Os fins, os meios e os fins dos meios

Se a aliança com o centrão era funcional para o PT, a aliança com o PT também era funcional para o centrão

BERNARD APPY, O Estado de S.Paulo

01 Maio 2018 | 05h00

Estou triste com a prisão de Lula. Não apenas pelo que ele representa para a história do Brasil, mas também porque fui próximo do PT por muitos anos, até meu afastamento do governo, em 2009. Minha aproximação ao partido deveu-se não apenas a uma identificação com a agenda social e o foco na parcela mais pobre da população, mas também porque achava que o PT era o melhor caminho para mudar a forma de fazer política no Brasil. Obviamente eu estava errado.

O impeachment de Dilma Rousseff, e mesmo a prisão de Lula, são a consequência da opção feita pelo PT de governar seguindo o modelo já estabelecido de cooptação de partidos com os quais não possuía nenhuma afinidade ideológica e de financiamento, do próprio PT e de seus aliados, a partir de relações nada republicanas com empreiteiras e outras empresas.

Para o PT, os fins – a redistribuição de renda, a redução da pobreza e, é claro, a própria permanência do partido no poder – justificavam os meios, ou seja, a aliança com o PMDB e com o centrão e a distribuição entre os partidos da base de cargos que davam margem a práticas corruptas.

O que o PT talvez não tenha considerado adequadamente eram os fins dos meios. Se a aliança com o centrão era funcional para o PT, a aliança com o PT também era funcional para os partidos do centrão, cujo objetivo sempre foi o de perenizar sua participação no poder, por meio da ocupação de cargos que garantiam o financiamento de suas campanhas e o enriquecimento de seus membros.

A partir de certo momento, o PT tornou-se disfuncional para o centrão. Isso ocorreu em parte por conta do reforço da capacidade investigativa do Ministério Público e da Polícia Federal (por meio, por exemplo, da regulamentação da delação premiada), o que obviamente colocava em risco um modelo de sustentação política baseado em corrupção. Mas foi o resultado também da desastrosa gestão da política econômica do governo Dilma que levou a uma grave crise econômica e à perda de qualquer apoio por parte do empresariado.

As consequências são bastante conhecidas. Dilma Rousseff sofreu o impeachment e foi substituída por um governo com uma agenda pró-mercado que, na esperança de boa parte dos políticos (mas felizmente não na prática, até agora), poderia aplacar o ímpeto investigativo dos órgãos de combate à corrupção.

Meu objetivo, ao contar essa história muito simplificada e incompleta (tarefa para a qual não estou preparado, pois não sou cientista político), é menos falar do passado e mais advertir para os riscos do futuro.

Para boa parte da sociedade (em particular do empresariado e dos economistas) os fins continuam justificando os meios. Muitos estão dispostos a aceitar um governo baseado nas velhas práticas políticas do País – ou, o que é pior, um governo de perfil antidemocrático e até mesmo fascista – se este for o custo de uma boa agenda econômica.

É inegável que o Brasil necessita de uma agenda de reformas que garantam a sustentabilidade das contas públicas (como a reforma da Previdência) e que aumentem o potencial de crescimento do país (como a reforma tributária). Mas não podemos aceitar quaisquer meios para alcançar esses objetivos.

Como a história recente demonstrou, é preciso ter muito cuidado com os fins dos meios, pois são esses que realmente valerão no longo prazo. Se seguirmos aceitando práticas políticas não republicanas, ainda que vinculadas a uma boa agenda econômica, é certo que no futuro teremos um governo corrupto, mas não necessariamente uma economia eficiente. Se admitirmos a eleição de um candidato antidemocrático por conta de sua agenda econômica liberal, certamente nos arrependeremos, pois para esse candidato a agenda liberal não é um fim, mas apenas um meio de chegar ao poder.

Quando partimos da premissa de que os fins justificam os meios, muitas vezes descobrimos que, no desfecho, os meios devoram os fins.

ECONOMISTA, FOI SECRETÁRIO EXECUTIVO E SECRETÁRIO DE POLÍTICA ECONÔMICA DO MINISTÉRIO DA FAZENDA  2003-2009)

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