LEO EELOY/SELVASP
LEO EELOY/SELVASP

Parados no tempo e no espaço

Para filósofo italiano, a metrópole é um corpo em constante movimento. Quando paralisa de repente, entra numa órbita de irracionalidade pura

Mônica Manir, O Estado de S. Paulo

24 Maio 2014 | 16h00

Mauro Maldonato é filósofo, psiquiatra, autor de 'Da mesma matéria que os sonhos' (Sesc)

A cidade que nunca para parou. E por falta de aviso prévio, por inércia ou por desatino, milhares continuaram em movimento, na determinação de chegar aonde iam ou de voltar ao ponto de partida. Foi um transtorno atroz na visão dos paulistanos, e um caos tempo-espacial na perspectiva do italiano Mauro Maldonato, que acompanhou o vaivém insano do povo atrás de condução. Depois de rodar pelo interior de São Paulo em eventos que tratavam do corpo e do tempo, o filósofo estacionou na capital no auge da greve para lançar seu novo livro. Da Mesma Matéria que os Sonhos se junta a A Subversão do Ser, Raízes Errantes e Passagens do Tempo, todos publicados pelas Edições Sesc. Desta vez ele trata de consciência, racionalidade e livre-arbítrio. 

Maldonato nasceu na piccola e aprazível Sapri, distante 140 quilômetros de Nápoles, na qual vive hoje. Já passou bons anos em Londres, onde estudou na London School of Economics; morou em Paris, onde frequentou a École des Hautes Études em Sciences Sociales; foi professor visitante da PUC-SP e da USP; e hoje dirige o Cognitive Science Studies for the Research Group, na Universidade Duke. Também é professor no Departamento das Culturas Europeias e do Mediterrâneo na Universidade Della Basilicata e acaba de chegar de Dubai. Foi dar mais uma conferência sobre o tempo, que parece se multiplicar em suas mãos.

Nesta entrevista, feita no mezanino envidraçado de um hotel nos Jardins, Maldonato falou do que via lá fora: a metrópole desencarnada. “Esses corpos são desmaterializados, fruto de uma massa doida que deixou de ter relações significativas sob o efeito ilusório da grande lente imaginária sustentada pela internet.” Além disso, diz ele, a velocidade urbana, mais acelerada, não casa com a velocidade da biologia, infinitamente mais lenta. Não há mais sintonia. “Vivemos a era do instantâneo, e é muito provável que nos deparemos com novas patologias provocadas por essa assimetria.” Seria esse napolitano um ser apocalíptico? Aos 54 anos de idade, pai de um adolescente de 15, ele garante que não. Apenas gosta de pensar: “Falta a paciência da espera, e hoje o efeito antecipa a causa. É um tema que instiga, intriga, interpela, porque é o tema do nosso futuro”.

Quando uma cidade estressada como São Paulo é obrigada a parar, ela parece ainda mais estressada do que quando está em movimento. Como explicar isso?

Para responder à sua pergunta, é interessante pensar numa metáfora. Uma cidade é um corpo. Não um corpo orgânico no sentido tradicional, mas um corpo no formato de um sistema nervoso, que tem a sua consciência e a sua parte inconsciente. Esse sistema nervoso funciona por meio de inputs e outputs, movimentos de entrada e saída. Imaginemos um número infinito de pessoas como as que vivem em São Paulo, que vêm e vão. Quando qualquer coisa, um objeto, uma situação, uma greve interrompe esse fluxo, um corpo como a cidade entra numa espécie de paralisia. A greve interrompe esse fluir, a cidade entra numa órbita de irracionalidade pura, na qual até os direitos primários, mais básicos, como as relações entre as pessoas, se interrompem. Isso naturalmente produz alterações em uma metrópole que convive ao mesmo tempo com realidades pós-modernas e pré-modernas, como São Paulo. A paralisação adoece o imaginário, a expectativa, a vitalidade.

Mas seria uma característica típica de São Paulo? Ou comum a todas as metrópoles? 

Por muito tempo vivi em Londres, também no Oriente Médio, no Extremo Oriente, visitei Hong Kong, Dubai, e naturalmente cidades mais antigas, como Nova York e São Paulo. Sim, elas têm algo em comum. São todas imensos navios com um grande depósito de corpos. Esses corpos parecem não pertencer a eles mesmos. São desmaterializados, fruto de uma massa doida, de uma massa solitária, que deixou de ter desejos, de ter relações significativas, sob o efeito ilusório da grande lente imaginária suportada pela internet. Como se isso produzisse um aumento das relações...

Não é uma visão exatamente otimista da internet e das redes sociais.

