No coração do Japão, um ritual de delicadezas

Quer conhecer tradições? O ryokan é o melhor caminho

Otávio Dias, O Estado de S.Paulo

29 Maio 2008 | 03h14

Dizem que no Japão se come pouco. Nada disso: come-se muito. Só que os pratos são pequenos e a qualidade e a variedade dos ingredientes, assim como os diferentes tipos de preparo, tornam o ato de comer algo tão surpreendente e prazeroso que mal percebemos quanto comemos. E a comida raramente pesa no estômago. A vantagem de jantar em um ryokan, hotel tradicional japonês, é que a incrível seqüência de pratos já vem pronta, não é preciso descobrir o que é cada um e qual a combinação entre eles. É só se acomodar no tatame, munir-se dos hashi (os pauzinhos) e se entregar ao ritmo gastronômico que dura pelo menos duas horas. Durante viagem ao Japão entre março e abril, hospedei-me dez noites em ryokans. O Murata, em Yufuin, pequena cidade de águas termais cercada por montanhas na ilha de Kyushu (sul do país), foi o ponto alto. É um ryokan com influências orientais e ocidentais: objetos antigos e de design contemporâneo se misturam na arquitetura e na decoração. Após cinco horas de viagem de trem de Nagasaki, chegamos atrasados para o jantar, servido às 7h30. Foi o tempo de trocar a roupa por uma yukata (roupa típica usada por todos os hóspedes) quente e confortável e sentar-se à mesa para um banquete de oito pratos. Em geral, o jantar e o café da manhã são servidos no próprio quarto, mas dessa vez comemos em uma sala íntima na área social, com tatames, mesa baixa de madeira nobre e um belo vaso de flores. Tudo impecavelmente limpo e de bom gosto. Como entrada, um único camarão grelhado com molho de órgãos internos de peixe. Em seguida, sashimis de atum e ouriço-do-mar e sopa tradicional com abalone e cogumelos. Depois, enguia com molho adocicado embrulhada em folha de bambu e mais um caldo fumegante de peixe e legumes. A delicada maratona gastronômica segue em frente com tempurá (de legumes e peixe) e dois pequenos pedaços de bife grelhado, bem macios e levemente rosados. Como sempre, a parte salgada termina com arroz, picles e sopa de missô, seguido pela sobremesa, uma sutil musse de morango com chá verde. Tudo regado a muito saquê quente em uma ainda fria noite de início de primavera. Depois, já é hora de dormir num impecável futon. Nos ryokans, dorme-se cedo e acorda-se cedo. Afinal, um ótimo jeito de começar - ou terminar - o dia é imergindo na água quente, com freqüência de uma fonte termal de origem vulcânica. Em alguns, há banhos públicos, sempre muito limpos e bonitos; em outros, banhos privados. E, depois do banho, lá vem o café da manhã, que não tem pão nem leite nem queijo, mas sim uma seqüência de pequenos pratos que incluem vários tipos de legumes, raízes, cogumelos, arroz, sopa e, prepare-se, peixe! Do início ao fim da estadia, os hóspedes são cuidados por uma mesma atendente que, mesmo falando um inglês dos mais básicos, resolve tudo na base da calma e da simpatia. Hospedar-se em um ryokan é a melhor maneira de mergulhar a fundo na cultura desse país singular, pois possibilita entrar em contato, em apenas um dia, com a hospitalidade, o estilo de morar, os hábitos de higiene e, principalmente, o cuidado extremo dos japoneses com a alimentação. Os bons ryokans não são baratos, e o Murata é um dos mais caros. A noite custou US$ 465 por pessoa, com cama, mesa e banho de primeiríssima qualidade incluídos. Vale a pena? Sem dúvida. Afinal, não é toda hora que se visita o Japão, país feito de detalhes. Murata Ryokan - www.sansou-murata.com

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