O ator que preferiu se desconectar

Estreante na direção, em filme ‘artesanal’ como ele, Nachtergaele abriu mão do celular e desdenha a tecnologia

Bruno Galo,

04 Agosto 2008 | 00h00

"Um filme lento, contemplativo, feito para as pessoas pensarem." É assim que o ator, agora também diretor e roteirista, Matheus Nachtergaele define o seu filme de estréia. O longa em questão é A Festa da Menina Morta que concorreu na mostra "Un Certain Regard" da última edição do Festival de Cannes. A frase com que Matheus descreve o seu filme poderia com pequenas adequações definir a ele próprio. Aos 39 anos, o ator afirma lutar contra a correria presente no nosso dia-a-dia – mas nem sempre foi assim. Há pouco mais de três anos, Matheus conta que sentia que algo estava errado em sua vida. Ele andava agitado, sempre sem tempo. Até o dia em que esqueceu o celular no táxi. "Depois daquele dia percebi que estava ficando mais calmo", sorri. Após o estranhamento inicial, Matheus decidiu aposentar o aparelhinho de vez. "Se por um lado eu me isolo um pouco, por outro uma certa surpresa da vida voltou a ter lugar", filosofa. "Além disso, eu acho um assalto as contas de telefone celular no Brasil", diz. "As pessoas se tornam dependentes do aparelho. E aí as operadoras vêem e cobram um preço injusto pelo serviço", afirma. Dez anos atrás, quando houve a privatização do sistema de telefonia brasileiro, ter um celular era um luxo. Hoje, com mais de 130 milhões de aparelhinhos em funcionamento, parece que luxo é não ter celular. Um luxo que tem lá suas vantagens. Mas sem dúvida é para poucos. Matheus é um deles. Para se permitir não ter celular, Matheus possui um aparelho de telefone fixo "supermoderno" com uma secretária eletrônica cujos recados podem ser ouvidos de qualquer lugar, além de uma assessora que cuida de seus principais compromissos e com quem ele troca e-mails quase que diariamente. Pois é, Matheus possui um laptop, carinhosamente apelidado de "máquina de escrever", já que o modelo que ele ganhou há cerca de cinco anos – para deixar de "escrever a mão" o roteiro do seu filme (leia mais sobre o longa de estréia na direção de Matheus no texto ao lado) –, está bem desatualizado. Na internet, além de trocar e-mails com a sua assessora, ele pesquisa no Google sobre literatura e cinema, alguns dos seus assuntos favoritos. E vê ainda vídeos que outras pessoas o indicam e de trabalhos antigos seus no YouTube. A última aquisição tecnológica de Matheus, que não tem um toca-MP3 ("Precisaria ganhar um para começar a usar"), foi um DVD Player portátil em que assiste todo tipo de filme. Animações? "Nemo eu achei uma obra de arte." Blockbusters? "Assisto Homem Aranha amarradão." Clássicos? "(Akira) Kurosawa, (Ingmar) Bergman, (Carlos) Saura e Woody Allen são alguns dos meus diretores preferidos." Desde que se mudou para o novo apartamento no Rio há uns dois anos, porém, Matheus decidiu tirar a televisão e o DVD do quarto. "Percebi que havia deixado de ler", conta o ator, que gosta de ler sobre psicanálise, biologia, etologia e filosofia, além de muitas HQs. Após sua passagem por Cannes (sul da França) em maio deste ano, ele foi visitar um primo na Bélgica e lembra empolgado de sua experiência com o Skype, o popular programa de telefonia pela internet. "Meu pai adorou poder falar comigo e me ver", conta Matheus, que prometeu a ele trocar em breve o seu velho laptop por um modelo com uma "camerita", termo pelo qual o ator se refere à webcam. Apaixonado por fotografia, ele possui uma máquina fotográfica digital, mas gosta mesmo é de usar sua Cannon analógica. "Gosto da surpresa de ver a foto apenas quando ela é revelada", afirma Matheus. E videogame, você já jogou? "Não, nunca me envolvi", responde. CONTROLE REMOTO Fascinado pelas coisas mais antigas, Matheus diz ainda ter verdadeira adoração pelo artesanato e lamenta quando uma nova tecnologia acaba por aposentar um método anterior. Cita como exemplo as próprias máquinas fotográficas. Não há nas suas palavras uma crítica ao avanço, mas uma nostalgia de quem diz ter sido surpreendido pelo mundo hi-tech. "Eu me sinto em relação às novas tecnologias como a minha avó com o controle remoto", admite rindo.

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