O sítio, legado do cultivo limpo, está à venda

Ana Primavesi não quer, porém, destinar a qualquer pessoa uma área onde provou, na prática, suas teorias

O Estado de S.Paulo

22 Julho 2012 | 03h08

Um laboratório vivo de agroecologia e manejo ecológico dos solos. Ou, simplesmente, um sítio. O sítio de Ana Primavesi, situado em Itaí, região de Avaré (SP), a 300 km da capital.

Quando Ana Primavesi o comprou, há 32 anos, o solo estava degradado, infértil, cheio de voçorocas - a erosão em seu mais alto grau. E sem nenhuma nascente. Reportagem de 28 de outubro de 1980, no Jornal da Tarde, do jornalista Randau Marques, noticia quando Ana adquiriu o sítio de 96 hectares: "A doutora Ana Primavesi está deixando São Paulo por um pedaço de terra árida e marcada pela erosão. É a terra que ela transformará numa fazenda rica e produtiva, gastando pouco e sem usar agrotóxicos".

Dito e feito. Ao longo de três décadas, vivificou o solo, eliminou voçorocas e recuperou mata nativa e nascentes. "Hoje temos cinco nascentes ali", orgulha-se. Numa região cercada por cana e pasto, o solo vivo do sítio se destaca. "O café produzido ali, organicamente, atrai vários compradores, que dizem que os grãos dão uma bebida especial", comenta a filha de Ana, a psicopedagoga Carin Primavesi Silveira.

Ali a agrônoma produziu, com fartura, milho e café, além de criar gado. Tudo organicamente. Em 25 de janeiro deste ano, porém, mais por questão de idade do que de saúde, Ana teve de deixar o sítio onde provou na prática todos os seus ensinamentos. "Hoje o solo do sítio está vivo", garante ela, que voltou para São Paulo, ao bairro do Campo Belo, na casa que construiu e mora com Carin e família.

Futuro. Agora, sem condições de seguir o cuidado desenvolvido no local, a família optou por colocar o sítio à venda. E, sendo a propriedade um legado da agroecologia, há várias pessoas em busca de uma solução que permita a preservação e a continuidade do trabalho. Em especial, um grupo de 20 pessoas ligadas ao movimento orgânico no Brasil, que tem se reunido para encontrar uma solução. A ideia que mais tomou corpo foi a da criação da Fundação Dra. Ana Maria Primavesi, que daria conta de gerir o sítio e torná-lo um polo difusor de agroecologia.

"Para tanto, precisamos de investidores, sejam pessoas físicas ou jurídicas, a fim de adquirir a propriedade", diz o professor Manoel Baltasar, da Agroecologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e um dos membros do grupo de discussão.

Também foi criado um blog (anaprimavesiana.blogspot.com.br) para difundir tudo o que se relacione ao trabalho de dona Ana. Espera-se, em breve, que ele possa divulgar a atuação da fundação no sítio. O e-mail de Carin (carin.bp@gmail.com) está aberto a contatos e mais informações. Sobre o sítio, Ana repete a todos que só quer uma coisa: manter o seu solo vivo. / T.R.

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