Prepare a fome (e o guardanapo)

Você poderá gostar ou não do novo Attimo (eu gostei), mas acho que não poderá dizer que o restaurante não se posiciona. Num panorama em que a maioria tenta agradar a todos os gostos - com o risco, portanto, de não emocionar ninguém -, a nova casa do chef Jefferson Rueda e dos irmãos restaurateurs Marcelo e Ernesto Fernandes comunica sem rodeios a que veio. O estilo? É o autoproclamado ítalo-caipira, uma ideia que, se não é explicitamente brasileira como as cozinhas do Recôncavo ou da Amazônia, é representativa do eixo São Paulo-sul de MG. A linha-mestra de sabor? É a da densidade, da potência.

Luiz Américo Camargo, O Estado de S.Paulo

23 Agosto 2012 | 03h11

Jefferson Rueda saiu do Pomodori em 2011 (e levou seus pratos mais famosos para o Attimo), ficou um tempo no Bar da Dona Onça, associou-se a Marcelo Fernandes (do Kinoshita e do Clos de Tapas), foi para a Europa. Fiquei curioso ao pensar o que sairia das panelas do chef depois de uma temporada no El Celler de Can Roca. E o que ele poderia extrair de equipamentos topo de linha, como são os da nova casa. A impressão, depois de muitos pratos provados, é que o cozinheiro teve a chance de rever, tecnicamente, coisas que ele fazia intuitivamente.

Não vou enveredar aqui por uma longa lista de entradas e afins. Mas quero destacar que o couvert (R$ 12,80) vale a pena, com tomates defumados, pururuca, fatias de speck, pães, e uma canja muito gostosa. E que entradas como a pamonha recheada com codeguim e fonduta de taleggio (R$ 39), o cuscuz de porco com frutos do mar (R$ 32), o macarrão feito de pancetta (batizado de matriciana, R$ 36) e pratos como o arroz carnaroli com suã, linguiça, couve, abóbora e grão-de-bico (R$ 60), entre outros itens, reforçam a habilidade do chef com carne suína. Meu preferido, no entanto, talvez tenha sido a galinha ao molho de Rio Pardo (R$ 52); outra criação já conhecida, o ravióli surpresa de galinha caipira e quiabo (R$ 46), por outro lado, parecia mais refinada nos tempos de Pomodori.

Falando sobre pesos, ou, melhor ainda, sobre personalidade de sabor, o Attimo expressa sua identidade na exuberância das carnes, dos molhos (e nas massas, claro). É um restaurante para quem busca pratos que deixam os lábios grudentos, que se impõem às papilas (e que caíram bem com o Lambrusco indicado pelo sommelier). Que se locomove melhor na trilha do porco do que nas águas dos peixes. E isso não é um defeito, é uma escolha - mas vale como informação para quem aprecia uma proposta mais ligeira. Fosse músico, Rueda tocaria rock, ora mais técnico, ora mais visceral, mas sempre com vigor. Os tons camerísticos, digamos, ele deixa para a pâtissière Saiko Yoneda. Suas sobremesas (entre R$ 16 e R$ 20), como a reinterpretação do Romeu e Julieta e a crostata de mascarpone, são pequenas e delicadas. A sutileza nipo-brasileira em contraponto aos arroubos ítalo-caipiras.

Por que este restaurante?

Porque é uma novidade, aberta por importantes profissionais da cidade.

Vale?

Uma refeição do couvert à sobremesa, sem vinho, custa entre R$ 120 e R$ 150 por pessoa, patamar que virou rotina no mercado. Não é pouco. Mas vale.

Attimo

R. Diogo Jácome, 341, V. N. Conceição, 5054-9999. 12h/16h e 19h/0h (dom., 12h/17h; durante a tarde, fica disponível o cardápio do bar)

Cc.: todos

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.