Política e ética na prancheta

Era o único ateu e comunista da família; seguiu o caminho levado pela revolta em relação à miséria

MARIA HIRSZMAN/, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

06 Dezembro 2012 | 02h03

A arquitetura não é o único legado de Oscar Niemeyer. Tanto quanto suas criações e projetos, sua postura ética, a defesa moral de ideais irredutíveis - a despeito das pressões políticas contrárias - são marcas registradas de sua atuação. "Passei a vida debruçado na prancheta, mas a vida é mais importante do que a arquitetura", repetia ele, reafirmando assim o lado humano de sua obra, muitas vezes deixado de lado por uma visão mais técnica de seu legado.

"Oscar, você recebeu, em quase um século de vida, todos os prêmios e reconhecimentos mais importantes do mundo, entre outros: o prêmio Lenin na antiga União Soviética; o Pritzker Prize - injustamente compartilhado com um arquiteto norte-americano; a Royal Gold Medal dos arquitetos ingleses; e recentemente o Prêmio Imperial do Japão", afirmou Roberto Segre em uma das homenagens prestadas ao arquiteto em vida, procurando ressaltar o que chamou de atenção constante aos "caminhos da cultura progressista", de "persistente atitude política e ideológica em defesa da justiça social, dos direitos dos oprimidos, dos explorados"; e de luta pelo "acesso à cultura, à beleza, à estética do entorno cotidiano".

Realmente era notável a capacidade desse homem que viveu quase todo o século 20 (ele nasceu em 1907), protagonizou a história da arquitetura moderna, de manter-se fiel às mesmas crenças políticas, sem deixar que elas interferissem em sua trajetória ou abandonar os ideais de juventude por um caminho mais fácil e palatável. Filho de fazendeiros, era o único ateu e comunista da família. Mas diz que foi levado a esse caminho pela revolta em relação à situação de miséria e desigualdade no mundo.

Um de seus grandes companheiros foi Luiz Carlos Prestes, a quem abrigou em seu escritório logo após a anistia de 1945. O líder da Coluna Prestes teve influência decisiva em sua filiação ao Partido Comunista Brasileiro, no mesmo ano, e também estavam juntos na desfiliação do Partidão, em 1990.

Outro dentre os vários companheiros de jornada foi Darcy Ribeiro, com quem construiu a Universidade de Brasília e, anos depois, os Centros Integrados de Educação Pública (Cieps), durante o governo de Leonel Brizola. O sociólogo costumava dizer que Niemeyer era o "único gênio brasileiro".

Permaneceu fiel ao ideário de esquerda, defendendo causas como a de Cuba, movimentos como o MST e certo de que em algum momento chegariam as mudanças necessárias.

"A revolução de 1905, de outubro de 1917, a vitória contra o nazismo, a libertação de Cuba, tudo isso vai se repetir depois destes tempos sombrios que o capitalismo brutalmente instituiu e o império de Bush procura manter", afirmou em uma de suas inúmeras declarações de caráter político. "Só restaram dois comunistas no mundo. O Niemeyer e eu", teria dito o próprio Fidel Castro, como versa a lenda.

Conciliador sem ceder no campo ideológico, ele se entendia e dialogava com representantes de um amplo espectro, dos dirigentes do Partido Comunista Francês (é dele o projeto de sede do PCF, em Paris, e do jornal L'Humanité) ao presidente Juscelino Kubitschek, com quem construiu não apenas Brasília, mas outros projetos memoráveis, como o complexo da Pampulha, em Belo Horizonte - que Niemeyer via como uma espécie de ensaio preparatório para o que depois viria a ser a nova capital do País.

Ironicamente, atribuía ao regime militar parte da grande repercussão e dispersão de seu trabalho no exterior. Afinal, foi em função das pressões da ditadura que optou pelo autoexílio. "Eles, que queriam me calar, deram-me a oportunidade de levar minha arquitetura para a Europa e fazê-la conhecida, como desejava. Para isso tive apoio de Maurois, que conseguiu de De Gaulle uma lei especial para trabalhar na França", disse.

Esse lado humanista e engajado de Niemeyer se sobressai sempre nas muitas entrevistas que ele concedeu em mais de um século de vida. Raramente se dispunha a falar de arquitetura. Quando o fazia era sempre com um lápis na mão e lançando mão de associações poéticas entre sua obra e sublimes fontes de inspiração como as curvas do corpo feminino.

É impressionante essa relação de Niemeyer com a forma, sua capacidade de criar prédios que mais parecem esculturas do que estruturas adaptáveis ao uso futuro. "Um dia Le Corbusier comentou que eu tinha as montanhas do Rio dentro dos olhos", brincava.

Ele sempre fez questão de reafirmar aos jovens profissionais - e seu exemplo marcou gerações e gerações de arquitetos brasileiros e estrangeiros - a importância de uma formação genérica, de uma ampla base cultural que vá muito além das noções de cálculo e equilíbrio: "Aos jovens não basta sair da faculdade como um ótimo arquiteto, mas como um homem que leu, que conhece as misérias do mundo e contra elas vai saber se manifestar."

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