Não tenho um visão pessimista quanto a isso, mas as redes sociais são um fenômeno evolutivo que a humanidade ainda não processou. Houve uma época em que a cidade tinha um sentido tradicional. Ele se alargou com o advento da metrópole e depois com a megalópole. É como se a cidade deixasse de ter sua evolução natural, como todas as coisas da vida. Seu estágio atual é o da velocidade. Falta a paciência da espera, e hoje o efeito antecipa a causa. Se tenho esse telefone e o deixo cair no chão, tenho uma relação de causa e efeito, certo? Mas parece que a relação é ao contrário. E isso, do ponto de vista evolutivo da mente humana, não foi elaborado, porque nossas estruturas cerebrais são ainda muito arcaicas. Há uma diferença entre o tempo da sociedade, da velocidade urbana, e o tempo da nossa biologia, que é muito lento. É muito provável que nos deparemos com novas patologias provocadas por essa assimetria. Porque a coisas não estão mais juntas, não há mais sintonia. Nossa expectativa quando aguardávamos uma carta era uma. Agora existe a impaciência de ler um e-mail. 

Que patologias seriam essas? É possível antecipá-las? 

Patologias urbanas. Está previsto um crescimento da depressão e outros fenômenos de ansiedade, um fenômeno que aumentou exponencialmente. É impressionante. Se você vai à farmácia e pergunta qual é o medicamento mais vendido, certamente são aqueles para o coração e os antidepressivos. 

Mas a pessoa fica deprimida porque não consegue se adequar a esse tempo? Ou ela é deprimida, e o tempo não se adapta a ela?

São duas coisas diferentes: uma é a depressão endógena, orgânica, e as causas estão no nosso cérebro. Outra é a depressão como consequência da incapacidade de se adaptar à velocidade e à complexidade do mundo em que vivemos. Mas os sintomas convergem: uma pessoa deprimida vive um tempo congelado, imóvel, interrompido, sem esperança, estéril, paralisado. É como uma cidade que, entre altos e baixos, é obrigada a parar repentinamente. Fica inquieta, nervosa, agressiva. É uma heteroagressividade, contra o outro, que pode se transformar numa autoagressividade. Porque a depressão tem essa inquietude, essa laceração interior, que provoca dor. 

No ócio criativo, postulado pelo italiano Domenico de Masi, o tempo livre seria fundamental. Diante da escassez de horas vagas, estaríamos menos criativos?

O que significa uma apologia do tempo livre, do ócio criativo no panóptico social pós-moderno? Que sentido teria uma liberdade dentro de um nicho não contaminado pelo pecado social da obrigação? Não há nenhuma intenção polêmica nisso, mas me parece que esse achado se sustenta na convicção de que existam espaços de liberdade puros, incontaminados e imunizados. Além disso, o elogio incondicional do ócio degrada o trabalho. Ele seria nada mais que labuta necessária, forçosa. Para mim não é assim. Eu me divirto muito trabalhando. Tenho receio de que a defesa entusiasmada do tempo livre retome o tema aristocrático da liberdade como superioridade elitista, aristocrática, que torna a ser proposta, mas agora com tempero democrático. Mas não há nada de democrático nessa liberdade, porque lhe falta o caráter da universalidade. É uma liberdade que desistiu de lutar por ela mesma. 

Você usa o filme Wall Street: Poder e Cobiça como metáfora do tempo da modernidade. Que filme representaria a pós-modernidade?

Blade Runner é pós-moderno. Talvez eu não seja original, mas ele parece profético, representa o tema que todos temos diante de nós, ou seja, a consciência de que as máquinas um dia terão sentimentos. Olho com extremo interesse a inteligência artificial. O verdadeiro desafio intelectual é imaginar se essa máquina vai assumir sua autonomia com pequenos fragmentos de livre-arbítrio. 

O que achou do filme Ela? Não lhe pareceu atual, apesar da proposta futurista? 

Ela é absolutamente fascinante. É um olhar agudo sobre nosso presente. Por trás de uma história de amor ao silício, simples mas profunda e original, indagam-se a natureza e as implicações da intimidade e das relações humanas no mundo contemporâneo. Sem lições morais. O diretor, Spike Jonze, entra na mente e no coração da máquina, tentando eludir as diferenças. Quem amamos quando nos apaixonamos pelo computador? É nossa projeção, nosso desespero ou um outro ser? A câmara prefigura a sociedade que seremos em breve. Sobretudo apresenta-nos a tecnologia não como uma inimiga insidiosa, mas sem preconceitos e sem evocar emoções obscuras. Uma visão inovadora, nada inquietante, uma pesquisa estética, sedutora.

A extrema velocidade do mundo seria um recurso para nos afastar da nossa humaníssima morte?

A morte é o tornassol do frágil arcabouço do moderno. Todas as imagens da mídia são imagens que celebram a beleza, o corpo sadio e juvenil. Rejeitam tudo o que nos remete à condição mortal. A morte continua sendo o único verdadeiro escândalo da modernidade. Embora a espetacularizem, os meios de comunicação de massa se imunizam contra a morte porque ela contradiz seus valores: o consenso e o consumo. Não por acaso, para exorcizar a morte na internet, há uma ampla oferta de lóculos de cemitério com imagens, vozes e sons; tarifários para a mumificação; empresas que lançam em órbita as cinzas; e assim por diante. Mas as coisas são ligeiramente mais complicadas do que isso. A morte verdadeira por envelhecimento precoce de Dolly, a simpática ovelhinha criada eugeneticamente, foi um golpe duro para aqueles que, além da própria imagem de preferência tridimensional, queriam manter em vida também o corpo.

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