Mídia Ninja
Mídia Ninja

No meio do redemunho

O Mídia Ninja não tenta explicar ao espectador o que está acontecendo. Com seu material bruto, prefere levar o próprio público ao centro da ação

Camila Hessel - O Estado de S. Paulo,

06 Julho 2013 | 17h40

Uma mochila. Um laptop. Partindo do laptop, um cabo conectado ao iPhone. O sinal da rede 3G. Ou o wi-fi de alguém da redondeza. Às vezes um modem 4G conectado ao mesmo laptop. Está armada a “unidade móvel” do Mídia Ninja.

Para entrar no ar, um dos vários canais gratuitos de transmissão de vídeo na internet. Para atrair espectadores, um post no Facebook, outro no Twitter. A dinâmica de compartilhamentos das redes sociais se encarrega de avisar que ela está lá.

Lá mesmo, no fim da Paulista, às últimas horas da terça, 18/6, bem no momento em que um pequeno grupo decide atear fogo ao painel da Copa das Confederações. Lá na M’Boi Mirim, no meio de manifestantes sentados em círculos, que repetiam num jogral a pauta das reivindicações a serem levadas ao subprefeito na quarta seguinte.

O Mídia Ninja (uma abreviação livre de Narrativas Independentes Jornalismo e Ação) não obedece à formalidade nem aos rituais da mídia tradicional. Suas imagens são transmitidas em tempo real, sem nenhuma edição. Não há vistas aéreas, não há tomadas a partir de postos de observação: é rua o tempo inteiro, e o ponto de vista é o mesmo do manifestante. Daí as imagens tremidas em meio à correria e os longos trechos de caminhada em busca dos pontos onde se reagrupam os dispersados. A narrativa é crua. Não tenta (nem seria capaz de) explicar ao espectador o que está acontecendo. Com seu material bruto, coloca o público no centro da ação.

Mas a quem pertencem as mochilas? A um grupo de ativistas que, depois de fazer uma cobertura ao vivo da Marcha da Liberdade, realizada em São Paulo em 28 de maio de 2011, lançou uma série de programas de debates transmitidos pela internet em um canal batizado de PósTV. Ligados a diferentes grupos militantes, a maioria deles fazia parte do Movimento Fora do Eixo, coletivo cultural fundado em 2005 por produtores de Campo Grande, MT, Rio Branco, AC, Uberlândia, MG, e Londrina, PR, com o objetivo inicial de promover músicos e bandas de todas as regiões do Brasil, em especial as situadas além do eixo Rio-São Paulo. Presente em 25 cidades, agora também se ocupa da organização de festivais e eventos no Brasil e no exterior, novamente fora do circuito comercial tradicional.

Os autointitulados ninjas, que sempre mostram a cara, expandiram sua grade de programação no primeiro turno das eleições municipais no ano passado, realizando programas diários que discutiam as diferentes candidaturas em 20 cidades do País. Para tanto, se valeram da capilaridade – e dos recursos – do Fora do Eixo. No começo deste ano, visitaram aldeias dos guaranis-caiovás no Mato Grosso do Sul para uma série de reportagens e cobriram o Fórum Social Mundial na Tunísia. Quando se preparavam para discutir linhas de pauta, alternativas de financiamento e os próximos passos da iniciativa, os 20 centavos explodiram nas ruas e os ninjas se jogaram de cabeça nos protestos.

A maioria deles não tem formação jornalística. O chamado núcleo duro, responsável pelas transmissões que ajudaram a dar visibilidade ao coletivo, é formado por cerca de dez jovens, quase todos com menos de 25 anos. A exceção é Bruno Torturra, de 34, que trabalhou na revista Trip por 11 anos como repórter, editor e diretor de redação. Ele, que ficou nos bastidores coordenando as coberturas, orientando quem estava na rua, afirma que a cobertura era guiada por instinto, por um “espírito de perdigueiro sem muito adestramento, sem processos e técnicas que são, sim, muito valiosos”.

Um exemplo dessa falta de “adestramento” foi dado durante a transmissão do dia 18 de junho. Filipe Peçanha, carioca de 24 anos que estudou audiovisual, acompanhava a manifestação desde a porta da Prefeitura. Depois de quase quatro horas no ar, de ter percorrido 4,5 quilômetros e ser atingido pelo gás lacrimogêneo, ele não se conteve quando o policial militar sem identificação no uniforme ordenou que desligasse a câmera. Correndo atrás do oficial para fazer com que dissesse o próprio nome, desferiu palavrões do mesmo naipe daqueles de torcedor contra juiz. Como esse formato de transmissão permite uma intervenção imediata do público por meio da seção de comentários, logo ficou claro: boa parte dos espectadores não gostou da atitude. Para Peçanha, é o preço do ao vivo – e de um novo jornalismo. Ele reconhece que, no calor do momento, qualquer um pode perder a cabeça. E atribui a reação do público a uma visão “antiquada”, a de que o repórter tem de ser imparcial, sempre. “Não estamos cobrindo um ato, estamos nele. As reações do repórter podem ter um efeito importante de denúncia.”

O calor que vem das redes, principalmente na forma de comentários, é objeto de trabalho de uma parcela da equipe fincada no QG. Dríade Aguiar, de 22 anos, faz parte dela. Se estivéssemos falando de uma emissora de TV tradicional, Dríade seria chamada de produtora. Na PósTV, ela ajuda a delimitar as coberturas mapeando atos e manifestações pelo País, identificando fotógrafos e repórteres que possam cuidar de cada um desses eventos e, uma vez com as transmissões em curso, triando os comentários e repassando dicas de furos e alertas de quem está nas ruas. Assim como Peçanha, Dríade, cuiabana que mora em São Paulo desde o fim de 2010, faz parte do Movimento Fora do Eixo. Ela se juntou a eles aos 16 anos, quando cobria eventos culturais para redes sociais. Cursou apenas três meses da faculdade de história, que abandonou para se dedicar integralmente às atividades do coletivo.

