O pêssego e a lâmina do samurai

Os vinhos austríacos chegam bem devagar ao Brasil. Não são baratos nem na origem, daí a timidez com que são importados aqui na nossa fábrica de preços escandalosos. Mas chegam.

Luiz Horta, O Estado de S.Paulo

23 Agosto 2012 | 03h10

Conheci os Hiedlers em uma degustação espetacular, e o termo não é exagero. Promovida pela Wines of Austria, no terraço do mosteiro beneditino de Göttweig, que data do século 11, reunia produtores do vale adjacente - e eles apontavam seus vinhedos não no mapa, mas no horizonte.

Era beber olhando em voo de pássaro, com 360 graus de mapa sob os pés. Vinho é geografia e aprendê-lo assim é inesquecível.

O Rio Danúbio passa no sopé da montanha em que o complexo religioso está fincado. Já seria estonteante sem os vinhos.

A ideia da organização institucional que representa os vinhos austríacos era fazer diferentes degustações nos cenários de sua produção.

Tivemos os vinhos doces na beira do lago Neusiedlersee, em Burgenland, os Sauvignons notáveis na Styria e os tintos mais densos em Carnutum.

A do mosteiro foi especial. Os vinhos saídos dali são especialmente minerais, translúcidos, delicados e quase metálicos. Repito sempre a definição poética de Jay McInerney sobre a mistura típica de aroma e sabor que os Rieslings austríacos possuem: "Beber um deles é como provar um pêssego cortado pela afiada lâmina de aço de um samurai".

Foi com encantamento que descobri, no recente Decanter Wine Show, que a importadora está trazendo alguns dos vinhos Hiedler. Provei dois brancos e um tinto, que comento ao lado.

Ludwig Hiedler e sua mulher María Ángeles Castellanos-Hiedler (que esteve na feira em São Paulo apresentando os vinhos) possuem 35 hectares no Langenlois, na região do Kamptal, com produção orgânica.

A família Hiedler está no assunto desde 1856, mas o casal assumiu a direção da vinícola familiar nos anos 1980.

O tinto é uma curiosidade adicional. Da pouco conhecida uva Zweigelt, criada em 1922 pelo cruzamento da variedade St. Laurent com a Blaufränkisch, é peculiar, muito frutado, mas denso e fácil de beber. Um bom vinho.

No entanto, a região é mesmo dos brancos, e são eles que valem a pena beber, o tinto é só para conhecer uma uva a mais.

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