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O jeito certo de falar errado na internet

Gustavo Miller

21 Abril 2008 | 00h 00

Tiopês, alechat, mistês? Conheça as linguagens que os brasileiros estão usando para (não) escrever português na rede

"Já olvil falr de tiopês? E de aleshat? ol qe tal leet? -s, leitor, vose -n está entendenod naad diço aqui, mas muits internalts -s. É qe na net eçe estranio linguajr está fazenod 1 grande suceço e a idéia, por incrível qe paresa, é esrevr o português de forma earrda." Peraí, vamos consultar um "tradutor" online (www.tiopestranslator.cjb.net), que verte a linguagem do tiopês, muito usada na web, para o bom e velho português: "Já ouviu falar de tiopês? E de alechat? Ou que tal leet? Sim, leitor, você não está entendendo nada disso aqui, mas muitos internautas sim. É que na internet esse estranho linguajar está fazendo um grande sucesso e a idéia, por incrível que pareça, é escrever o português de forma errada." Sim, é isso mesmo. Nos últimos anos muito se falou (e discutiu) sobre o internetês, aquela forma diferente que muita gente utiliza para conversar na web. Para muitos, ele é um crime contra a língua portuguesa, que pode sofrer danos irreversíveis a partir do momento que alguém prefere digitar no seu teclado "blz" no lugar de "beleza". Bem, esses defensores dos bons costumes podem ficar agora com os cabelos em pé. Mesmo. O internetês tem em sua característica principal tornar a escrita mais ágil, fonética e visual. Ele não tem como objetivo escrever errado – que é justamente o que ocorre com o trio alechat, tiopês e mistês. O objetivo deles é tirar um sarro de quem assassina o português na internet, seja por falta de conhecimento da língua ou por mero erro de digitação. Dois sucessos recentes na blogosfera nacional fazem isso: o Lulalol (http://lulalol.blogspot.com), que pega imagens de nosso querido presidente e soma a elas uma legenda engraçada em tiopês; e o Cersibon, uma tirinha que beira a idiotice e a genialidade ao mesmo tempo. Ambos foram criados por Rafael Madeira (leia entrevista ao lado). Mas como surgiram essas linguagens? O mistês é o mais velho ( 2001). Ele foi criado pelo blogueiros Misto Eleazar, Marcos Rodrigues e o próprio Madeira. Amigos de uma sala de bate-papo do Mirc, eles começaram a escrever imitando quem cometia deslizes ortográficos no programa. "A gente fazia uma caracterização sutil do texto errado, enfatizando as vírgulas colocadas nos lugares errados e a falta de acentos", explica o tradutor David "Misto Eleazar" Boutsiavaras, de 24 anos. Para divulgar a brincadeira, os três montaram fotologs em que só escreviam o tal de mistês (de Misto). A linguagem ficou meio restrita a um certo grupinho e não repercutiu muito – o contrário do alechat e o tiopês, que se aproveitaram do Orkut. Em 2006, o internauta Ale Crescini criou uma comunidade na rede social do Google para fazer novas amizades. Acontece que ele escrevia meio exótico, cheio de falhas de digitação e de erros de concordância e pontuação. O pessoal achou graça nisso e (olha a maldade) entrou na comunidade para imitar o seu "estilo". Nascia o alechat. "Era algo inocente, apesar de estarem zoando com ele. As pessoas se divertiam se comunicando daquela forma", diz a estudante de letras Ana Carolina Ramalho, de 20 anos, que chegou a realizar um trabalho de faculdade sobre o alechat. Pouco tempo depois surgia no próprio Orkut o tiopês (o nome vem de "tipo"), um mix do mistês e do alechat. Do primeiro ele pegou a influência de utilizar algumas expressões, como "to de brinks" ("estou brincando"), e, do segundo, a tiração de sarro. "O tiopês tem algumas regras, como a inversão de letras, tipo trocar ‘ch’ por ‘x’. Mas não pode haver o exagero", ensina o estudante Augusto Ribeiro, de 16 anos, dono da comunidade orkutiana Tiopês - A Revolução, de quase 6 mil membros. Justamente o exagero é uma questão que incomoda quem começou a fazer esse tipo de brincadeira na web. Misto Eleazar cunhou o tiopês de "lixo nuclear" há dois anos. "O mistês tinha senso de humor, já o tiopês é simplório, um monte de frases prontas", bate. "É muito óbvio escrever ‘ingrassadu’. Nem o Seu Creysson fala assim!" Para Bruno Dallari, professor de lingüística da PUC-SP, tiopês, mistês e alechat são jargões da língua portuguesa, pois seus usuários sabem o contexto de quando utilizá-los. "Como o internetês, eles são registros criados para a identidade interna de um grupo. Dificilmente há a contaminação desses jargões em ambientes fora da rede", diz. De fato, não se vê ninguém por aí falando "to de brinks" – ainda. Mas isso não significa que não haja exceções. Augusto Ribeiro afirma já ter escrito "deisha" e "vose" em algumas redações escolares . Já o miguxês é muito usado tanto na escrita quanto na fala – ele é uma linguagem muito usada pelo público emo, que dá às palavras um tom meio infantil, algo meio Xou da Xuxa. Vale lembrar que esses fenômenos não são novidade exclusivas do mundo virtual. Sempre se trouxe ao texto elementos da oralidade com o intuito de dar ao português um tom coloquial, mais "abrasileirado". Como escreveu Guimarães Rosa certa vez, "pãos ou pães, é questão de opiniães". Escreva você mesmo

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