O trabalho de base, feito por jovens como Dríade, ajuda a estabelecer uma conversa entre espectadores e emissores e também a entender a simpatia com que os ninjas vêm sendo recebidos pelas ruas. Comerciantes emprestam tomadas para recarregar as baterias dos laptops, admiradores enviam mensagens colocando carros e equipamentos à disposição das equipes, moradores do entorno dos atos compartilham senhas de wi-fi e chegam a abrir suas casas para que os repórteres possam tomar banho ou descansar sem precisar se afastar dos centros nervosos. O calor da ação empolga até profissionais experientes, como o correspondente da Globo News em Nova York Jorge Pontual. Na noite do dia 18/6, quando Filipe Peçanha corria com seu iPhone pela Avenida Paulista, Pontual indicava o link da transmissão aos seus seguidores: “Se a bateria do ninja não morrer, eu não durmo essa noite”.

O domínio sobre a tecnologia é outro aspecto que intriga os espectadores do Mídia Ninja. Que operadora de telefonia usam? Como conseguem sinal no meio da multidão? Que telefones e computadores são esses cujas baterias parecem imortais? São os mesmos nossos de cada dia. Mas os ninjas se valem de gambiarras e jeitinhos que foram aprendendo na produção dos festivais de música da Fora do Eixo. Até fevereiro deste ano, as transmissões fora do estúdio ou de um espaço para shows tinham mobilidade limitada. Eles se muniam de cabos de até 300 metros para conectar as câmeras à internet e tinham de se restringir a esse raio de ação. Foi durante o carnaval que, em conjunto com o coletivo Tanque Rosa Choque, da USP, criaram seu caminhão link. A ideia era construir um minitrio elétrico para animar os blocos de carnaval que inundaram os quarteirões de diferentes regiões da cidade. Em um carrinho de supermercado, reuniram duas caixas de som, um gerador, uma mesa de som e laptops.

Quando, meses mais tarde, se preparavam para cobrir os protestos, devolveram o carrinho ao asfalto, turbinado com uma câmera Go Pro e uma torre improvisada. Para garantir internet móvel pelo percurso, visitaram apartamentos e estabelecimentos comerciais ao longo do trajeto das manifestações pedindo acesso às suas redes de internet sem fio. Também perceberam que o melhor momento para fazer transmissões via rede 3G é quando a polícia entra com a força para dispersar os manifestantes. “Quando todo mundo guarda os celulares no bolso para sair correndo, é hora de sacar os nossos”, diz Torturra.

Boa parte do tal núcleo duro mora na Casa Fora do Eixo (R. Escuvero, 282, Cambuci), onde até o guarda-roupa é compartilhado. Celulares, computadores, câmeras e planos de internet são, portanto, bancados pelos recursos do Fora do Eixo. Pablo Capilé, principal porta-voz do movimento, diz que a força de trabalho, composta por gente jovem, altamente qualificada e que se envolve nos projetos como militante, é a principal força mantenedora. E os festivais e eventos que produzem (alguns deles realizados em 300 cidades simultaneamente), a principal fonte de renda. Dinheiro público? Capilé diz que não passa de 3% do total.

A dúvida que paira sobre a evolução e o futuro de um veículo de mídia alternativa como a Ninja é o que fazer para financiar sua expansão sem cair no modelo tradicional das empresas jornalísticas, que passam por crises no mundo todo. A ambição declarada é fugir de formatos padrão e evitar clichês. Mas o caminho para colocar na rua uma grande equipe de reportagem que teria como elemento central células temáticas tocadas por editores mais experientes está longe de ser pavimentado. Eles são completamente avessos à ideia de um conglomerado com fins lucrativos. Acreditam que esse modelo é o responsável pelo abalo da imprensa. Rechaçam também uma organização hierárquica. Defendem um sistema horizontal, sem sócios, sem chefes, em que as decisões são tomadas por consenso. E veem nas ferramentas de financiamento coletivo (crowdfunding) a principal alternativa. “O leitor, o espectador, se sente diretamente responsável pelo que é produzido. Cria-se uma relação interessante”, diz Torturra.

Outro elemento importante é delimitar o foco da cobertura quando as ruas se aquietarem. Eles dizem que a agenda atual já dá mostras desse futuro. Além das manifestações, os jovens vêm cobrindo aulas abertas que ajudam a aprofundar temas dos protestos, como modelos alternativos de transporte, e ações de movimentos sociais, como ocupações e assembleias. Nesse cenário, a veia militante dos ninjas pode ameaçar a qualidade do jornalismo produzido? Eles acreditam que a disputa por narrativas criou novos parâmetros e demandas. “A melhor forma de nossa militância não significar perda de qualidade é não esconder nada”, diz Torturra. “É preciso não tentar vê-la como antítese da objetividade. Só é fundamental que o posicionamento fique claro.” Quanto ao surgimento de outros ninjas em novas redes – e às críticas de que estariam mais interessados em construir uma marca do que um novo modo de narrativa – os ninjas originais dizem o seguinte: o objetivo final é perder o controle. É ver surgir muitos novos clãs inspirados por eles – e que os inspirem também.

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