Alexandre C. Mota/AE
Alexandre C. Mota/AE

Para além do triste retrato na parede

Confira a versão abreviada do estudo que marca a reedição de 'Confissões de Minas' - que a Cosac Naify lança dia 31 -, de Drummond de Andrade, escrito pelo maior especialista estrangeiro na obra do autor

John Gledson,

21 Outubro 2011 | 18h28

Confissões de Minas é a primeira coletânea de prosa que Drummond publicou; apareceu em 1944, pouco antes do fim da 2ª Guerra Mundial e do Estado Novo. Agora, foi republicada na sua forma original, pela primeira vez desde 1944: sempre apareceu como parte da Obra Completa da Editora Nova Aguilar, mas foi sofrendo vários cortes, alguns sancionados pelo próprio poeta, que já no começo removeu duas narrativas para Contos de Aprendiz. A mais recente Prosa Seleta omite vários itens, entre eles uma seção inteira, Caderno de notas. Esta nova e benvindíssima edição vem acompanhada de quatro resenhas do tempo, de Antonio Candido, Sérgio Milliet, Lauro Escorel e Mário da Silva Brito - todas de uma qualidade invejável, mostrando o enorme respeito que se tinha pelo poeta já, antes da publicação de "A Rosa do Povo". Há também dois ensaios críticos, de João Adolfo Hansen e Milton Ohata, e 23 páginas de material bibliográfico, sobretudo sobre a história da publicação das múltiplas peças de que o livro se compõe. O livro é um avanço esplêndido no nosso conhecimento e compreensão do poeta, cuja prosa - "a linguagem de todos os instantes", como ele mesmo diz - fica à altura de qualquer prosa da época (ou de outras épocas), fato sublinhado já por Antonio Candido no seu ensaio.

Para mim, a releitura foi um reencontro com um velho amigo, mas com a (possível) vantagem de uma distância maior, a esperança de entender melhor, e o fascínio de velhos problemas, que podem, quem sabe, encontrar novas soluções. Drummond seria o primeiro a questionar meu entusiasmo, com a consciência profunda que tinha das perdas e ganhos que o tempo traz - "amar, depois de perder" - e a sua insistência, já em 1944, que "Hoje não escreveria quase nada do que aí se contém". Mas, sobretudo, podemos entender melhor o processo de composição do livro, feito de ensaios, "quase histórias", e apontamentos publicados aqui e ali, em Minas e no Rio de Janeiro, entre 1925 e 1944, e assim compreender melhor o "tempo" que, o poeta insiste, é ou deve ser a substância do livro. Confrontando a crescente descrença dos leitores numa literatura "que se faz à margem do tempo ou contra ele - seja por incapacidade de apreensão, covardia ou cálculo", a voz do poeta será precária - "sou eu, o poeta precário / que fez de Fulana um mito" - mas por isso mesmo é (e continua sendo) viva."Confissões de Minas" contém dois ensaios que são, sem dúvida, a melhor introdução ao poeta e à sua poesia. São opostos diametrais. Primeiro, "Suas Cartas" (publicado em duas partes em 1944 na Folha Carioca), o artigo extraordinário sobre a correspondência de Mário de Andrade com Drummond nos anos 20, com as suas citações generosas das próprias cartas, na época completamente desconhecidas. Imagina-se o efeito que deve ter tido, sobretudo depois do "terrível exame de consciência que foi a conferência sobre o movimento modernista", em 1942. Tenho até a impressão que o artigo talvez seja uma espécie de resposta a essa "insatisfação por não ter feito tudo e até mais que do que tudo": quase uma retificação histórica. Agora, nosso conhecimento aumentou. Podemos ler, por exemplo, a comovida reação do próprio Mário - "Vibrei tanto que fiquei impossibilitado muito tempo de qualquer espécie de atividade, até ler" - na edição que Drummond fez das cartas, "A Lição do Amigo", e em "Carlos e Mário", a edição da correspondência de ambos, editado e fartamente anotado por Silviano Santiago.

