O nhoque favorito do marechal dureza

Radetzky - Bom garfo e mão pesada contra independência italiana.   Os italianos têm razão para a queixa histórica. O conde de Radetzky foi um governante implacável. Por um quarto de século, ou seja, enquanto esteve no comando "militar e civil" do Reino Lombardo-Vêneto, sufocou as insurreições nacionalistas, inclusive a deflagrada em março de 1848, na cidade de Milão, capital da Lombardia, que se transformou na primeira guerra de independência italiana.   Entretanto, Radetzky não quis voltar para a Áustria ao se aposentar. Continuou morando na neoclássica Villa Reale, em Milão. Havia servido no Exército austríaco por mais de 70 anos, sob o governo de cinco imperadores, e participado de 17 campanhas militares, sobretudo das guerras napoleônicas. Pouco depois de sua morte, os italianos, ajudados pelos franceses de Napoleão III, expulsaram as tropas estrangeiras e o Reino Lombardo-Vêneto foi incorporado ao Reino da Itália.   Por que Radetzky não voltou para a Áustria quando se aposentou? Seus familiares tinham negócios na Itália, assinalam os biógrafos. Outro motivo seria a comida. Ele aprendeu a gostar da culinária regional. A lavadeira e passadeira Giuditta Meregalli, de Milão, a amante milanesa que lhe deu quatro filhos, era cozinheira de mão cheia.   Apesar da diferença social - Radetzky nasceu em uma família nobre da Boêmia, região histórica agora pertencente à República Checa -, davam-se bem.   Veja também: Receita do Gnocchi di zucca (abóbora)   O marechal de campo entendia tanto de guerra como de comida. Foi ele quem transmitiu aos vienenses, em 1855, a receita italiana da cotoletta alla milanese (carré de vitelo empanado e frito), a provável fonte de inspiração do prato austríaco wiener schnitzel (escalopes feitos de maneira semelhante).   Na companhia de Giuditta, entregava-se às especialidades lombardas: antipasti di bresaola, minestrone, frittata con le cipole, brasato, ossobuco alla meneghina (milanesa), etc.   Mas, uma das comidas prediletas de Radetzky, a ponto de ir à cozinha para controlar seu preparo, eram os gnocchi di zucca (abóbora). Alguns livros mudam o nome da receita. Chamam-na de gnocchi del condottiero (chefe, condutor, caudilho), em referência ao marechal de campo guloso.   No momento de servir, vai manteiga derretida, sálvia e queijo parmesão ralado. Falamos de uma das melhores receitas da mais antiga pasta (massa) caseira italiana.   Todo o país prepara nhoque, de diferentes maneiras: apenas com farinha de trigo e água; ou acrescentando batata, espinafre, castanha ou abóbora. No carnaval de Verona, no Vêneto, festeja-se a bacanal do gnoco (singular de gnocchi), com carros alegóricos e a eleição por um ano do papà del gnoco.   Outros produtos italianos que Radetzky adorava eram o vinho e o charuto. Mas bebia e fumava com moderação. Coincidentemente, o charuto foi estopim da grande revolta de 1848. A administração austríaca aumentou mais um imposto. Incidiu justamente sobre o charuto e o fumo. Os milaneses, indignados, fizeram greve para protestar: pararam de comprá-los. Então, Radetzky mandou os soldados fumarem ostensivamente nas ruas da capital da Lombardia.   Um cidadão, sentindo-se provocado pelo militar que soprou fumaça no seu rosto, arrancou-lhe o charuto da boca e jogou no chão. O soldado tentou prendê-lo, mas outros milaneses saíram em defesa do agressor e o puseram em fuga. A partir dali, a revolta se espalhou. A população combateu os austríacos armando barricadas, dando tiros e atirando pedras contra eles das janelas ou telhados.   A revolta começou em março de 1848; em agosto, os austríacos, depois de receberem socorro militar, sufocaram-na. A Marcha para Radetzky, que Johann Strauss compôs para celebrar o retorno vitorioso do marechal de campo a Milão, pode ser assistida no link www.youtube.com/watch?v=FHFf7NIwOHQ. Encerra habitualmente o Concerto de Ano-Novo na Sala Dourada da Musikverein, em Viena.   Seguindo a tradição, o público participa da apresentação marcando o compasso com palmas - antigamente, ainda batia os pés no chão.   Radetzky morreu em Milão aos 91 anos de idade, na Villa Reale, hoje Galeria de Arte Moderna, cujo "uso perpétuo" recebeu de presente do imperador austríaco Francisco José I.

Dias Lopes, jadiaslopes@gmail.com,

28 Janeiro 2010 | 11h27

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