País tem 30% das escolas em 'alerta'

Classificação feita com base no Ideb, divulgado na terça-feira, analisa desempenho de cada escola e aponta distorções em ranking

PAULO SALDAÑA, O Estado de S.Paulo

20 Agosto 2012 | 03h06

A rede pública de São Paulo teve em 2011 a 3.ª melhor nota do País no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) no ciclo 2 do ensino fundamental, de 5ª à 8ª série, mas 30% de suas escolas estão estacionadas, em estado de alerta: não avançaram na nota, não bateram suas metas e não chegaram ao Ideb 6 - a meta do País para 2021.

O porcentual paulista é igual ao do Brasil. No País, 30% das escolas dessa fase também estão em alerta. Nas unidades de 1.ª à 4.ª série, o quadro é um pouco melhor: são 20% nessa situação.

A classificação em níveis qualitativos, recém-criada pela Meritt Informação Educacional, oferece uma leitura mais adequada da qualidade das escolas brasileiras.

"Precisamos comparar escolas com elas mesmas. Ter duas escolas com a mesma nota, por exemplo, não significa que estão na mesma situação", explica o diretor da Meritt Alexandre Oliveira.

Por isso, o método cruza três critérios da evolução das escolas para entender melhor os dados do Ideb: crescimento no índice, cumprimento das metas para o ano e o Ideb 6. A combinação desses critérios coloca as escolas em determinado nível qualitativo.

A divisão funciona assim: caso a escola não tenha cumprido nenhum dos critérios, a situação é de alerta. Se pelo menos dois dos critérios foram cumpridos, a situação é de atenção.

Ter evoluído com a nota e ficado acima da meta, mesmo que abaixo de 6, é positivo e recebe a classificação manter.

Na classificação excelente estão as escolas que cumpriram todos os critérios (mais informações nesta página).

A distribuição das escolas entre os níveis mostra grandes desafios, principalmente na fase 2 do ensino fundamental. Nas escolas de 5ª à 8ª série, além de 30% em alerta, 7.584 estão em atenção. Ou seja, só evoluíram em um ou dois critérios. Dessas escolas, metade só cumpriu a meta para aquele ano - sem evoluir.

No ciclo 1 do fundamental, de 1ª à 4ª série, há 27% das escolas no nível de atenção - além dos 20% em alerta. A boa notícia é que 43% das escolas (15.322 unidades) conseguiram crescer no Ideb e bater suas metas.

Contexto. Para o diretor da Fundação Lemann, Denis Mizne, é preciso entender o que acontece em cada escola, sem perder de vista a análise das redes. "Entender a escola contra ela mesma, levando em conta as regiões em que estão, é importante para entender a qualidade do ensino naquele contexto", diz ele. "E você olha para as redes a partir das escolas e descobre as políticas que estão dando certo. Não fica só na discussão das médias, que nos atrapalha."

As informações mais usuais do Ideb são ranking de Estados e cidades, que levam em conta a média entre as notas das escolas. Mas valores médios podem esconder informações.

Nos anos finais do fundamental, de 5ª à 8ª série, apenas seis Estados não cumpriram as metas e somente quatro tiveram nota menor do que em 2009.

Mas, olhando para as escolas, a situação é diferente: 17 Estados, mais o Distrito Federal, estão com 30% das escolas no nível de alerta. Ao todo, 6.202 escolas nessas unidades da federação não evoluíram no Ideb de 2009 a 2011, não cumpriram a meta e não chegaram à nota 6.

Disparidade. O exemplo de São Paulo é esclarecedor. Além das 1.466 escolas (30%) que não saíram do lugar entre 2009 e 2011, outras 1.438 escolas (29%) não cumpriram nenhum dos três critérios. Mais da metade só conseguiu se manter na meta.

"As melhores escolas puxam a média para cima, conseguem tracionar as que estão mais distantes. As melhores contaminam a média", diz Oliveira.

Minas Gerais, por exemplo, tem a segunda maior rede do País e ainda assim tem uma distribuição mais positiva das escolas nos níveis. Há mais escolas nos melhores níveis do que nos preocupantes.

Santa Catarina também tem resultados positivo na classificação por níveis, assim como no ranking pela nota média. Nos anos finais, 58% das escolas estão no nível manter.

Alterações. As diferenças entre a classificação por nível e o ranking Ideb aparecem em outros Estados. O Amapá, por exemplo, tem 58% das escolas em estado de alerta e 18% em atenção. Com essa leitura, sua rede pública do ciclo 2 do fundamental aparece na pior posição do País, abaixo até de Alagoas - no ranking de índice Ideb, Alagoas é o último, com nota 2,6 e Amapá, fica na 20ª posição, com nota 3,5. Mas também não é motivo para comemorações em Alagoas. O Estado tem 424 escolas públicas, 53% do total, em estado de alerta.

O professor Cipriano Luckesi, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), afirma que o Ideb tem a capacidade de revelar o sistema de ensino, mesmo que haja ruídos. "Quanto mais a população tiver acesso a análises, melhor", diz Luckesi, especialista em avaliação. "O Ideb ainda é recente e já começa a produzir efeitos. Há diretores focados, famílias cobrando. Com mais alguns anos, a situação tende muito a melhorar."

O recorte por níveis só foi possível no ensino fundamental porque não há índices por escolas do ensino médio.

O Ideb da última fase da educação básica só divulga as médias dos Estados.

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