Nem tudo que borbulha é boa bolha

Os pilotos de Fórmula 1 sabem conduzir carros com velocidade, mas de champanhe não entendem nada. Aquela cena tradicional de um jorro de bebida comemorando a vitória destrói toda a graça do espumante. Não dirija como eles e não abra garrafas como eles. Em casa, na hora de comemorar, tente retirar a tampa com delicadeza, segurando firmemente a rolha, girando-a e arrancando-a sem que voe. Deixe escapar apenas um discreto suspiro da garrafa. Quanto mais borbulhas forem salvas para a taça, mais eloquente será a bebida. Pois sem o gás o espumante é apenas um vinho branco. Pode ser um excelente branco - afinal alguns são feitos com as melhores parcelas de uvas Chardonnay e Pinot Noir da região de Champagne. Mas as bolhas, aquelas que sobem para a cabeça, segundo a música, pinicam o nariz, segundo as divas do cinema, e alegram os espíritos nas festas, segundo todo mundo, são a diferença. A boa bolha vem da fermentação natural - a segunda, que acontece dentro da garrafa (no caso do método tradicional, dito champenoise) ou nos tanques de aço (caso do método charmat). Evite apenas as bebidas em que o gás é artificialmente colocado no engarrafamento. Isso nem pode ser chamado espumante, parece mais refrigerante. Os estilos de espumantes são muito variados. Há até tintos australianos. O Paladar listou abaixo os mais conhecidos e disponíveis no mercado brasileiro. Para todos, o ideal é beber muito frio. MOSCATEL | É uma uva que produz vinhos amáveis, em geral adocicados, com baixo teor alcoólico e bem amigáveis como aperitivo. Não são complexos nem chegam à grandeza de um champanhe, mas ocupam um espaço relevante no gosto. A Moscatel é versátil e cresce em todas as regiões vinícolas, embora tenha uma de suas mais conhecidas expressões na região demarcada do Moscato d’Asti, na Itália. Os espumantes brasileiros feitos com ela têm conseguido destaque, alguns produtores fazem uma versão mais seca com grande potencial gastronômico e os doces são perfeitos com as sobremesas PROSECCO | Ao contrário do que sua fama faz pensar, não é um estilo de vinho, mas o nome da uva do Vêneto de que esses famosos espumantes são feitos. Só duas regiões italianas compõem a denominação de origem Valdobbiadene e Conegliano. Foram moda no Brasil, que produz também seus vinhos com a prosecco, mas seu consumo já não é tão grande. São espumantes simples, frutados, descompromissados, e dão um bom aperitivo. Com baixo teor alcoólico e acidez moderada, sua popularidade se explica também pelo preço acessível. Não tem longevidade e são para beber jovens e bem frios ESPUMANTE | É a denominação genérica para todo vinho borbulhante feito no mundo. Os brasileiros ganharam boa notoriedade, há ótimos exemplares gaúchos, de diferentes estilos. Mas todos os países que produzem vinhos têm seus espumantes. E todas as uvas podem, pelo menos em teoria, passar pelo processo de vinificação para virar um espumante. Os argentinos fazem gostosos Torrontés, os austríacos Grüner Veltliner e há até mesmo um Shiraz espumante tinto australiano! A grande novidade, algo impensável anos atrás, são os espumantes ingleses, fruto do aquecimento climático no norte da Europa CAVA | Os espumantes produzidos na Espanha, na única denominação de origem que cobre mais de uma região na península ibérica. A D.O. Cava abrange a famosa região do Penedès na Catalunha e uma parte dos vinhos de Madri. As uvas são locais, Macabeo e Xarel.lo e o estilo é ligeiro, refrescante, com boa acidez. Feitos para serem bebidos logo, sem muito ritual, são servidos em bares acompanhando tapas. Alguns produtores acrescentam uma pequena quantidade de Chardonnay, permitida pela legislação, dando mais corpo e complexidade aos vinhos. São os espumantes mais vendidos no mundo CRÉMANT | Várias regiões francesas produzem espumantes. Como a lei não permite que sejam chamados de Champagne, por estarem fora da região demarcada, recebem outros nomes. O mais comum é Crémant, os Crémant d’Alsace e de Limoux são de Chardonnay, feitos pelo método tradicional e bem admirados. Limoux, no sul do país, produz também os agradáveis Blanquette de Limoux. O Loire tem a Chenin Blanc, uma uva algo esquecida, vinificada como pétillant ou mousseux, dois estilos de Vouvray muito bons, com excelente acidez, aroma complexo de mel e de grande versatilidade em harmonizações CHAMPAGNE | - Os mais famosos espumantes do mundo, originários da região homônima, situada a 145 km de Paris. Alguns de seus vinhos são muito complexos e caros e podem atingir anos de guarda. Com a passagem do tempo o fluxo de bolhas (chamado pérlage) vai ficando mais fino e os vinhos adquirem uma coloração âmbar e o aroma típico, chamado brioché, aquele cheiro de confeitaria quente num dia de inverno, que delicia o olfato. Os grandes champanhes como Bollinger, Krug, Taittinger, Pol Roger são um consenso pela qualidade. Champagne conseguiu um feito adicional, virou uma palavra símbolo de uma nonchalance luxuriosa

05 Janeiro 2010 | 10h45

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