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O ajuste pela crise

É claramente fruto da recessão o expressivo ajuste observado no balanço de pagamentos, que em fevereiro registrou déficit em conta corrente de US$ 1,919 bilhão, 73% menor do que o de igual mês de 2015 (de US$ 7,175 bilhões). O resultado acumulado dos dois primeiros meses do ano foi também substancialmente menor do que o acumulado de janeiro e fevereiro do ano passado: US$ 6,736 bilhões contra US$ 19,340 bilhões, com redução de 65%. A evolução desses dados nos últimos meses levou o Banco Central (BC) a projetar, para este ano, um déficit em transações correntes de US$ 25 bilhões, 57% menor do que o contabilizado em 2015, de US$ 58,882 bilhões.

Longe de significar melhora da situação econômico-financeira do País e de seu relacionamento com o resto do mundo, os resultados do balanço de pagamentos divulgados pelo BC, embora tenham aparência animadora, não deixam dúvidas quanto à veloz deterioração da atividade econômica.

Tolhida por uma das mais profundas crises dos últimos tempos, a economia brasileira não apenas produz menos, como produz com menos eficiência. A constante redução dos investimentos como proporção do Produto Interno Bruto (PIB) observada nos últimos anos – acentuada no segundo e periclitante mandato da presidente Dilma Rousseff – mostra a falta de confiança dos empreendedores no futuro e resulta na estagnação da capacidade produtiva e no atraso da modernização do parque produtor. O produto brasileiro não consegue expandir seus mercados no exterior. Assim, as exportações não crescem.

O que tem assegurado os saldos positivos da balança comercial – que se transformaram no principal fator da substancial redução do déficit em transações correntes – é a redução das importações. O País importa cada vez menos não porque passou a produzir internamente boa parte dos bens que comprava no exterior, mas porque, com a recessão, a demanda por bens importados – matéria-prima, insumos, componentes e artigos de consumo – caiu.

Os números mostram nitidamente essa queda. Nos dois primeiros meses deste ano, as importações somaram US$ 20,94 bilhões, valor 33% menor do que o total importado em igual período de 2015, de US$ 31,6 bilhões. Para todo o ano, o BC projeta importações totais de US$ 150 bilhões, redução de 12,8% na comparação com as importações de 2015. Daí resulta a projeção de superávit comercial de US$ 40 bilhões em 2016 (126% maior do que o de 2015), o que contribuirá decisivamente para a projetada redução do déficit em transações.

Outro fator que vem contribuindo para a redução desse déficit, a conta de viagens internacionais, também é consequência da crise. Com o aumento do desemprego, a redução da renda real média do brasileiro, a retração das vendas e da produção, as pessoas cortam despesas que podem ser adiadas, entre as quais os gastos com viagens, sobretudo as internacionais. Em fevereiro, o déficit dessa conta (diferença entre o que os turistas estrangeiros gastaram no Brasil e o que os brasileiros gastaram no exterior) ficou em US$ 242 milhões, 75% menor do que o saldo negativo de fevereiro de 2015, de US$ 969 milhões. Para todo o ano, o BC está projetando déficit de apenas US$ 6 milhões nessa conta, que no ano passado registrou saldo negativo de US$ 2,64 bilhões.

De efetivamente positivo, o balanço de pagamentos registra uma entrada substancial de investimento direto no País. Em fevereiro, essa conta registrou o ingresso de US$ 5,920 bilhões, resultado bem mais do que suficiente para cobrir o rombo em transações correntes do mês. No acumulado de 12 meses, o investimento direto no País totaliza US$ 77,563 bilhões, mas, na avaliação do BC, esse valor deverá diminuir. No ano, projeta o BC, o ingresso deverá somar US$ 60 bilhões.

Isso significa que, a despeito dos graves problemas políticos e econômicos que enfrenta, o Brasil continua a merecer a confiança dos investidores estrangeiros. Em números, é uma confiança mais do que suficiente para financiar o déficit em transações correntes.

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