O nhoque favorito do marechal dureza

Os austríacos o consideram herói nacional e seu mais importante líder militar do século 19. Imbuído desse sentimento patriótico, o compositor vienense Johann Strauss, pai, dedicou-lhe a famosa Marcha de Radetzky.

Dias Lopes, jadiaslopes@gmail.com, O Estado de S.Paulo

28 Janeiro 2010 | 02h55

Os italianos pensam o contrário. Lembram que o marechal de campo Johann Joseph Franz Karl, conde de Radetzky (1766-1858), governou com mão de ferro o Reino Lombardo-Vêneto, instituído em 1815 pelo Congresso de Viena e dominado pelo império austríaco, ou seja, por uma potência estrangeira. Em sua administração, reprimiu o Risorgimento, o movimento que, entre 1815 e 1870, lutou pela unificação da Itália, na época uma coleção de pequenos Estados submetidos a potências estrangeiras.

Os italianos têm razão para a queixa histórica. O conde de Radetzky foi um governante implacável. Por um quarto de século, ou seja, enquanto esteve no comando "militar e civil" do Reino Lombardo-Vêneto, sufocou as insurreições nacionalistas, inclusive a deflagrada em março de 1848, na cidade de Milão, capital da Lombardia, que se transformou na primeira guerra de independência italiana.

Entretanto, Radetzky não quis voltar para a Áustria ao se aposentar. Continuou morando na neoclássica Villa Reale, em Milão. Havia servido no Exército austríaco por mais de 70 anos, sob o governo de cinco imperadores, e participado de 17 campanhas militares, sobretudo das guerras napoleônicas. Pouco depois de sua morte, os italianos, ajudados pelos franceses de Napoleão III, expulsaram as tropas estrangeiras e o Reino Lombardo-Vêneto foi incorporado ao Reino da Itália.

Por que Radetzky não voltou para a Áustria quando se aposentou? Seus familiares tinham negócios na Itália, assinalam os biógrafos. Outro motivo seria a comida. Ele aprendeu a gostar da culinária regional. A lavadeira e passadeira Giuditta Meregalli, de Milão, a amante milanesa que lhe deu quatro filhos, era cozinheira de mão cheia.

Apesar da diferença social - Radetzky nasceu em uma família nobre da Boêmia, região histórica agora pertencente à República Checa -, davam-se bem.

O marechal de campo entendia tanto de guerra como de comida. Foi ele quem transmitiu aos vienenses, em 1855, a receita italiana da cotoletta alla milanese (carré de vitelo empanado e frito), a provável fonte de inspiração do prato austríaco wiener schnitzel (escalopes feitos de maneira semelhante).

Na companhia de Giuditta, entregava-se às especialidades lombardas: antipasti di bresaola, minestrone, frittata con le cipole, brasato, ossobuco alla meneghina (milanesa), etc.

Mas, uma das comidas prediletas de Radetzky, a ponto de ir à cozinha para controlar seu preparo, eram os gnocchi di zucca (abóbora). Alguns livros mudam o nome da receita. Chamam-na de gnocchi del condottiero (chefe, condutor, caudilho), em referência ao marechal de campo guloso.

No momento de servir, vai manteiga derretida, sálvia e queijo parmesão ralado. Falamos de uma das melhores receitas da mais antiga pasta (massa) caseira italiana.

Todo o país prepara nhoque, de diferentes maneiras: apenas com farinha de trigo e água; ou acrescentando batata, espinafre, castanha ou abóbora. No carnaval de Verona, no Vêneto, festeja-se a bacanal do gnoco (singular de gnocchi), com carros alegóricos e a eleição por um ano do papà del gnoco.

Outros produtos italianos que Radetzky adorava eram o vinho e o charuto. Mas bebia e fumava com moderação. Coincidentemente, o charuto foi estopim da grande revolta de 1848. A administração austríaca aumentou mais um imposto. Incidiu justamente sobre o charuto e o fumo. Os milaneses, indignados, fizeram greve para protestar: pararam de comprá-los. Então, Radetzky mandou os soldados fumarem ostensivamente nas ruas da capital da Lombardia.

Um cidadão, sentindo-se provocado pelo militar que soprou fumaça no seu rosto, arrancou-lhe o charuto da boca e jogou no chão. O soldado tentou prendê-lo, mas outros milaneses saíram em defesa do agressor e o puseram em fuga. A partir dali, a revolta se espalhou. A população combateu os austríacos armando barricadas, dando tiros e atirando pedras contra eles das janelas ou telhados.

A revolta começou em março de 1848; em agosto, os austríacos, depois de receberem socorro militar, sufocaram-na. A Marcha para Radetzky, que Johann Strauss compôs para celebrar o retorno vitorioso do marechal de campo a Milão, pode ser assistida no link www.youtube.com/watch?v=FHFf7NIwOHQ. Encerra habitualmente o Concerto de Ano-Novo na Sala Dourada da Musikverein, em Viena.

Seguindo a tradição, o público participa da apresentação marcando o compasso com palmas - antigamente, ainda batia os pés no chão.

Radetzky morreu em Milão aos 91 anos de idade, na Villa Reale, hoje Galeria de Arte Moderna, cujo "uso perpétuo" recebeu de presente do imperador austríaco Francisco José I.

Pasta Milanesa

4

porções

médio

1

hora

Gnocchi di zucca (abóbora)

Ingredientes

Para a massa:

500g de polpa de abóbora (prefira a japonesa) cozida. Lave a abóbora e descarte a casca, as sementes e os fios. Corte a polpa em fatias, polvilhe com um pouco de sal e leve ao forno brando, a 160°C, em assadeira forrada com papel-manteiga, por cerca de 20 minutos, espetando com um garfo para ver se está cozida. Retire do forno e deixe esfriar.

Farinha de trigo para dar o ponto (cerca de 100g)

1 ovo

2 colheres (sopa) de queijo parmesão ralado

Sal e pimenta-do-reino moída na hora a gosto

Para o molho:

4 colheres (sopa) de manteiga

16 folhas de sálvia frescas

Queijo parmesão ralado

Preparo

Massa: Amasse a abóbora cozida com um garfo, ou passe por uma peneira ou espremedor. Junte o ovo, o queijo ralado, sal, pimenta e a farinha aos poucos, misturando bem, até obter uma massa homogênea.

Faça com a massa rolinhos compridos e corte-os em pedaços de aproximadamente 2 centímetros.

Aos poucos, coloque os nhoques em água fervente e cozinhe até que subam à superfície. Escorra bem, com delicadeza.

Molho e finalização: Numa frigideira, derreta a manteiga em fogo brando. Junte as folhas de sálvia e retire do fogo.

Distribua os nhoques em pratos individuais e regue com o molho de manteiga e sálvia.

Polvilhe o queijo ralado e sirva quente.

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