O Google está nos deixando burros?

Faz uns três meses, já, que a discussão mais ativa na internet tenta lidar com uma pergunta simples: o Google está nos fazendo burros? A questão foi apresentada na capa da Atlantic Monthly, uma das mais tradicionais e sofisticadas revistas da intelectualidade americana (Mark Twain escrevia lá). Quem propõe a idéia de que estamos perdendo algo por causa da web, e do Google, é Nicholas Carr. Carr é um provocador. Dizer que é um ludita, alguém que rejeita toda nova tecnologia, seria injusto. Ele assina um blog e vive mergulhado na internet. Mas certamente não é do tipo que comprou a idéia de que a web transformará tudo para o bem. É um cético. E seu argumento a respeito do Google é interessante. É que ele não tem tido mais paciência para ler. Paciência talvez não seja a palavra adequada: atenção. Se distrai à toa quando está lendo um livro mais complexo. Lê uma, duas, cinco páginas e aí começa a pensar noutro assunto. (Cá entre nós, ele não é o único que sempre leu com facilidade mas, nos últimos tempos, tem tido dificuldades com leituras longas e profundas. A queixa é comum e vem se repetindo.) Daí que vem o pulo do gato: passamos, seres que somos da Era da Informação, o dia nos informando. É uma informação que chega sem seguir um padrão linear. Duma busca pelo Google caímos numa página, então seguimos um link para outra. Não lemos mais tanto textos longos inteiros, passamos os olhos para pegar a idéia geral e partimos para outro. Este hábito nos condiciona o cérebro, sugere Nicholas Carr. Quando, ao invés de uma página da web, temos um livro à frente, queremos fazer o mesmo movimento. Uma dúvida surge, sentimos vontade de fazer uma busca, seguir outro caminho que não aquele imposto pelo autor. Não é que não tenhamos mais capacidade de compreender raciocínios complexos. É só que estamos perdendo o hábito da leitura linear. A discussão proposta pela Atlantic descambou por dois sites. O da Enciclopédia Britânica e o Edge.org, espécie de rede que reúne a nata dos pensadores dos EUA. O primeiro a se intrometer no assunto foi Daniel Hillis, ex-vice-presidente de pesquisas da Disney e um dos grandes nomes do Media Lab, do MIT. Hillis propõe que Carr de fato percebeu algo que está mudando mas que errou seu alvo. Não é o Google. É o mundo. Reclamamos que estamos soterrados de informação e, no entanto, pagamos por internet mais rápida, por mais canais de TV. A culpa não é apenas da tecnologia: o mundo está mais integrado e, portanto, mais complexo. Somos convocados a entender mais sobre mais assuntos para escolher melhor nossos representantes, para nos comportarmos como melhores cidadãos. Devemos compreender a ecologia do planeta, os meandros do sistema financeiro e ter opinião própria a respeito de quando começa a vida. Daí que saltamos de uma fonte de informação para outra. Não nos especializamos mais. Somos generalistas. George Dyson, filho de Freeman Dyson, o maior físico vivo, e historiador genial ele próprio, vai um passo além. Ele defende que o livro ficará obsoleto. Voltará ao lugar de onde primeiro surgiu, as bibliotecas dos grandes mosteiros, tocados apenas por uns poucos. Ou então ficarão armazenados no próprio Google. Certamente perderemos um determinado método clássico de pensar que exercitamos desde Platão e Sócrates. Mas ganharemos outro nem pior, nem melhor. Diferente. E seguiremos ampliando nossa compreensão do mundo. A questão importante, lembra o futurista David Brin, é outra. Talvez de fato percamos o hábito de adquirir conhecimento linearmente conforme o ditado por um único autor. Talvez cada um siga seu próprio caminho, via links, pulando de página em página. O que não podemos é perder a capacidade de entender coisas complexas. pedro.doria@grupoestado.com.br

PEDRO DORIA,

04 Agosto 2008 | 00h00

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