Fernando Sciarra/Estadão
Fernando Sciarra/Estadão

O Conselheiro da cerveja

Não é preciso dar corda em Samuel Cavalcanti para que ele desate a falar. O pernambucano de 41 anos vive em Curitiba desde os 18, mas guarda o sotaque e o jeito arretado da terra natal.

José Orenstein, O Estado de S.Paulo

27 Fevereiro 2014 | 02h13

De cabelos grisalhos meio desgrenhados, óculos e mãos que desenham no ar a intensidade de seus discursos, Samuel, um químico de formação, tem ares de profeta - e, pelo menos no mundo da cerveja, de fato o é. Com sua Bodebrown, cervejaria que fundou em 2009, ele assumiu o papel de líder revolucionário. Na parede da fábrica, numa região pouco populosa de Curitiba, o cartaz estampa o slogan: "Viva la Revolución".

A travessia do Rubicão de Samuel foi em 2011, no tradicional Festival Brasileiro da Cerveja, em Blumenau. Ele botou uma placa no estande: "Não seguimos a lei de pureza". Era uma provocação aos cervejeiros que se gabavam de obedecer à norma instituída na Baviera em 1516 que diz que, para ser cerveja, só vale usar água, malte de cevada e lúpulo. "Os alemães vieram tirar satisfação. Me xingar!"

Mas ele conseguiu o que queria: mostrar ser possível fazer cerveja artesanal da melhor qualidade sem ficar preso a uma rígida tradição carregada pelos descendentes de imigrantes do Sul do País que impedia os cervejeiros brasileiros de se ligar no criativo movimento cervejeiro internacional. Para quebrar a mesmice, Samuel lançou, por exemplo, uma cerveja que leva cacau - e foi premiada mundo afora (a Cacau IPA).

A cruzada do cervejeiro não é uma marcha de um homem só. Na própria Bodebrown ele tratou de formar sua brigada - além de fábrica de cerveja, a Bodebrown funciona como cervejaria-escola. "A primeira do Brasil", lembra Samuel. Muitos dos cervejeiros hoje à frente de bem-sucedidas marcas curitibanas começaram na arte da brassagem em sua escola.

Numa tarde chuvosa de sexta, pouco convidativa a sair, a Bodebrown estava cheia de gente comprando bombonas, growlers, torneiras, maltes, lúpulos para fazer cerveja em casa.

"Hoje, a cerveja industrial domina a produção. As artesanais no Brasil têm 0,9% do mercado. Mas em 50 anos, pode escrever, isso vai se inverter", diz Samuel. "O movimento não para de crescer. Basta ver os Estados Unidos. Lá os pequenos já têm 18% do mercado."

A revolução preconizada por Samuel é internacionalista. Ele diz que já viajou o mundo atrás de cerveja artesanal - "Ecaterimburgo, Dinamarca, Mongólia, África" - e trata de disseminá-la no Brasil. "A cevada não tem dono. É do mundo, não tem fronteiras: é igual em todos os países. Qualquer um pode criar uma cerveja. Mas aqui temos pouca literatura e insumos. Por isso a Bodebrown é aberta. Quem quiser pode vir, ver e perguntar como faz. E na Ambev?"

A briga com a cerveja industrial é uma das bandeiras de Samuel. "Qual é a diferença entre o mainstream e o artesanal? O artífice. Na industrial ele é o capitalista, o banco. Se a cerveja não der dinheiro, ele muda, vai para o petróleo. Já o (artífice) da artesanal é o cervejeiro, um cara que põe a mão no negócio e passa um sentimento, uma ideia." Mas o dono da Bodebrown não quer o estigma de Quixote lutando contra moinhos de vento. "Não sou monge. Pus dinheiro na cervejaria. Só que o que me move é a paixão, o tesão", diz Samuel.

No festival de Blumenau, a Bodebrown foi eleita a melhor de 2103, assim como no principal site do ramo, o Rate Beer. E um dos grandes gurus cervejeiros, Stephen Beaumont, disse que a Bodebrown é a melhor da América Latina. "Mas não quero ser grande. Daqui a 15 anos você vai voltar e vou estar igual, fazendo e bebendo cerveja. Só que o cabelo estará branco."

Onde. R. Carlos de Laet, 1.015, Hauer, Curitiba, (41) 3276-1560

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