Niemeyer morre no Rio aos 104 anos

RIO - Vítima de uma infecção respiratória, o arquiteto estava internado havia 33 dias e chegou a trabalhar e a receber técnicos para discutir projetos no hospital

FELIPE WERNECK, CLARISSA THOMÉ E FÁBIO GRELLET, O Estado de S.Paulo

06 Dezembro 2012 | 02h02

O arquiteto Oscar Niemeyer, de 104 anos, morreu às 21h55 de ontem, vítima de infecção respiratória. Ele estava internado no Hospital Samaritano, em Botafogo, na zona sul do Rio, desde 2 de novembro. Niemeyer completaria 105 anos no dia 15.

Inicialmente acometido por uma desidratação, seu estado de saúde foi se agravando ao longo dos 33 dias de internação. Por causa de insuficiência renal, começou a fazer hemodiálise em 19 de novembro. Com dificuldades respiratórias, foi submetido a fisioterapia respiratória. Esse quadro se manteve estável até anteontem, quando exames laboratoriais indicaram piora na saúde.

Ontem de manhã, o arquiteto sofreu uma parada cardiorrespiratória e passou a respirar por meio de aparelhos, segundo o médico Fernando Gjorup. A situação se agravou ao longo do dia, resultando na morte do arquiteto, à noite. Ele estava acompanhado por dez familiares, entre eles a mulher, Vera.

Ontem à noite, o Planalto informou que a família aceitou o convite da presidente Dilma Rousseff (PT) para a realização do velório do arquiteto hoje, no Palácio do Planalto, em Brasília. À noite, o corpo volta para o Rio para ser velado no Palácio da Cidade. Ele será enterrado no Rio.

Clínico-geral e intensivista que atendia Niemeyer havia mais de 20 anos, Gjorup contou que até ontem pela manhã Niemeyer estava lúcido e interagia com os médicos. "Durante a internação, (ele) chegou a trabalhar, recebendo técnicos de sua equipe para conversar sobre projetos", contou o médico, que concedeu entrevista coletiva, ontem à noite, com feição abalada e olhos vermelhos.

"Era mais que um paciente, era um amigo. Durante períodos mais longos em que não tinha problemas de saúde, ele reclamava dizendo que já tinha tempo que eu não ia lá (à casa do arquiteto)", relembrou Gjorup. "Ele nunca falava sobre morte, nunca falou. Ele falava em viver."

Durante o período de internação, Niemeyer esteve a maior parte do tempo na Unidade Intermediária, onde era monitorado como se estivesse em UTI, mas tinha a convivência da família. Em 16 de novembro, sofreu hemorragia digestiva. Três dias depois, os médicos tiveram de conter novo sangramento. Simultaneamente, a função dos rins piorou, e o arquiteto passou a ser submetido a hemodiálise.

Além de Gjorup, Niemeyer passou a ser acompanhado pelo nefrologista José Suassuna. Os procedimentos eram decididos em reuniões entre os médicos, a mulher e os netos do arquiteto.

Até a manhã de ontem, Niemeyer manteve-se lúcido e fazia fisioterapia respiratória. Reclamava com os netos que a internação estava muito longa e dizia que queria retomar as atividades. No fim de novembro, a hemodiálise foi suspensa - a função renal não havia sido restabelecida, mas os médicos queriam reduzir o risco de infecção. Na segunda-feira, ele parecia ter melhorado e chegou a tomar café com leite. Mas, no dia seguinte, os exames laboratoriais indicaram piora do quadro. Ontem, sofreu a parada cardiorrespiratória e foi reanimado pelos médicos, que diagnosticaram a infecção respiratória.

Esta foi a mais longa internação de Niemeyer, conhecido pela boa saúde, ainda que tivesse mantido ao longo da vida o hábito de fumar cigarrilhas. Em 2006, aos 98 anos, levou um tombo em casa e fraturou o quadril. Foi operado e, durante a recuperação, casou-se com Vera Lúcia, sua assistente havia anos. Aos 101 anos, passou 24 dias hospitalizado por causa de duas cirurgias - uma na vesícula, outra para extrair um tumor no intestino.

Nesse período, chegou a compor um samba com um dos enfermeiros do Hospital Samaritano. Seguiram-se, então, internações curtas para tratar de problemas pontuais, como desidratação, pneumonia e infecção urinária.

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