Seu oposto polar talvez seja "Vila de Utopia", publicado em Belo Horizonte em 1933. É o primeiro encontro pleno com Itabira-do-Mato-Dentro, com a lembrança da cidade natal. É, já, nitidamente, um encontro com uma perda: "Haverá uma terceira e diversa Itabira? Meu Deus, como me doeria responder sim à pergunta, e confessar que em 1933 o antigo menino da Rua Municipal foi encontrar a sua cidade habitada por um pelotão de velhos, que nada poderiam dizer, e por um exército de rapazes e meninas, para os quais não tinha nenhuma mensagem." Isto em 1933: o artigo foi escrito para celebrar o centenário da elevação da cidade a vila. Devo confessar que quando primeiro li o artigo, há muitos anos, quase nem notei o detalhe, subjugado pela visão da cidade "utópica", emperrado no tempo: "a cidade não avança nem recua. A cidade é paralítica." É um efeito que o artigo procura, mas já com uma profunda ironia. Está cheio da tensão entre passado, presente, e, sobretudo, futuro - o futuro que traria, nas palavras de "A Montanha Pulverizada", de "Menino Antigo" (1973), o "trem-monstro de 5 locomotivas / -- o trem maior do mundo, tomem nota", e o desaparecimento total da montanha enorme e "eterna", o Pico do Cauê, toda feita de hematita pura, e que agora é um enorme buraco na terra. No livro, Drummond informa, numa nota brevíssima, meramente fatual, que o artigo é de 1933. Não era para menos: em 1944, a Companhia do Vale do Rio Doce já fora fundada, e Itabira era o foco de uma polêmica acerca da exploração das jazidas minerais nacionais, no contexto da Guerra, e dos Acordos de Washington. "Confidência do Itabirano" - "Itabira é apenas um retrato na parede / mas como dói!" - foi publicado pela primeira vez em 1939, num cenário completamente mudado; não há leitura possível deste famoso poema sem conhecimento do novo simbolismo da cidade. "Vila de Utopia", seis anos antes, já explorava esta paisagem da perda: "eu também sou filho da mineração, e tenho os olhos vacilantes quando saio da escura galeria para o dia claro."

Entre Vila de Utopia e Suas Cartas, 1933 e 1944, o mundo mudou. No prefácio (sem título), Drummond distorce ligeiramente os fatos para sublinhar a natureza da mudança - "Este livro começa em 1932, quando Hitler era candidato (derrotado) a presidente de república e termina em 1943, com o mundo submetido a um processo de transformação pelo fogo" (duas das peças do livro datam dos anos 20); mas, "nesta fase integralmente política da humanidade" (frase de Suas Cartas), é um deslize perdoável, e provavelmente intencional. Confissões de Minas acompanha a mudança mais radical da carreira do poeta: de Belo Horizonte para o Rio de Janeiro, de funcionário estadual a alto funcionário federal, de um cinismo autocrítico e angustiado ao engajamento e ao entusiasmo políticos, da fama local à fama autenticamente nacional - em suma, de Brejo das Almas, de 1934, a Sentimento do mundo, de 1940, e José, de 1942, já numa edição de toda a sua poesia, publicada pela José Olympio, a primeira editora a custear a publicação de seus livros, como sublinha o próprio Drummond na Cronologia da edição Aguilar. De fato, como nos informa Vinícius Dantas numa nota à sua edição de Plataforma de uma Geração de Antonio Candido, muitos dos poemas de A Rosa do Povo, publicado em 1945, já circulavam numa forma semi-clandestina.

