Norma, molho com nome de ópera

 

Dias Lopes,

18 Novembro 2010 | 10h13

Apesar de ter vivido apenas 34 anos, o compositor siciliano Vincenzo Bellini (1801-1835) ficou conhecido pela extraordinária produção artística, pelo tempo devotado às mulheres e por haver inspirado um famoso molho de macarrão. Deixou várias óperas, sendo Norma, em dois atos, a sua obra-prima. Foi tão importante para a música da época quanto os contemporâneos Gioacchino Rossini, Fréderic Chopin e Franz Liszt. Colecionou amantes. A mais famosa seria Giuditta Cantú Turina, mulher casada. Pelo seu comportamento machista, as feministas do século 20 apedrejaram-lhe a memória. Bellini achava normal uma mulher trair o marido com ele, mas rompia com ela caso se relacionasse com um terceiro homem.

 

Na gastronomia, inspirou a perfumada e colorida receita de spaghetti alla Norma. O nome veio da ópera homônima, que conta a história de uma druida, espécie de sacerdotisa encarregada das tarefas de aconselhamento, ensino, questões jurídicas e filosóficas na sociedade celta. Chamava-se Norma (soprano). Desrespeitando o voto de castidade, mantém um romance secreto com o procônsul romano Polliano (tenor). O relacionamento termina em tragédia. Norma confessa publicamente o amor proibido e a condenam à morte. É executada junto com Polliano.

O molho alla Norma combina alho, tomate pelado, manjericão fresco, ricota salgada e curada, feita com leite de cabra, e berinjela frita. Vai no espaguetede calibre grosso e também em penne rigate, rigatoni, tortiglioni e cavateddi (massa em formato de tubinhos, abertos no meio). Alguns autores acreditam que o cozinheiro de um restaurante de Catânia, na Sicília, onde Bellini nasceu, inventou-o para animar o compositor após um insucesso de público. Os ingredientes evocariam o vulcão Etna, cujas erupções arrasaram a cidade varias vezes no passado: o molho de tomate seria a lava, a ricota representaria a neve do cume e a berinjela, as encostas. Hoje se afirma que a versão é fantasiosa. A mais aceita também se passa em Catânia, cuja população orgulhosa do conterrâneo genial chamava de Norma tudo o que fosse bonito e excelso. ''Sembra (parece) una Norma'', diziam.

Em fins de 1920, Angelo Mosco, ator catanês de cinema e teatro, convidou colegas para jantar na casa em que morava com a irmã. Apareceram Nino Martoglio, Pippo Marchese e Peppino Fazio, entre outros. Quando a cozinheira colocou na mesa um prato de espaguete com molho de alho, tomate, manjericão, ricota salgada e berinjela frita, todos suspiraram de felicidade. A declaração mais significativa partiu de Martoglio, diretor de cinema e teatro, escritor e poeta. Ao dar a primeira garfada, ele exclamou: ''Chista à una vera Norma!'' Acabou batizando as receita. Portanto, o autor da Norma - e agora nos referimos à ópera - nunca a saboreou.

Bellini mudou para Paris em 1833. Morreu ali dois anos depois. Chegou a ser visto em grandes restaurantes, a começar pelo Café Anglais. Atormentado por ''uma febre inflamatória, gástrica e biliosa'' que os médicos não conseguiram curar, foi acolhido por um casal de amigos numa luxuosa casa de campo de ambos, em Puteaux, perto de Paris, onde permaneceu todo o verão de 1835. No final da estação, quis ir a Paris, para assistir à apresentação de I Puritani, sua última ópera. Faltaram-lhe forças. Em poucos dias o compositor estava morto. Nas vésperas, Samuel Lewis e a mulher o deixaram sozinho na casa de campo. Os colegas de Bellini disseram que o compositor era amante da dona da casa e levantaram a hipótese de ter sido envenenado pelo marido dela. A necropsia, porém, não confirmou a suspeita.

 

 

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