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Nas aldeias do Alto Purus

Daniel Piza (texto) e Tiago Queiroz (foto)

04 Abril 2009 | 17h 07

A partir da boca de Chandless, domínio é das mais de 20 tribos das etnias kaxinawá e kulina, que Euclides não viu

SANTA ROSA DO PURUS (AC) - A partir da metade do trecho acreano do rio Purus, à altura do rio Chandless, a paisagem humana muda: as famílias de ex-seringueiros dão lugar às aldeias de índios de duas etnias, a kaxinawá e a kulina. O rio segue com as mesmas dimensões e velocidade; as aldeias, assim como as vilas, surgem a intervalos de quinze a trinta minutos, normalmente no alto de barrancos à margem, em cima dos quais se tem uma vista tira-fôlego dos estirões (trechos retilíneos) do Purus. Canoas, voadeiras (botes a motor abertos) e batelões (cobertos) ficam estacionados na base enlameada do barranco raramente com degraus.     Curiosamente, os índios e os ex-seringueiros sobrevivem de maneira muito parecida. Plantações de mandioca, milho e arroz são as mais comuns, e não é difícil encontrar algumas cabeças de gado. Jabutis ficam amarrados em galhos de árvore, o futebol é jogado em gramados muitas vezes com traves, o número de crianças é muito maior que o de adultos, as malocas têm o mesmo tipo de telhado de palha caprichosamente trançada. E, tal como os vizinhos "brancos", muitos deles chegaram a cortar seringa em décadas passadas, embora em geral fossem discriminados como preguiçosos.   Veja também  Depois dos seringais  Veja as fotos e ouça o relato da equipe de reportagem  Assista ao trailer do documentário 'Um Paraíso Perdido'   A primeira aldeia que visitamos é a Santo Amaro, na forquilha do Purus com o Chandless, de etnia kulina. Dali até a fronteira, em Santa Rosa do Purus, há quase trinta aldeias, na maioria kaxinawá. Os kulinas são considerados mais ariscos, menos aculturados que os kaxinawás, dos quais vemos indivíduos cursando faculdades ou fazendo carreira política. Talvez por isso, entre os kulinas há mais problemas de saúde, como o alcoolismo. Em Santo Amaro, porém, não notamos essas diferenças. Eles se mostraram felizes; como sempre, ficaram curiosos com as câmeras; depois cantaram para os visitantes.   Ali como nas aldeias acima, é comum ouvir pedidos. O mais comum, vindo sobretudo de mães adolescentes com bebês suspensos ao lado do corpo com ajuda de um pano ou toalha na diagonal, é: "Tem bolacha? Me dá bolacha!" Os adultos costumam pedir combustível para o motor do barco, até para que possam ir ao Projeto Cidadão, que acontecerá no dia seguinte em outra aldeia. As crianças, mais uma vez, nos oferecem frutas ou amendoim, além de vender pulseiras, colares e tiaras de miçangas coloridas. Quando partimos, vemos alguns botos cinzas à cata de peixes na boca do Chandless.   No fim da tarde chegamos à Nova Aliança, aldeia kaxinawá com cerca de 150 habitantes, onde será realizado o mutirão por dois dias, usando como sede a escola local, uma casa de madeira com duas salas e uma varanda. Ao longo do dia seguinte, índios de diversas aldeias – como Novo Recreio, Fronteira, Fortaleza, Novo Lugar e a própria Santo Amaro –, algumas a até 4 horas de distância, vão chegando em filas. "Oi, txai" (oi, amigo, na língua kaxinawá, chamada de hatxa kuí) é o cumprimento que imediatamente se universaliza. Nós, os brancos, somos os "kariús". Homens de cocar, uma menina com um macaco soim (espécie de sagui) na cabeça, bebês dormindo em cima de folhas de bananeira sobre o gramado – as cenas se sucedem. A nosso pedido, ouvimos o mariri, canto típico dos kaxinawás.   Famílias que somam quase 40 pessoas aparecem em busca de RG, CPF, título de eleitor, carteira de trabalho, certidão de nascimento e de casamento. Filas se formam para tirar fotos e depois preencher os formulários com ajuda de servidores do Ministério do Trabalho, do Incra, dos Correios e do cartório de Santa Rosa do Purus. Entre eles, está um dos filhos de Chico Mendes, Sandino, representando o Ministério do Desenvolvimento Agrário. O coordenador do projeto, José Ferreira Neto, o "Loiro", um ex-sindicalista de 47 anos, informa o resultado final: foram 350 RGs, quase 1.500 documentos ao todo. Na aldeia Novo Marinho, quatro dias depois, mais 152 pessoas foram atendidas.   Aos 14 anos, o projeto ajudou a derrubar o número de pessoas sem registro no Acre de 68% da população para 11%. Uma delas é Aristodis Kuerino Bardero Kaxinawá, de 62 anos, que veio caminhando da aldeia vizinha Nova Fronteira. Ele exibe satisfeito uma folha em branco dentro de uma pasta em que se lê CERTIDÃO DE NASCIMENTO. É o primeiro documento de sua vida. Ele também acabou de tirar RG e título de eleitor, que, por precisarem das fotos, serão entregues mais tarde. Ele também queria pedir aposentadoria, mas o INSS exige que se vá até a cidade. Outras procuras que não podem ser atendidas são as das mulheres por auxílio-maternidade e Bolsa Família, programas oficiais que sustentam e multiplicam as centenas de índios da região. Elas também são orientadas a ir até Santa Rosa do Purus.   