Pesquisas com vírus da gripe aviária são suspensas
Cientistas dizem que querem dar tempo 'a governos e organizações para discutir os estudos'
SÃO PAULO - Cientistas que pesquisam uma versão geneticamente alterada e potencialmente transmissível entre humanos do vírus da gripe aviária H5N1 decidiram interromper as pesquisas por 60 dias. Em um artigo publicado nas revistas científicas Nature e Science, eles afirmam que querem dar tempo "a governos e organizações para discutir esse tipo de pesquisa."
O grupo, que representa 39 instituições de pesquisa de todo o mundo, propõe a realização de um fórum científico internacional sobre o tema, mas defende a continuação dos estudos e a publicação dos resultados. Em dezembro, um conselho de biossegurança ligado ao governo dos EUA solicitou aos pesquisadores que alterassem seus trabalhos científicos originais antes da publicação, de modo a omitir as alterações do genoma do vírus responsáveis pelo aumento na capacidade de contágio.
O conselho teme a utilização do estudo por terroristas dispostos a criar uma arma biológica. Os pesquisadores aceitaram a contragosto a solicitação. Mas, agora, defendem um amplo diálogo para mostrar que suas pesquisas são importantes para identificar cepas perigosas na natureza antes que elas iniciem uma pandemia. Eles admitem, contudo, que a preocupação tem fundamento.
Dois grupos de cientistas conseguiram produzir em laboratório um vírus da gripe aviária que pode ser transmitido pelo ar entre furões. Esse animais são considerados os modelos mais próximos dos homens em testes clínicos do aparelho respiratório. O virologista Ron Fouchier, que coordena um dos grupos, na Holanda, afirmou que o vírus é "provavelmente um dos mais perigosos que podem ser feitos em laboratório."
O vírus da gripe H5N1 tem uma taxa de letalidade superior a 50%. Até agora, os casos estão sempre relacionados a zoonoses - contágio de um homem por um animal infectado - em porcos ou aves.
O virologista Ésper Kallás, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, defende as pesquisas. "Em primeiro lugar, é um trabalho que pode salvar milhares de vidas. Em segundo, nenhum país seria tolo de usar uma arma assim, porque é impossível controlá-la".
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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