Claro que Drummond tinha uma alta consciência desta mudança, durante o próprio processo - a auto-análise começou cedo, e acompanhou-o ao longo da carreira e da vida. "Confissões de Minas" contém dois exemplos cruciais. O primeiro é a famosa "Autobiografia para uma Revista", publicada, esta edição nos informa, em 1938, na Revista Acadêmica, e novamente, atualizada, em 1941, desta vez num número dedicado a Drummond; o próprio poeta disse da revista, editada por Murilo Miranda, que "refletiu o que a inteligência brasileira tinha de mais vivo, na criação literária e artística, e na crítica social". Esta "Autobiografia" estabeleceu os parâmetros da visão do poeta, que perduram até hoje - as origens burguesas em Itabira, a expulsão do colégio dos jesuítas em Nova Friburgo ("Perdi a Fé. Perdi tempo"), o poeta tímido, gauche, auto-crítico, que "não se julga substancialmente e permanentemente poeta", e, claro, o autor do escandaloso "No Meio do Caminho", "que serve até hoje para dividir no Brasil as pessoas em duas categorias mentais". Em Confissões, ele situa esta peça no centro da importante seção "Na rua, com os homens", logo antes de "Suas Cartas", que deve ter tido um grande efeito sobre a reputação do amigo também.

Logo a seguir vem "Estive em Casa de Candinho", mera crônica talvez, mas que nos apresenta ao mundo artístico e intelectual para a qual Drummond entrou quando emigrou para o Rio em 1934, e que descreve uma festa na casa de Candido Portinari, com uma "imensa macarronada". Apareceu num número da mesma Revista Acadêmica, dedicado ao pintor, em 1940, e cuja capa essa nova edição reproduz. "Ah, é Drummond", diz o anfitrião quando entra, detalhe que sublinha, muito levemente, a (des-)importância do poeta neste mundo. Por mais que este "homem de frágeis omelettes" fique na sombra, "calado e gauche" ao lado de figuras como Bandeira, Mário ou Murilo Mendes, ele é parte integral de um mundo que não é mais mineiro, e até começa a ultrapassar os limites nacionais. Muitos detalhes, inclusive a presença de um misterioso M. Offaire (o adido cultural francês?) estabelecem esta atmosfera de abertura. O mesmo acontece com os artigos restantes de Na Rua, com os Homens - sobre Antonio Simões dos Reis, García Lorca, François Mauriac, José Boadella, e William Berrien. Difícil imaginar um elenco mais heterogêneo - um bibliógrafo brasileiro, um poeta espanhol morto e famoso, um romancista francês e católico, outro poeta espanhol vivo e desconhecido, e um professor americano, empregado da Divisão Cultural da Fundação Rockefeller. Esta heterogeneidade talvez fosse proposital. A "timidez" ou "humildade" de Drummond foi muitas vezes um jeito de afirmar a sua própria independência e de esquivar categorizações fáceis; é possível, por exemplo, ser de esquerda e apreciar a simpatia e a companhia de um representativo da política da "boa vizinhança".

A segunda tentativa de "autobiografia", ou de aproximação à crise dos anos 30, é "Um Escritor Nasce e Morre", publicado em 1939, na Revista do Brasil, e removido para Contos de aprendiz em 1951. Relendo-o agora no seu contexto original, acho que foi uma decisão infeliz - os editores têm toda a razão ao restaurar a integridade do livro. Este tem uma unidade e uma ordem reais, se bem que relativas - como um móbile, na expressão feliz de Milton Ohata, em que as partes se refletem, se contrabalançam de várias maneiras: parece que Drummond, já no fim da vida, tinha planos de restaurar o livro. "Um Escritor Nasce e Morre" conta a crise dos anos 30 como se tivesse sido um evento apenas "literário", num sentido comicamente estrito. O poeta, ao "nascer" na aula de D. Emerenciana Barbosa, em Turmalinas, compara-se a outro Barbosa, "um homem pequenininho, de cabeça enorme, que fazia discursos muito compridos e era inteligentíssimo." Esse poeta agora morreu - "Dou minha palavra que morri, estou morto, bem morto". "Renasceu", é claro,mas fora do texto, para a vida, e para outro tipo de contacto com a realidade.

