Nós viemos aqui para beber ou para nos informar?

Como o contrarrótulo da bebida pode jogar a seu favor, evitando surpresas como datas duplas de validade

Roberto Fonseca, O Estado de S.Paulo

21 Janeiro 2010 | 01h53

Nos anos 70, Adoniran Barbosa gravou comercial da Antarctica em que visitava a fábrica e ouvia de um mestre cervejeiro explicações sobre como é feita a cerveja. Já impaciente, lançava o famoso bordão: "Nós viemos aqui para beber ou para conversar?" Que me perdoe o finado compositor, mas a informação sobre a cerveja que chega ao nosso copo se torna a cada dia mais essencial.

Como ninguém tem mestre cervejeiro à disposição, uma boa fonte de informações é o contrarrótulo da garrafa (ou a lateral da latinha). Lá, o degustador deve encontrar o teor alcoólico e os ingredientes da cerveja - e saber, por exemplo, se ela é puro malte ou não. Mas há produtores que vão além e contam um pouco da história do estilo, ou como é feita a bebida.

Às vezes, um único dado na etiqueta pode causar problemas. Em 2009, a Diageo recolheu no Brasil um lote da cerveja Harp porque o contrarrótulo não trazia a obrigatória inscrição: "Não contém glúten".

A substância - e sua limitação extrema na cerveja, condição para que possa ser consumida por celíacos -, aliás, era o tema inicial desta reportagem, com a chegada ao País de oito variedades da Green"s. A marca informa ter limites de glúten dentro dos padrões internacionais para consumo por celíacos.

A princípio, foram degustadas quatro delas: a Herald, uma bitter; a Mission, uma amber; a Pathfinder, uma dubbel, e a Quest, uma tripel. Ao notar sinais de oxidação metálica em pelo menos duas delas - Herald e Pathfinder - consultei o contra-rótulo atrás de mais informações. Eis a surpresa: sobre a data de validade (ou o "best before", em inglês), havia etiqueta indicando 2011. Em três delas, porém, essa indicação estava sobreposta a outra, marcada no próprio rótulo, que apontava datas em julho ou setembro de 2009. O Código do Consumidor veta remarcação de validade.

Procurado, o gerente-geral da importadora Beers on the Table, Fabrizio Grasso, informou que não tinha conhecimento d a segunda marcação, que também teria passado despercebida pelas autoridades brasileiras. "Acreditamos que o produtor, que manda toda a documentação em ordem, teoricamente não mandaria um lote supostamente alterado. Mas mantemos a crença no bom-senso e na boa-fé da empresa."

A importadora informou que recolherá do mercado garrafas com sobreposição de validade e enviou ao Paladar certificados de análise da Green"s, nos quais a validade apontada é 2011, mas a data de produção informada coincide com a de validade inicial dos rótulos.

Problemas à parte, as cervejas da Green"s que chegaram ao Brasil, feitas com grãos como sorgo, arroz, trigo-mouro e painço, têm em comum alguma acidez e aroma, com notas que remetem ao cítrico e algo medicinal. Analisá-las é tarefa complexa, pela falta de outras cervejas da categoria no País - há a Estrella Damm Daura, importada pela Brazil Ways, lager de aroma adocicado e um pouco mais amarga.

Apesar da variedade de estilos, paradoxalmente os rótulos mais interessantes foram duas pale lagers, a Trailblazer e a Pioneer, leves, refrescantes e despretensiosas. Como a categoria é, infelizmente, marcada por cervejas sem muita personalidade, a dupla da Green"s acaba se destacando.

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