Há cerca de 7 mil kaxinawás no Acre, quase 70% deles concentrados no Rio Tarauacá, ao norte. Foi de lá que muitos dos habitantes do Alto Purus vieram. Ao tempo da viagem de Euclides da Cunha, em 1905, eles não moravam aqui. Estavam "no centro", como diz o padre Paolino; ficavam na mata, distantes dos rios, porque na grande maioria haviam sido expulsos por bandeirantes em tempos mais remotos e por seringueiros um século atrás. Daqui para cima, Euclides viu a tensão entre os seringueiros brasileiros e seus rivais peruanos, os "caucheiros", assim chamados porque extraíam látex de outra espécie de árvore, o caucho. Hoje nem seringueiros nem caucheiros existem mais.   Deixamos a baleeira "Euclides da Cunha" em Nova Aliança e partimos em duas voadeiras. Apesar do amplo predomínio de indígenas, encontramos ainda um ou outro ex-seringueiro, como Manuel Pereira de Freitas, 67 anos, um filho de cearenses que se estabeleceu em Santa Rosa há cerca de 30 anos. Até 1995 ele cortou seringa, e sobre o fim da extração ele não tem dúvidas: "Foi ruim. Isso acabou com nosso estado." Segundo ele, a agricultura dá menos dinheiro, apesar dos vinte bois que mostra com orgulho. Aposentado do Funrural, ele tem cinco filhos, mas três foram morar em cidades. Seu Manuel diz que sempre se deu bem com peruanos, mas não com os índios, que "roubam galinhas e caçam jacarés com tingui" (tipo de veneno vegetal).   Em outra comunidade, Santa Helena, encontramos José Antônio Cunha da Costa, 59 anos, 30 como seringueiro. Este é o local onde Euclides viu um cemitério com lápide peruana que se referia a "assassinados por brasileiros". Não encontramos a lápide, apenas um pequeno cemitério de brasileiros. Seu José tem doze filhos vivos, três dos quais morando em cidades. Um deles é professor da vila, embora tenha parado na quarta série. Ao contrário de Manuel, seu José não tem saudades da borracha. "Não quero nem sonhar. Deus me defenda!"   Nossa próxima parada, depois de Novo Marinho, é na fronteiriça Santa Rosa do Purus, cidade de 4 mil habitantes que tem 53% de indígenas; o vice-prefeito e três dos nove vereadores são kaxinawás. Um dos vereadores é Edmar Domingos Kaxinawá, nome indígena Yubê, de 38 anos, que usa um colete dado por um "parente" (índio) peruano e uma tiara de padrão geométrico preta e branca. Ele tem oito filhos e sua mulher recebe R$ 120 do Bolsa Família. Como vereador, ele recebe R$ 1.800, mas diz que vai propor aumento porque o prefeito e o vice ganham "bem mais". A sessão de 12 de março foi a primeira da Câmara no ano.   Na cidade é comum que as crianças repitam três ou quatro vezes a mesma série, e não há aula do 5º ano em diante, embora haja unidade da Universidade Federal do Acre. O prefeito, Zé Brasil, diz que a cidade tem baixa criminalidade, apesar do assassinato recente de um fazendeiro, e aponta como maior problema a questão de saúde entre os índios do Purus. Verminoses são as doenças mais comuns; a malária foi praticamente erradicada, mas agora a dengue começa a ameaçar; e a mortalidade infantil ainda é muito alta.   Depois de dormir na pequena pousada à beira do rio – sem água quente, mas pelo menos com lençóis limpos –, saímos para o Peru. São 6 horas a 40 km/h até a primeira cidade, Puerto Esperanza; durante mais de metade da viagem, tomamos chuva, um toró de pingos grossos e gelados que caem num ângulo de 45 graus. Chegamos a Esperanza desesperançados. O pequeno porto estava tomado por peruanos serrando troncos de madeira. As ruas, sem pedras nem tijolos, estavam enlameadas; o veículo que nos levou até a única e anti-higiênica pousada, um mototáxi ao estilo vietnamita, só não caía pela perícia do piloto. Era início da noite, mas a iluminação das ruas é restrita ao horário das 19h30 às 22h30.   Na manhã seguinte, tivemos a companhia do prefeito, Emilio Bardalos, da aldeia San Martín, para ir até nosso ponto final, a forquilha do Purus com o rio Curanja, onde Euclides e os peruanos lavraram acordo sobre a demarcação. Foram mais duas horas de viagem, também sob chuva, o que deixou ainda mais claro o heroísmo da expedição capitaneada há 104 anos pelo escritor, que a esta altura já tinha malária e tomou um caldo de macaco para se fortificar. A reduzida equipe de Euclides ainda seguiu algumas semanas acima, até a foz do Cavaljani, perto do bosque onde hoje está reconhecida a nascente do Purus. Pioneiro nas letras, Euclides também o foi na geografia.