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‘O meu sonho estava nas mãos dele e ele se aproveitava disso’

O Estado de S. Paulo

23 Agosto 2014 | 19h 33

Vítimas revelam motivos que as fizeram desistir das denúncias; algumas relatam ameaças feitas por Abdelmassih

 Embora a divulgação de casos como o de Roger Abdelmassih possa estimular outras vítimas de abuso sexual a denunciar o assédio sofrido, muitos desses crimes provavelmente nunca serão conhecidos. Por medo, vergonha ou receio da reação da família, muitas mulheres que foram violentadas deixam de procurar a polícia ou os conselhos de medicina para relatar o fato.

No caso da funcionária pública Mônica Costa, o receio não era apenas da reação do marido ou da família, como muitas vítimas contam. Ex-paciente de Abdelmassih, ela diz ter-se calado porque o então especialista em reprodução assistida tinha em suas mãos o maior sonho da vida de Mônica.

“Eu tinha problemas para engravidar, já tinha sofrido abortos e aquela era a minha última tentativa do pacote de três que eu e meu marido tínhamos fechado com a clínica dele. Pouco antes da terceira fertilização, o doutor Roger me ligou, pedindo que eu fosse ao consultório porque queria conversar sobre os embriões. Quando cheguei, ele trancou a porta e me atacou. Tentou me beijar, disse que queria me raptar. Consegui fugir. Só que não tive coragem de denunciar. Os embriões ainda estavam com ele. O meu sonho estava nas mãos dele e ele se aproveitava disso”, diz ela.

Na época, em 1995, ela continuou o tratamento, mas nunca mais foi até a clínica sem o marido. A terceira tentativa de fertilização não deu certo e, mais tarde, a funcionária pública descobriu que, além de ter sido vítima de assédio, foi prejudicada por um erro na conduta profissional do ex-médico. “Fui a outro especialista e descobri que tinha endometriose, o que torna praticamente impossível a gravidez. Ele fez as três fertilizações mesmo assim”, conta.

Presidente da associação de vítimas, Teresa Cordioli, de 63 anos, diz que também se sentiu de mãos atadas ao ser violentada pelo médico. “Enquanto ele estava me violentando, eu estava com cateteres nos dois braços num pronto-socorro. Se eu gritasse, ele poderia colocar qualquer remedinho na minha veia e me matar. Se eu contasse para alguém depois de sair de lá, ele disse que viria atrás de mim. Como médico, ele tinha controle sobre a minha vida”, diz ela, que foi estuprada na década de 1970, quando Abdelmassih ainda era residente em um hospital de Campinas.

Apoio.Uma das primeiras mulheres a denunciar o assédio de Abdelmassih à polícia e ao Cremesp, a estilista Vanuzia Leite Lopes, de 54 anos, afirma que a atuação da associação de vítimas neste caso poderá dar suporte a outras mulheres que queiram denunciar abusos sexuais. “Na página do Facebook que criamos para receber denúncias sobre o paradeiro de Abdelmassih, já estamos recebendo também acusações de abuso cometidos por outro médico, por um padre. Quebramos um paradigma. Eles acham que nunca vão ser pegos, mas um dia isso acontece”, afirma.

Com a prisão de Abdelmassih nesta semana, Mônica decidiu se unir à associação de vítimas e formalizar mais uma denúncia contra o ex-médico. Nesta semana, ela vai procurar a Delegacia da Mulher e o Conselho de Medicina para registrar a ocorrência. “Estava desacreditada, mas agora vejo que a Justiça pode ser feita. Decidi fazer a denúncia para colaborar, para que ele não saia da cadeia nunca mais”, diz. 

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