Um dos fascínios desta nova edição é que permite, ou incentiva, uma nova apreciação da fase mineira do poeta - não é por acaso que o livro se intitule Confissões de Minas. Salta aos olhos uma preocupação com a morte e o fechamento nos ensaios e apontamentos escritos antes da mudança (que podemos datar no fim de 1934). Nas palavras de "A voz pelo telefone", da última seção, Caderno de Notas, e publicado em 1932: "Mas nós estávamos em Minas Gerais, Brasil, país de caminhos fechados, país irremediável..." Os três ensaios que abrem "Na Rua, com os Homens" são homenagens, lembranças de três mineiros que morreram jovens, Alberto Campos, irmão mais novo de Milton Campos, Ascânio Lopes, do grupo da Verde de Cataguases, e João Guimarães, da mesma família de Bernardo Guimarães, Alphonsus de Guimaraens, e João Alphonsus. Mas cuidado: a mesma empatia com um lugar provinciano, católico, paralítico, reaparece em 1942, no ensaio - introdução a uma tradução de Thérèse Desqueyroux - sobre Mauriac.

É um processo complexo que, na sua totalidade, resta por estudar. Para a outra crise famosa, a que levou de A Rosa do Povo para Claro Enigma, temos o excelente livro de Vagner Camilo, Da Rosa do Povo à Rosa das Trevas (2002). Lentamente, estamos juntando as peças para esta outra história. Temos as edições das cartas de Mário e Drummond, a Bibliografia comentada de Fernando Py, que chegou até 1934, e o Inventário do arquivo do poeta, estes ambos publicados pela Casa de Rui Barbosa. Temos até uma primeira tentativa de biografia, a de José Maria Cançado (Os Sapatos de Orfeu), que não será ideal, mas tem detalhes inesquecíveis: a imagem, por exemplo, do poeta, nos seus primeiros anos cariocas, perambulando aos fins de semana com a filha Maria Julieta pelo Cemitério São João Batista, ou pelas favelas atrás de Copacabana (morte e vida, novamente...).

O processo fascina, em boa parte pelos seus muitos níveis. Vamos do assunto controvertido do poeta de esquerda, funcionário do Estado Novo, até os constantes poéticos que subjazem as mudanças "de superfície" (mas que no entanto foram inteiramente reais, não só "literários", como fica patente nas cartas do período que conhecemos). No seu ensaio no fim da edição, João Adolfo Hansen argumenta que este poeta da passagem nunca abandona uma poética da negatividade - outra forma da precariedade tão importante em A rosa do povo, e que explica a presença clara de Mallarmé mesmo no livro "engajado" de 1945. Escolhe para provar o seu argumento O Livro Inútil, de Caderno de Notas, apontamento curto, fascinante, publicado em 1935, no que imaginamos seria o momento mesmo da crise, o seu auge (ou o seu nadir). A grande virtude deste artigo (e diria que um sine qua non de toda apreciação plena da obra drummondiana) é que recusa-se a dividir o poeta em dois, o engajado e o esteta, que inexistem em estado puro. O desafio é, e continua sendo, poder transitar entre este nível de profundidade e/ou abstração, e a história, a vida diária, em comum, em que o poeta tanto insiste. Qualquer história destes anos terá que reconciliar os vários Drummonds presentes aqui em Confissões de Minas, nas cartas, na vida pública e privada, e sobretudo na poesia ("a linguagem de certos instantes, e sem dúvida os mais densos e importantes da existência"). Sobretudo, tentará entender um fenômeno que Antonio Candido já apontava, na Plataforma de uma Geração, de 1943: "Carlos Drummond representa essa coisa invejável que é o amadurecimento paralelo aos fatos; o amadurecimento que significa riqueza progressiva e não redução paulatina a princípios afastados do Tempo." O Tempo, novamente.

JOHN GLEDSON, CRÍTICO INGLÊS, MAIOR ESPECIALISTA EM DRUMMOND E MACHADO DE ASSIS NO EXTERIOR, É PROFESSOR APOSENTADO DA UNIVERSIDADE DE LIVERPOOL. PUBLICOU, ENTRE OUTROS, POESIA E POÉTICA DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE (DUAS CIDADES) E INFLUÊNCIAS E IMPASSES - DRUMMOND E ALGUNS CONTEMPORÂNEOS (COMPANHIA DAS LETRAS).

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