Orwell, quem diria, virou blogueiro póstumo

George Orwell imaginou um mundo sem privacidade, em que todos seriam vigiados por um Grande Irmão. Muito do que ele previu há 59 anos em sua ficção 1984 virou realidade e agora, ironicamente, foi a sua própria privacidade que acabou. Os diários escritos pelo britânico entre 1938 e 1942 viraram um blog (www.theorwellprize.co.uk), com o primeiro post previsto para ter entrado no ar neste sábado. O blog será alimentado diariamente durante quatro anos, com os textos sendo publicados exatos 70 anos depois de escritos. A iniciativa do instituto britânico Orwell Prize visa deixar essa imensa obra inédita disponível a todos – e de uma forma atraente. Mas que ninguém espere ler fofocas ou detalhes íntimos da vida do célebre autor. "Sem dúvida esse diários são domésticos, mas eu não diria que são privados. Ele escrevia sobre o que estava acontecendo no mundo, lugares, pessoas, tudo de forma bem universal", afirma a professora Jean Seaton, diretora do instituto. "Depois de lutar na Guerra Civil Espanhola, Orwell ficou muito doente, quase morreu. Entretanto, absolutamente britânico em sua discrição, ele escreve apenas: pulmões não estão bem." Sobre sua primeira esposa, Eileen, a mulher que teria inspirado a personagem Júlia de 1984, não há nenhum a palavra. A primeira parte dos escritos relata o cenário europeu que antecedeu a 2ª Guerra Mundial e a viagem de Orwell ao Marrocos para se tratar das doenças e dos ferimentos sofridos na Catalunha, durante sua participação na guerra na Espanha. Com um estilo às vezes telegráfico, o escritor revela também seu interesse por assuntos variados, como meteorologia, natureza e receitas. As reflexões políticas sobre o comunismo, o fascismo e a imprensa foram anotadas por Orwell em um diário separado, que ele iniciou em 7 de setembro de 1938 e que também entrará no blog. Nesses textos, o escritor mostra ter sensibilidade e uma aguda capacidade de observação. Os diários são vistos por Jean como uma forma de preparação para seus livros mais importantes, Revolução dos Bichos e 1984. "Orwell é um colecionador de fatos interessantes e ainda argumenta de forma fantástica. Com o blog, o leitor vai poder ver o mundo através dos olhos dele e acompanhar um grande escritor praticando sua arte", diz ela. VIDA REAL Eric Arthur Blair, nome verdadeiro de Orwell, era um homem que contava com as experiências reais para produzir sua literatura e dizia querer "transformar a escrita política em arte". Nascido em 1903, na Índia, trabalhou como policial em Mianmar durante cinco anos até contrair dengue e ser enviado à Inglaterra. Lá, atuou como professor e jornalista, casou-se duas vezes e teve um filho. Morreu de tuberculose aos 46 anos. "Orwell é um escritor fundamental e, além disso, com uma vida extraordinária", afirma a dra. Maria Elisa Cervasco, professora de literatura inglesa na Universidade de São Paulo. "Ele lutou na Guerra Civil Espanhola e, apesar de ter uma boa situação financeira, resolveu viver durante um período como morador de rua para ter essa experiência". A vida nas ruas também foi relatada em um diário que virou o livro Na Pior em Paris e Londres, de 1933. Alguns trechos dos diários que servirão de matéria prima para o blog foram publicados há oito anos na coleção The Complete Works of George Orwell, hoje esgotada. A publicação completa e gratuita na internet foi possível graças a uma acordo com o filho de Orwell, Richard, que abriu mão da renda que poderia obter com o copyright. "Mas o material não vai ficar disponível indefinidamente", alerta a diretora do Orwell Prize. Cada texto permanecerá no ar por apenas 30 dias. Assim, quem quiser ler o conteúdo completo vai ter de acompanhar o blog assiduamente. George Orwell, considerado um profeta da era tecnológica, entra novamente na vanguarda: um escritor blogueiro, mesmo depois de morto.

Luciana Alvarez,

11 Agosto 2008 | 00h00

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