Novo tipo de leitor está em formação, diz estudo

Segundo pesquisa, 7% dos leitores já baixam livros na web e, para

Bruno Galo,

11 Agosto 2008 | 00h00

O livro de papel vai acabar? A pergunta parece meio velha, ou pelo menos um lugar-comum, mas, como começo de conversa, é meio inevitável. Já as respostas, embora tenham sido na maioria negativas, podem surpreender: "Se me contassem há dez anos tudo o que temos hoje, eu não acreditaria. É impossível prever o que o futuro nos reserva", disse ao Link o escritor baiano João Ubaldo Ribeiro. Já seu colega entre os imortais, o presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL), Cícero Sandroni, é bem mais cético em relação a eventuais novidades. "O livro de papel continua inabalável em sua força e difusão, em nada incomodado pelas novas tecnologias", disse. O escritor paquistanês Mohsin Hamid, que participou do projeto pioneiro de literatura na web We Tell Stories (leia mais na pág. L8), também defende o formato tradicional: "Ele é uma tecnologia perfeita. Barato, durável, fácil de usar e não precisa de bateria." Mesmo o blogueiro Alessandro Martins, do site Livros e Afins (www.alessandromartins.com.br), entusiasta dos e-books (livros eletrônicos), reconhece que o papel segue imbatível: "Ainda me parece ser a melhor forma de transportar e consumir literatura." UM NOVO TIPO DE LEITOR? Mas o escritor Paulo Lins, autor de Cidade de Deus, lembra que vivemos em uma sociedade onde os hábitos e costumes estão em constante transformação. "As crianças se adaptam muito bem à tela do computador. Não me surpreenderia se, em breve, elas lessem livros inteiros no monitor", observa. Isso sem falar na possibilidade de consumir e-books em PDAs, celulares, videogames portáteis e, mais do que isso, em dispositivos específicos. Embora a maioria das editoras brasileiras mais importantes não ofereça e-books, eles já começam a ganhar espaço. Atualmente, no Brasil, 7% das pessoas que costumam ler livros baixam obras gratuitamente da internet. O dado é da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, encomendada pelo Instituto Pró-Livro ao Ibope. "Apesar de pequeno, esse percentual é surpreendente", diz Galeno Amorin, diretor do Observatório do Livro e da Leitura e coordenador da pesquisa. "Está em formação um novo tipo de leitor", analisa. Leitores de gerações diferentes como Nelson Corrêa, de 49 anos, e Carlos Alberto Correa Filho, de 27 anos, concordam. "Costumo ler cerca de 15 livros por ano no Palm", diz o primeiro. "Gosto da praticidade de carregar mais de um livro comigo e poder variar a leitura entre eles", conta o segundo. Lançado em novembro de 2004, o portal Domínio Público (www.dominiopublico.gov.br) oferece gratuitamente mais de 75 mil títulos, entre eles clássicos de Machado de Assis e William Shakespeare (em português). Apenas dele já foram baixadas mais de 8,5 milhões de obras. Dante Alighieri, com a Divina Comédia, é o campeão, com mais de 500 mil downloads. E há sites que disponibilizam gratuitamente – e na maioria das vezes sem autorização – obras escritas recentemente. Entre eles, o Viciados em Livros (www.viciadosemlivros.com.br), que recebe cerca de 80 mil visitas por mês, e o Projeto Democratização da Leitura (www.portaldetonando.com.br). Lancelot, codinome de um dos fundadores do Viciados em Livros, diz que os livros disponíveis no site são destinados a leitores com baixo poder aquisitivo ou pessoas com deficiência visual, que só conseguem ler livros no computador ou com a ajuda de softwares específicos. "Também oferecemos livros esgotados e obras que não foram traduzidas", disse. AUTOPIRATARIA Enquanto a maioria dos autores critica esse tipo de iniciativa, o mais bem-sucedido entre eles, ao menos em termos de vendagem, vai na direção oposta. Paulo Coelho criou o Pirate Coelho (piratecoelho.wordpress.com), onde disponibiliza arquivos piratas, inclusive traduções de seus best-sellers globais. "Ali coloco todas as traduções de livros meus que encontro na web, facilitando o trabalho de pirateá-los", explica. Coelho acredita que a rede "é livre e anárquica" e diz ser ser inútil lutar contra ela. Segundo o autor, a disponibilização gratuita de livros na web não prejudica a venda: "Pelo contrário, é uma forma de divulgar o trabalho." Para ele, as pessoas podem gostar e, então, decidirem comprar o original na livraria mais próxima. Mas sua opinião não encontra eco entre a maioria dos autores e editores ouvidos pelo Link. Fernando Morais, por exemplo, que acaba de lançar justamente uma biografia sobre Coelho, a quem classifica de "cibernético", afirmou: "Eu sou mineiro, sou mais prudente. O Paulo é carioca, é mais atirado. Não faria isso que ele fez sem ter certeza de que não afetaria a venda dos meus livros." "O que faz o Paulo Coelho é uma boa idéia, se você for o Paulo Coelho", disse Luis Fernando Verissimo. Para o diretor-geral da editora Planeta, César González de Kehrig, o negócio editorial "vai existir sempre e vamos nos adaptar. O fim do livro de papel seria ruim para as gráficas, não para as editoras". "Nossa função independe do suporte", diz o presidente da editora Record, Sérgio Machado. Será?

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