Os padroeiros da paixão o melhor de tudo dias lopes

São Valentim cuidava sozinho dos namorados. Mas em 1949, o publicitário João Dória, pai, substituiu-o no Brasil por Sto. Antônio, para estimular o comércio lojista, fraco no meio do ano Os devotos de Valentim nos desculpem, mas nosso Antônio é mais forte.

jadiaslopes@terra.com.br,

01 Dezembro 2008 | 19h40

Como a doutrina católica assegura que o céu é um lugar de felicidade, harmonia e paz, São Valentim e Santo Antônio devem desfrutar a glória eterna como bons amigos. Aqui na terra, porém, tornaram-se rivais - e o responsável foi um publicitário brasileiro. Até o século passado, São Valentim zelava solitário pelos namorados do mundo. Entretanto, em 1949, João Dória pai (1919-2000), de São Paulo, brilhante profissional da Standard Propaganda, substituiu-o por Santo Antônio de Lisboa, também chamado de Pádua. Ele precisava estimular as vendas do comércio varejista, tradicionalmente fracas na metade do ano. Sua cliente era a extinta loja Clipper. Apoiado pela Federação do Comércio, encontrou a solução: passou a comemorar o dia dos namorados a 12 de junho, véspera da festa de Santo Antônio. 'Não é só de beijos que se prova o amor', dizia o slogan da campanha, que rendeu à Standard o prêmio de 'agência do ano'. No início da década de 50, os namorados de outras cidades do Brasil também começavam a trocar presentes a 12 de junho. Os demais países permaneceram com São Valentim, celebrado a 14 de fevereiro. Cada santo ofereceu um motivo para proteger os casais. A tradição assegura que São Valentim conquistou seu posto no século 3º. Ignorando ordem do imperador romano, continuou a realizar casamentos. Solteiros se disporiam mais a ingressar no Exército. Pela desobediência, foi condenado à morte. Essa versão, porém, não encontra respaldo histórico. A respeitada Vida dos Santos de Butler (Editora Vozes, Petrópolis, 1985), em 12 volumes, nem sequer a menciona. Outro problema é existirem dois São Valentins, ambos martirizados a 14 de fevereiro. Vida dos Santos de Butler sugere que o patrono dos apaixonados foi um sacerdote martirizado no ano 269, na perseguição aos católicos desencadeada pelo imperador Cláudio, o Gótico. No livro The Parliament of Fowls (O Parlamento dos Pássaros), o poeta inglês Geoffrey Chaucer (1340-1400) acredita que os namorados elegeram São Valentim para seu advogado 'devido ao fato de os pássaros escolherem suas companhias na festa do santo'. A mais antiga referência a essa crença é de 1477, quando a também inglesa Elizabeth Trews, mãe de uma adolescente, enviou uma carta ao parente John Paston, propondo-lhe casar com a filha. 'Primo, como sexta-feira é dia de São Valentim e todo passarinho escolhe seu par, se você quiser vir na quinta-feira...', escreveu ela. Hoje, poucos duvidam que a associação de São Valentim com os enamorados surgiu na Inglaterra, entre os séculos 13 e 14, e que os Estados Unidos a incorporaram pela mesma razão do publicitário João Dória: incrementar a atividade comercial. Os europeus e americanos que nos visitam em junho ficam surpresos com a comemoração dos namorados do dia 12. Entretanto, terminam entendendo que fazê-la cair na véspera da festa de Santo Antônio foi uma boa idéia. Afinal, que nos desculpem os devotos de São Valentim, mas nosso santo é um protetor mais qualificado. Nascido em Lisboa a 15 de agosto de 1195, após ser ordenado frade franciscano Santo Antônio se tornou escritor brilhante e extraordinário orador sacro. Ao morrer em Pádua, na Itália, a 13 de junho de 1231, desfrutava de tanto prestígio que dez meses depois já ascendia à glória dos altares. Mais tarde, recebeu o título de Doutor da Igreja. Uma confusão verbal o teria convertido em anjo da guarda dos namorados. No Dicionário do Folclore Brasileiro (Global Editora, São Paulo, 2001), Luís da Câmara Cascudo assinala que os pescadores gauleses dos séculos 15 ou 16 não o chamavam de saint-Antoine de Padoue (Santo Antônio de Pádua), mas de Pavie (Pavia, cidade da Lombardia). Ora, evocava a palavra francesa épave, que significa 'coisa perdida'. Com isso, o Doutor da Igreja se converteu em localizador de destroços navais. Para Câmara Cascudo, encontrar boa companhia na vida também é 'um milagre da paciência incrível'. Outra explicação deriva de uma lenda portuguesa do século 17. Uma mulher madura que buscava marido, desesperada com a falta de resposta às promessas dedicadas a Santo Antônio, atirou a imagem deste pela janela. A estatueta caiu na cabeça de um soldado que transitava na rua. Curado o ferimento, ele se apaixonou e casou com a solteirona. Os dois santos revelam em comum o poder de lotar os restaurantes de namorados, em suas respectivas datas comemorativas, nos países de influência. Neles, muitos casais são recebidos com champanha, música, luz de velas e flores. Os donos dos restaurantes e chefs ainda descobriram a importância de oferecer pratos adequados à ocasião. Afinal, embora até hoje ninguém tenha conseguido provar cientificamente o efeito dos supostos pratos afrodisíacos, o célebre sedutor e libertino veneziano Giacomo Casanova (1725-1798) ensinava aos neófitos do amor que a atmosfera do encontro e o prazer de estar com alguém são poderosos estopins do amor. AMOR E AÇÚCAR Bolo de Santo Antônio (*) 14 porções 1 hora Ingredientes 3 ovos inteiros 150g de manteiga (ou ½ xícara chá) 1 ½ xícara (chá) de açúcar 100g de farinha de rosca (ou 6 colheres de sopa) 1 colher (sopa) de baunilha ½ xícara (chá) de leite 300g de amendoim torrado e moído sem pele e sem sal 1 colher (sopa rasa) de fermento em pó Amendoim picado para polvilhar Manteiga para untar Preparo Abra os ovos, separe as gemas e reserve as claras. Numa batedeira, bata as gemas com a manteiga e o açúcar por cerca de 10 minutos, até a mistura crescer, ficando esbranquiçada. Junte a farinha de rosca, a baunilha, o leite e continue batendo. Acrescente, aos poucos, o amendoim, bata mais uma vez e desligue a batedeira. Bata as claras em neve firme e junte-as delicadamente à mistura de gemas. Finalize, misturando o fermento em pó.Derrame a massa dentro de uma fôrma untada com manteiga e forrada com papel vegetal, ou, se preferir, disponha em forminhas de papel (número 0), colocadas dentro de forminhas de alumínio (tipo para empadinhas). Polvilhe amendoim picado em cima e leve ao forno baixo (160º C), preaquecido, por cerca de 35 minutos. Desenforme frio. (*) Esta receita foi recolhida por Ana Maria Braga e divulgada no programa Mais Você, da TV Globo.

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