Pinot Noir escrito com trema

Vinhos tintos alemães pareciam uma ideia estranha, mas nos últimos anos sua qualidade tem crescido bastante

Eric Asimov ,

21 Janeiro 2010 | 10h33

Pode brindar, e beber, à vontade. A versão germânica da uva Pinot Noir tem feito sucesso entre a crítica. Foto: Julie Glassberg/The New York Times Nossa palavra do dia é Spätburgunder. Vamos repeti-la bem devagar: ispet-bur-gun-der. É o nome alemão para a uva Pinot Noir, e agora já dá para pronunciá-lo em voz alta. O problema é que, pelo menos aqui nos Estados Unidos, pouca gente já a provou. A maioria nem imagina que a Alemanha produza vinhos tintos - muito menos que produza alguns tintos muito bons de Pinot Noir. Poucas lojas oferecem o produto, e as que sabem do segredo têm duas ou três garrafas, no máximo. Para piorar, os nomes alemães e a classificação vinícola do país não ajudam na sua divulgação. Por tudo isso fiquei animado quando me chamaram, mês passado, para provar os vinhos de dois dos melhores produtores alemães de Pinot Noir, Klaus-Peter Keller, do Weingut Keller, e Caroline Diel, do Schlossgut Diel, que visitaram Nova York com 19 Spätburgunders da safra 2007. Chamá-los de produtores de Pinot é errado: afinal, o resultado é microscópico frente ao total da sua produção de Riesling. Em 1980, o cultivo de Pinot na Alemanha era de 3,8% da área plantada com vinhedos, e em 2008, passou para cerca de 11,5%. Um Pinot Noir alemão pode soar como algo muito recente, mas existe há centenas de anos, desde o século 13, para ser exato, quando, do mesmo jeito que ocorreu na Borgonha, monges cistercienses plantaram a variedade ao longo do Reno. Mas, enquanto na Côte d’Or ela se adaptou maravilhosamente, no clima mais frio da Alemanha lutou para conseguir amadurecer. Até bem pouco tempo os Pinots alemães eram sem corpo e pálidos. A acidez refrescante que propiciavam tinha seu charme, só que muito distante da complexidade e densidade dos bons Borgonhas. Esse estilo ainda existe, e confesso que gosto dele. As mudanças climáticas recentes facilitaram a maturação das uvas, não só em Baden, a região mais ao sul, líder na produção de tintos alemães, mas Ahr, no noroeste de Koblenz, uma das regiões vinícolas mais no norte da Europa, especializa-se em Spätburgunder. Até o Mosel, ao sul de Koblenz, e curiosamente mais fria, que não permitia o plantio de variedades tintas até 1986, tornou-se agora fonte de Pinots excepcionais. A grande surpresa para mim foi um vinho, justamente dali, de Markus Molitor, da vinícola Graacher Himmelreich, famosa por seus Rieslings maravilhosos. Era um vinho adorável, delicado e equilibrado, com muita fruta e toques defumados. Alguns dos vinhos provados tinham uma preferência desanimadora pelo estilo com muita madeira e potência, em detrimento da pureza e da fineza. Não encontrei esses defeitos nos dois vinhos de Keller provados na ocasião, o preciso e iluminado Frauenberg e o redondo Dalsheimer Bürgel. Não me surprendi quando soube que Keller estagiou, antes de ficar no lugar do pai na vinícola, em dois domaines borgonheses, Hubert Lignier e Armand Rousseau, renomados por seus Pinots puros e focados. Keller me disse que trata seus Spätburgunders como "Rieslings tintos". "A uva mais elegante que temos na Alemanha é a Riesling, a Pinot Noir é sua irmã... Se você não souber apreciar sua finesse, vai perder seu equilíbrio, é bem fácil acontecer." A maior barreira, entretanto, para encontrar esses vinhos (já me esquecia de mencionar) é que são tão populares na Alemanha que eles bebem quase todos por lá mesmo.   Os vermelhos nos países de brancura dominante Falar em vinho tinto alemão, anos atrás, parecia gafe, como dizer "tomei um bom espumante inglês". E, no entanto, ambos existem e cada vez melhores. Países de grandes uvas brancas que dominam o cenário, como a Áustria e a Alemanha, sempre tiveram uvas tintas. Mas a produção era secundária, e os vinhos, mesmo deliciosos e frutados, restritos a um prazer imediato, para serem bebidos logo e como curiosidade. No ano passado, na Vievinum, em Viena, pude provar dezenas de tintos, não apenas da Themeregion, Carnutum e do Burgenland, regiões mais quentes, mas do mundo mais temperado do centro-norte do país. Foi quando a luz se acendeu para mim. Houve pelo menos dez notáveis Blauburgunder, nome austríaco da Pinot, que deixaram ótima impressão. Agora este artigo de Eric Asimov, ecoando degustações amplas de Jancis Robinson e Julia Harding, mostra que os germânicos vermelhos deixaram de ser uma experiência de vinicultores atrevidos: são o aproveitamento de verões mais longos e de uma pluviometria menos severa. Evidente, e falo por mim, seria uma pena que a extraordinária personalidade dos brancos na região se perdesse para uma dedicação intensa aos tintos. Rieslings como aqueles só há ali. Bons tintos são mais democráticos, estão em toda parte. Mesmo assim, nem que seja para marcar como nada é fixo, o alemão tinto deixou de ser uma inside joke de cognoscenti. No Brasil só a Mistral tem dois Pinots alemães, do biodinâmico Bürklin-Wolf, e um par mais de bons tintos de Zweigelt, de Alois Kracher, o genial produtor de vinhos doces que fazia questão de produzir tintos. Mas com tanta opinião de peso da crítica internacional, pode ser que mais venham. Luiz Horta

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