Paulo Liebert/AE
Paulo Liebert/AE

Praças e espaços públicos abertos de São Paulo ganham grades e muretas

Medida é defendida por especialistas em segurança e criticada por urbanistas; mudança na Cruzeiro do Sul motiva mobilização online

Edison Veiga, Nataly Costa e Rodrigo Burgarelli,

08 Outubro 2012 | 11h18

SÃO PAULO - Praças e espaços públicos abertos de São Paulo estão ganhando grades e muretas. A reportagem do jornal O Estado de S. Paulo rodou a cidade e encontrou vários exemplos, alguns bem recentes - caso de uma praça em uma grande avenida que nem foi inaugurada e já tem grades e um canteiro, cercado na semana passada. Nessa lista, há pelo menos sete espaços públicos que poderiam ser abertos e foram gradeados.

A prática é polêmica, e divide a opinião de moradores e especialistas. Quem defende a medida diz que a sensação de segurança, a conservação e a limpeza do espaço aumentam com os gradis. Os críticos, porém, argumentam que fechar uma praça é ir contra a livre circulação de pessoas.

Em uma área desapropriada pela Prefeitura em junho, a Praça Raízes da Pompeia, no bairro de mesmo nome, começou a sair do papel há pouco mais de um mês e ainda está em fase de terraplenagem. Mas as grades já estão lá, acompanhadas de um muro de quase 1 metro.

"Não entendi, pensei que a praça seria um local de convívio, de descanso. Já está parecendo uma prisão", diz a administradora de empresas Quitéria Soares, de 41 anos, que mora e trabalha na Pompeia. Questionada, a Prefeitura disse que "a área na Pompeia com a Rua Turiaçu foi gradeada provisoriamente, enquanto é desenvolvido projeto para o local".

Polêmica. Na sexta-feira, 5, a reportagem visitou outro gradeamento que virou polêmica na zona norte: em torno do canteiro central da Avenida Cruzeiro do Sul, esquina com a Zaki Narchi. A área - embaixo de algumas estações da Linha 1-Azul do Metrô - começou a ser totalmente gradeada entre as Estações Tietê e Santana, no fim do mês passado, e revoltou um grupo de moradores, que está fazendo um abaixo-assinado online para que a Companhia do Metropolitano de São Paulo (Metrô) reverta a medida.

"Gradear não vai resolver o problema dos moradores de rua. Ao contrário: eles invadem a área fechada e aí, sim, vão morar ali de vez. Estão criando uma cicatriz no tecido urbano em Santana, dividindo o bairro em dois", diz o comerciante Jorge Ifraim, do Conselho Municipal do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Cades).

O Metrô afirma que a intervenção foi solicitada por moradores e comerciantes da região e vai melhorar o visual e a segurança. A obra, segundo a companhia, está sendo feita por uma associação, e só os gradis são fornecidos pelo Metrô. Ifraim, porém, defende a criação de um "corredor verde" no local, parecido com o canteiro central da Avenida Brás Leme, a poucos quilômetros dali. "Queremos um concurso com arquitetos para escolher um projeto paisagístico. É uma área de 18 mil m² que está sendo abandonada pelo poder público."

Em Santo Amaro, a Praça Floriano Peixoto, gradeada, é local de uma feirinha de artesanato. "Se fosse aberta, teríamos mais clientes, pois mais gente cruzaria a praça", acredita o artesão Luiz Santos, de 36 anos. Frequentador assíduo da praça, entretanto, o aposentado Eusébio Silva, de 72 anos, gosta das grades. "Sinto-me seguro", diz. "E, se a praça fosse aberta, tenho certeza de que estaria suja."

Largo. Outro exemplo de polêmica é a praça no Largo de São Francisco, no centro, bem na frente da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP). Um trecho com saídas de ventilação do metrô e pequenos canteiros verdes foi totalmente gradeado há um ano e meio, bloqueando até uma passagem de pedestres. Segundo a companhia, a área foi cercada por questões de segurança, pois o respiro não poderia ficar vulnerável.Moradores de rua agora usam as grades para montar barracas - três delas estavam lá na sexta, uma até com um sofá do lado de fora. Comerciantes da região reclamam da medida. "Isto aqui está cada vez pior. Proíbem os moradores de rua de ficar perto da faculdade, mas não dão opção melhor. Trabalho aqui há 20 anos, e nunca vi essa praça tão ruim", afirmou um dos vendedores da feira livre.

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