O mico da 'mesa para um' no almoço lotado de domingo

É verdade que o solteiro não precisa consultar ninguém, decide aonde quer ir e a hora em que vai. Mas termina nesse ponto sua vantagem. Chegar ao restaurante para o almoço domingueiro, auge do momento familiar, e pedir "mesa para um" causa um choque permanente.

Luiz Horta*, O Estado de S.Paulo

14 Janeiro 2010 | 03h36

Mais, causa até comiseração e algum embaraço por parte do maître. "Um?", suspirará, enquanto pensa numa alternativa. "Pode ser perto do banheiro?", proporá. Pode. Mas serão dezenas de minutos acompanhando o entre e sai de batalhões de pais, avós e crianças, donos do ambiente, até a mesa ficar pronta. "Tem meia porção?", perguntará o solteiro. Tem, mas custa 70% do preço da inteira. "Ok, traga a inteira. Levo a sobra." Bebida? Uma cerveja de 750 ml é muito. Um vinho, então, enorme.

O confirmed old bachelor, o solteirão, como dizem - com mais classe - os ingleses, poderá se expor a outra experiência grupal, nada talhada para ele: churrasco rodízio. É menos familiar, mas é gregário e tampouco é lugar da refeição de um só. Numa churrascaria lotada, mesa individual é uma aberração. Os garçons vestidos de gaúchos passarão zunindo com os espetos e se deterão com freadas de desenho animado: "Ué, tem este moço aqui. Quer picanha, moço?".

O churrasco é mais amável com ele, porque seu estômago é idêntico ao dos casados e come o que dá conta, não tem meia porção nem constrangimentos adicionais de sobras. Mas as outras mesas, enormes, cheias, com vozerio de turbina de Boeing na decolagem, sempre parecerão comer mais.

Ao solteiro resta soldier on, fazer cara dura, entrar nos restaurantes, abrir um livro - a leitura é fundamental como equipamento - e comer. Ou se casar.

*Luiz Horta é solteiro e, em casa, só compartilha as refeições com Frederica, a sua gata

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