O vinho vira cultura no séc. 21

MoMA californiano dedica grande exposição ao vinho, mostrando de quadrinhos a design, com muita arquitetura, instalações e fotografia. A tese defendida é a de que, mais do que bebida, ele é uma importante forma cultural

Luiz Horta, O Estado de S.Paulo

18 Novembro 2010 | 02h47

Aberta nesta semana no MoMA de São Francisco, a exposição How Wine Became Modern: Design + Wine 1976 to Now exibe mais que rótulos e garrafas. Organizada pelo curador de Arquitetura e Design do museu, Henry Urbach, pretende situar o vinho e tudo que o circunda como uma forma decisiva de cultura no Ocidente e um elemento de ligação entre o fim do século 20 e o novo.

Urbach decide que o Julgamento de Paris, a famosa degustação em que os vinhos californianos derrotaram grandes nomes franceses, é o início da entrada do vinho no mundo da produção de sentido, deixando de ser mera bebida alcoólica. Foi o momento em que o vinho deixou de ser eterno, parte das libações báquicas dos gregos e da Santa Ceia cristã, e virou moderno. "De certa forma, tornou-se parte da modernidade quando passou a criar sua própria representação, juntando-se a outras manifestações da cultura", diz Urbach.

Nasceram assim coisas antes impensáveis, a crítica de vinhos e o turismo enológico, por exemplo. O curador diz que a bebida é nosso derradeiro vínculo com um produto real e natural, fincado no lugar de onde vem, contra o mundo baseado em experiências virtuais.

A exposição tem salas em que os visitantes experimentam fisicamente as sensações do vinho. Mas a ênfase é no estético, com maquetes das vinícolas, os rótulos artísticos e o design.

Como ponto central da tese do curador, a política do vinho e sua conexão com o mundo do status social recebem tratamento privilegiado.

A perturbadora vídeo-instalação de Dennis Adams mostra um homem vestido de branco que passeia por Bordeaux com uma taça na mão. À medida que a ambígua história da cidade aparece (foi a primeira sede do governo colaboracionista durante a ocupação nazista na 2a. Guerra), o vinho vai entornando e manchando a roupa. O vinho, como parte da sociedade, nunca será inocente.

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