Estado. "Hoje, simplesmente não se sabe o que ocorre dentro do banco."

O Banco do Vaticano é oficialmente conhecido como Instituto para Obras Religiosas e foi tomado por uma série de escândalos nos últimos meses. Dois dias antes de renunciar, Bento XVI nomeou um novo CEO para a entidade, depois de o posto ficar vazio por oito meses. O papa emérito também apontou o brasileiro Odilo Scherer como uma das pessoas que continuará a monitorar as atividades do banco.

Staderini afirma que hoje o Vaticano não garante qualquer transparência para suas atividades financeiras e sugere que o próximo pontífice coloque isso como uma prioridade. "Essa situação é insustentável", disse.

Segundo ele, diversas investigações de graves crimes financeiros foram apresentadas à Justiça italiana nos últimos anos envolvendo contas do banco. "O que notamos é que não há uma colaboração suficiente das autoridades do Vaticano, que é um país independente, com a Justiça italiana. Não conheço um só caso de abertura do sigilo bancário de alguém no Vaticano", apontou.

Para ele, chegou o momento de as isenções fiscais dadas pelos italianos ao Vaticano acabarem. O político lidera uma campanha que, diante da crise econômica, ganha cada vez mais apoio.

Um informe interno preparado pela União Europeia sobre o banco e obtido pelo Estado também apontou sérias irregularidades na instituição financeira do Vaticano. Trata-se da primeira avaliação externa do banco e, ao ser concluída no fim de 2012, o levantamento revelou que o banco "não atende" os padrões de transparência exigidos pelos reguladores dos bancos europeus.

Segundo a UE, não existe um mecanismo claro para evitar que o banco seja usado para o crime financeiro nem uma cooperação para eventuais processos.

O cargo no banco estava vago até a semana passada porque, em maio, o banqueiro Ettore Gotti Tedeschi, um amigo pessoal do papa, foi sumariamente demitido. Na época, o Vaticano deu a entender que o banqueiro estava relacionado com o vazamento dos documentos roubados pelo mordomo do papa, que revelaram corrupção na Igreja.

Mas, poucos dias depois, a polícia italiana encontrou em sua casa uma carta para ser lida caso ele fosse assassinado. Nos três anos no comando do banco, ele teria descoberto que as contas eram usadas para lavagem de dinheiro. A pressa na nomeação de seu sucessor fez despertar suspeitas de que não teria sido o papa quem o nomeou, e sim o cardeal Tarcisio Bertone, para garantir um aliado antes da chegada de um novo papa. /J.C.

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