O sabor do vinho mudou. Não será o copo?

O mais famoso fabricante de taças do mundo diz que cada uva exige um tipo. E parece ter razão

Luiz Horta, O Estado de S.Paulo

22 Maio 2008 | 01h57

"Tem copinho de plástico? É imprescindível." A afirmação, feita num tom que não admite contestação, surpreende. Afinal vem do mais famoso fabricante de decantadores e taças do mundo, símbolos de perfeição, o austríaco Georg Riedel. Seu tom de voz não deixa dúvida. Ele está no controle de tudo, quer demonstrar que seus produtos são adequados para a melhor expressão de cada uva e não são somente belos e caros. Mas para que pede os horríveis descartáveis? "Os copinhos de plástico são parte do mundo, bebemos neles cada vez que viajamos, é preciso levá-los em conta nas comparações." Riedel veio ao Brasil comandar uma glass tasting, como faz ao redor do mundo. "O mercado brasileiro é importante para nós, cresceu, sofisticou-se e é natural que quem beba vinhos melhores queira encontrar recipientes adequados." Diante do ceticismo sobre a necessidade de termos taças para cada tipo de uva, não hesita em demonstrar. Serve um mesmo Sauvignon Blanc em duas taças, a desta uva e a para Chardonnay. A diferença é tão impressionante que, se não tivesse pessoalmente despejado o líquido de uma taça para a outra e provado ambas, pensaria em algum truque, que se tratava de vinhos distintos. O resultado até desanima, pois gente como eu, que não quer comprar infinitas coleções de copos, preferiria que não desse certo. Mas o homem tem razão. Veio atrapalhar certezas e acrescentar mais uma variável ao complexo mundo da apreciação do vinho, onde já nos debatemos com temperaturas, rolhas e safras. Os mais notáveis exemplos foram, primeiro, o citado Sauvignon. Na taça desenhada para a uva, o sul-africano Steenberg era fresco, equilibrado e tinha aromas potentes da variedade, com algo de pimentões verdes e pepinos no nariz. Passado para a de Chardonnay fechou o olfato, ficou aborrecido, e na boca, amargo, demasiado ácido. Perdeu todo o encanto. Depois o Fixin, do Domaine Mongeard-Mugneret. O Borgonha na taça para Cabernet Sauvignon fica tânico, amargo, o aroma vira um caramelo achatado. Na de Pinot fica exuberante, toda a tipicidade da fruta, o equilíbrio perfeito entre acidez e taninos. Georg Riedel dá um leve sorriso irônico: "É física. Quando decanto é química, aeração, mas o formato das taças e sua influência no aroma e nos taninos e acidez dos vinhos é física, desenho baseado em pesquisa." MONDAVI Perguntado sobre o californiano Robet Mondavi, que morreu nesta semana, fica emocionado e conta uma história. "Era um grande amigo. Quando promovi uma destas provas de taças, uma das primeiras, em 1987 em Londres, soube que ele estava lá. Liguei para seu hotel convidando-o. Um atrevimento. Expliquei do que se tratava, para ouvir um sincero ?nunca ouvi besteira igual. Em 50 anos de vinhos, isso é a coisa mais sem lógica que já me propuseram?. Mas compareceu, como homem sempre curioso e generoso que era. O resultado foi que se entusiasmou, ligou de madrugada para o filho dizendo: ?Conheci um sujeito que muda o sabor dos vinhos usando formatos de taças diferentes.? E desde aquela época nossos produtos foram utilizados por eles. Ele mudou a minha vida e eu a dele. Um homem muito decente."

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