Carlos Garcia Rawlins/Reuters
Carlos Garcia Rawlins/Reuters

O incerto futuro da revolução sem líder

Mas uma coisa é certa: com ou sem Chávez, trabalhadores venezuelanos resistirão a retrocessos no status alcançado

GREGORY WILPERT,

15 Dezembro 2012 | 15h59

Após o presidente Hugo Chávez sair de sua quarta e mais difícil operação em 18 meses, todo mundo pergunta: "E agora?" Os opositores de Chávez fazem a pergunta porque esperam ansiosamente que esse desenvolvimento signifique a saída do presidente do palco político. Já os apoiadores de Chávez querem saber o que virá porque temem o que a mudança possa significar para o futuro do projeto socialista bolivariano. Só se pode dizer duas coisas com certeza sobre o futuro da Venezuela: primeiro, que é incerto; segundo, que o país nunca voltará a ser o que era antes da primeira eleição de Chávez, 14 anos atrás, em dezembro de 1998.

Apesar da incerteza, talvez se possa identificar uns poucos cenários possíveis sobre o que ocorreria em futuro próximo. Primeiro, se Chávez sobreviver e superar sua última luta contra o câncer, terá sido humilhado pessoalmente por ter enfrentado a morte dessa forma, mas seria como uma fênix que retorna das cinzas mais forte que antes - façanha que já desempenhou antes, na tentativa de golpe de 2002 e no colapso da indústria do petróleo, em 2003.

Porém, considerando-se as faces sombrias dos conselheiros mais próximos do presidente e a própria passagem simbólica do bastão, quando, em sua última aparição na TV antes de partir para o tratamento médico em Cuba, ele entregou a espada de Simon Bolívar ao vice-presidente, Nicolás Maduro, todos os indícios são de que Chávez deixará o poder mais cedo que o esperado. Em tese, a Assembleia Nacional da Venezuela poderia prolongar o afastamento temporário de Chávez por mais seis meses - se ele sobreviver ao câncer - antes de declará-lo oficialmente fora da presidência.

Uma vez fora do poder, se Chávez perder a batalha contra o câncer, ou se precisar de mais tempo para se recuperar, novas eleições presidenciais devem ser convocadas em 30 dias. É um período extremamente curto, considerando-se a complicada logística para organizar uma eleição nacional. No entanto, isso poderia ser facilitado se a saída de Chávez demorasse um pouco mais - assim, a eleição poderia ser agendada. Como Chávez já designou o candidato de seu partido para disputar a presidência, uma nova eleição presidencial poderia ser relativamente positiva para o movimento bolivariano.

Para a oposição, a situação é mais complicada. O mais provável é que novamente concorra à presidência o candidato Henrique Capriles, que no dia 7 de outubro perdeu para Chávez por 11 pontos porcentuais. Entretanto, a oposição enfrenta a complicação adicional de que algumas facções dentro dela poderiam desafiar esse cenário - especialmente se Capriles perder a corrida eleitoral para governador de Miranda, hoje, contra o antigo vice-presidente, Elías Jaua. Encontrar outro candidato viável em tão pouco tempo será difícil para a fragmentada oposição.

Se Maduro vencer a eleição presidencial, o que é muito provável, considerando-se suas modestas raízes de dirigente sindical e sua habilidade em se relacionar com as classes trabalhadoras do país, ele provavelmente seguirá os passos de Chávez com lealdade, implementando o segundo plano socialista, que está sendo preparado pelos apoiadores através do país. Seu maior desafio, porém, viria depois do fim da lua de mel, quando ele tivesse de manter unidas as diferentes facções dentro do movimento bolivariano. A razão pela qual ninguém chegou perto de tomar o lugar do presidente em todos esses anos é que Chávez parece ser o único sobre o qual todo o movimento consegue estar de acordo.

Onde Maduro poderia encontrar mais facilidade que Chávez seria com a oposição. Sem dúvida, os opositores tentariam acossá-lo em todas as oportunidades, assim como fizeram com Chávez, mas essas tentativas seriam abrandadas pelo fato de ser menos provável que Maduro seja ofensivo em seus pronunciamentos públicos como Chávez. Além disso, tendo em vista seu papel de soldado disciplinado sob o líder, é menos provável que se mostre confrontador.

Mas há a possibilidade de Maduro perder para um candidato da oposição. Há muitos problemas não resolvidos na Venezuela, dos quais os maiores são a insegurança e a ineficiência do Estado. Na última campanha, Chávez prometeu resolver esses problemas no próximo mandato, e a maioria dos venezuelanos acreditou nele. Pode acontecer, entretanto, que muitos eleitores chavistas não deem o mesmo benefício da dúvida a Maduro, pois Chávez sempre foi mais popular que as pessoas ao seu redor, às quais a maioria atribui a culpa pelas políticas escassamente implementadas.

Esse risco - o de Maduro não herdar todo o apoio que os venezuelanos deram a Chávez - poderia dar à oposição uma falsa sensação de otimismo. Mas os opositores insistem em ignorar o significado das palavras do mais recente pronunciamento de Chávez sobre sua presidência: "A Venezuela mudou para sempre".

Durante a presidência de Hugo Chávez, o país de fato mudou, e em muitas maneiras. Uma das mais importantes mudanças é que agora há uma classe trabalhadora politicamente ativa, mais consciente e mais organizada que nunca. Uma classe que resistirá ativamente a qualquer retrocesso ao status quo atual. E essa é, como eu disse no início, uma das poucas certezas que se pode ter sobre o futuro da Venezuela. / TRADUÇÃO JULIANA SAYURI

* GREGORY WILPERT É CIENTISTA POLÍTICO, PROFESSOR NA BROOKLYN COLLEGE DE NY E FUNDADOR DO PROJETO VENEZUELANALYSIS.COM

 

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