Prato do dia, não. De todos os dias

Se você já foi ao La Paillote, decano restaurante francês do Ipiranga, ou conhece alguém que o frequente, faça um teste. Pergunte se, em alguma ocasião, deixou de pedir os famosos camarões à provençal. A resposta provavelmente será negativa. Porque o La Paillote é daquelas casas que, ainda que mantenham um cardápio, estarão sempre ligadas a seu carro-chefe. É possível sobreviver de um prato só? Parece que sim. Ou o Moraes seria o mesmo sem o filé com alho? E o Jardim de Napoli teria tanto prestígio popular sem o polpetone? Pois eu tentei ir até o Ipiranga sem sucumbir aos tais crustáceos. Mas não resisti. Depois de atacar uma porção de cogumelos (também à provençal), pedi um coq au vin, que veio à mesa com molho espesso e pedaços de ave de carne firme que, se não eram de galo, eram de frango bem criado. Em suma, um prato decente. Mas a família Valluis, que abriu o restaurante em 1953, não conquistou tal longevidade servindo apenas pratos decentes, e sim com o camarão. O tipo de fenômeno que escapa do controle de chefs e restaurateurs. É a clientela que elege. É evidente que o restaurante já viveu dias melhores. Mas há um cheiro bom no ar, de asseio (isto é um elogio). Uma fragrância que só é interrompida quando a frigideira, com manteiga, alho, salsinha e os seis crustáceos, chega à mesa. A graça é ouvi-los estalando de quentes, é misturar o arroz com aquele molho untuoso, calórico. Um prato antigo, que reposicionamos em nossa estante de sabores cada vez que experimentamos (Antes não era melhor? Seria a manteiga? E o camarão, não estaria além do ponto de cocção?) Mas que será sempre o sentido da viagem. Esta semana, a novidade é a redução do preço da porção, de R$ 150 para R$ 100. Segundo a casa, pela estação de pesca. Esqueça agora o tom passadista – mas conserve o acento francês – e mude a cena para o Itaim-Bibi. Olivier Anquier, padeiro e apresentador de TV, quer viver de um prato único. Ele abriu o L’Entrecôte de Ma Tante valendo-se de uma receita de sua tia (e claramente inspirado por casas de sucesso como a parisiense Le Relais de L’Entrecôte) com a proposta despretensiosa de servir apenas contrafilé com molho e fritas. Custa R$ 37, incluindo uma salada (de folhas verdes com nozes e um bom molho de mostarda). É evidente que esse valor acaba crescendo com sobremesas, bebidas, etc. Mas continua sendo atraente. O L’Entrecôte, ainda que seja novo e não finja estar em Saint Germain, parece mais conectado com o espírito de bistrô – um lugar despojado, com comida franca e contas camaradas – do que muitos lugares que se afirmam como tal. Em São Paulo, infelizmente, os bistrôs acabaram entrando no escaninho do restaurantão francês caro e solene, o que é um erro. Não precisa ter taças Riedel. Basta um bom copo. Mas e a carne? É saborosa, teve seu ponto respeitado. Não é suculenta como a matéria-prima de origem europeia (o próprio Anquier explica, de mesa em mesa, que o corte vem do gado sul-africano bonsmara), mas tenra. O molho, cuja fórmula seria segredo familiar, é equilibrado, talvez um pouco tímido de sal. E as batatas, cortadas finamente, crocantes, são servidas à vontade. Em resumo, um bom programa em que ninguém engana ninguém. E pode ficar ainda melhor se terminar com a musse de chocolate: esta sim, vai além do satisfatório. É bastante boa. L'Entrecôte de Ma Tante R. Doutor Mário Ferraz, 17, Itaim-Bibi, 3034-5324 12h/15h e 19h/1h; 5ª e 6ª, jantar até 3h; sáb., 12h/3h; dom., 12h/1h Cartões: todos Cardápio: só um prato, o contrafilé com molho e batatas fritas (R$ 37), antecedido por uma salada Avaliação: bom para uma refeição sem pretensões, mas inadequado para vegetarianos La Paillote Av. Nazaré, 1.946, Ipiranga, 5061-5182 12h/14h30 e 19h/22h30 (sex. e sáb. até 23h; dom. só almoço até 16h; fecha seg.) Cartões: não aceita. Apenas dinheiro ou cheque Cardápio: francês... mas para quê cardápio? Peça os camarões à provençal (R$100; meia porção, R$ 50) Avaliação: um passeio rumo ao passado (e ao Ipiranga)

06 Agosto 2009 | 09h30

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