Pelas barbas do Barbera

Oh, Barbera! Será que estamos envelhecendo juntos? Meu cabelo ficou grisalho, enquanto você, Giacomo Conterno Barbera d"Alba, que me acompanhou nos dias de pós-graduação por US$ 8 a garrafa, hoje custa US$ 50! A velhice é inevitável, claro. Mas US$ 50 por um Barbera quer dizer o quê? Em parte, acho que o preço indica haver mais gente apreciando esse outrora modesto vinho. Mais importante, porém, o preço demonstra que a avaliação de Conterno como grande produtor cresceu.

Eric Asimov, O Estado de S.Paulo

15 Setembro 2011 | 01h48

Assim como um despretensioso Borgonha tinto feito por um vinhateiro entusiasta pode custar tanto quanto um premier cru da região, também subiram os preços dos Barberas feitos por grandes produtores de Barolo e Barbaresco.

Na região piemontesa de Langhe, noroeste da Itália, a Barbera continua sendo a irmã menor da Nebbiolo, a uva dos Barolos e Barbarescos. Em Alba, principal região do Barolo, a Nebbiolo ocupa as melhores vinhas. A Barbera disputa o que sobra. Essa era a ordem das coisas. Os Barolos respondiam pelo dinheiro grosso e eram reservados para envelhecer; e os Barberas, engarrafados para consumo imediato, custavam pouco.

Era assim quando comecei a gostar de vinho. Aquelas memoráveis e baratas garrafas de Conterno me fisgaram com sua fruta vermelha esplêndida, suculenta, ainda amarga, que oscilava entre o doce e o saboroso, impelida por uma acidez vivaz.

Os Barberas da região de colinas de Asti, no nordeste de Langhe, parecem se sair um pouco melhor que seus irmãos de Alba. A Nebbiolo não é tão cultivada em Asti, o que deixa os melhores campos para a Barbera. De fato, nos anos 80, Braida di Giacomo Bologna, um produtor de Barbera em Asti, foi pioneiro em envelhecer Barberas em carvalho francês novo, pelo que foi aclamado (e subiu seus preços).

O sucesso de Braida inspirou outros produtores a envelhecer seus vinhos em carvalho novo, geralmente com infelizes resultados. O imediatismo vivaz desse honesto vinho frequentemente era sepultado sob baunilha e torta de queijo e chocolate, apagando qualquer vestígio de identidade regional.

Apesar de tudo, minha afeição pelos Barbearas continua sendo tanto sentimental quanto real. Degustamos recentemente 20 garrafas, 14 de Alba e 6 de Asti. A degustação confirmou a crença de que os melhores produtores de Barolo e Barbaresco tendem também a fazer melhores Barberas, a preços que refletem a estima de que eles gozam. Saímos com a sensação de que o Barbera entrou num período de mais confiança, após uma longa e bisonha batalha com o carvalho. Apesar de alguns dos vinhos estarem de fato marcados e até desfigurados pelo carvalho, eram em menor número do que temíamos. Em todo caso, tínhamos de avaliar coisas mais importantes que o carvalho, notadamente o equilíbrio. A estrutura do Barbera repousa em sua acidez cortante, que o mantém fresco e suaviza os alimentos ricos em gordura. Uma acidez fora de controle deixa o Barbera desagradavelmente agressivo, algo como azia em copo. O equilíbrio levantou outras dúvidas. A safra 2008 de meu velho favorito, o Giacomo Conterno Barbera d"Alba, ainda exibia fruta e sabores minerais robustos, mas alguma coisa não bateu. Estava um pouco doce e um pouco quente, muito alcoólico.

Não houve esses problemas com outros vinhos de ponta. Nosso número 1, o Vietti Barbera d"Asti La Crena 2006 estava esplêndido: cítrico e energético. O número 2, o Bartolo Mascarello Barbera d"Alva 2008, oscilava entre fruta doce e acidez salivante, tensão que mantinha o vinho vivo. Nosso número 3, o Barbera d"Alba 2008 de Bruno Giacosa, era um "Barbera autêntico", com aquela levada entre doce e amargo característica de muitos bons vinhos italianos. O número 4, o Michele Chiarlo Barbera d"Asti Le Orme 2008, custa apenas US$ 13. Vinho remanescente dos despojados Barberas de outrora, fermentado e envelhecido em grandes barricas de carvalho antigo, proporcionando um prazer direto e descomplicado. Uma boa opção. Dos Barberas d"Alba provados, seis figuraram nos nossos "dez melhores", assim como quatro dos d"Asti.

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