Professores elogiam programa de cotas

Docentes contrariam a habitual restrição das universidades estaduais ao sistema, mas têm dúvidas quanto aos efeitos práticos do projeto paulista

OCIMARA BALMANT, SERGIO POMPEU, O Estado de S.Paulo

21 Dezembro 2012 | 02h12

Apesar de historicamente as universidades estaduais serem contrárias à adoção de cotas, professores consultados pelo Estado aprovaram o projeto anunciado ontem. O programa será debatido nas unidades (faculdades e institutos) e depois, levado aos conselhos universitários.

Para o professor Paulo Saldiva, da Faculdade de Medicina da USP, mesmo os cursos de ponta não devem sofrer queda de qualidade com a política de cotas atrelada ao colégio comunitário. "Não é a nota em uma prova de Física que diz se a pessoa será ou não um bom médico. Tanto que, se eu pudesse, mesclaria essa prova do vestibular com perguntas sobre valores e condutas."

Ele se diz curioso, no entanto, para sentir a reação interna. "Quero saber como será a reação da Faculdade de Medicina a essa notícia. Mas eu estou otimista e quero ver como será a experiência dessa inserção que não despreza o mérito", afirmou.

A docente de Arquitetura Maria Lucia Refinetti, também da USP, acha que a decisão é "justa é pertinente", mas acredita que se deva tomar dois cuidados primordiais. O primeiro é evitar a discriminação dessa população e, o outro, garantir que a qualidade do ensino não seja diminuída.

"Na verdade, uma coisa tem relação com a outra. À medida em que se proporcionar que esses alunos estejam em nível de igualdade de conhecimento, eles não serão discriminados. Para isso, é claro, precisa-se de investimentos", avalia a professora.

Docente da Escola Politécnica da USP, a Poli, o engenheiro Jorge Leal Medeiros pondera o tamanho do porcentual. "Não sei se precisaria ser tão radical, como fizeram as universidades federais." Apesar da ressalva, no entanto, ele diz ser favorável às cotas sociais, principalmente as raciais. "Precisamos prestigiar as classes menos favorecidas e, no caso dos negros, nós temos uma dívida histórica e precisamos pagá-la."

O diretor científico da Fapesp, Carlos Henrique de Brito Cruz, explica que, da forma como foi desenhado o projeto paulista, não faz sentido acreditar que ele dará espaço a candidatos mal preparados. "As pessoas acham que assim serão admitidos candidatos piores. Mas não. Nesses cursos, a diferença de nota entre o classificado em centésimo como o que ficou na posição 800 é ínfima. Não dá para dizer que um é melhor que outro", diz.

Para ele, as universidades brasileiras devem se aperfeiçoar em outras formas de medir a competência de seus inscritos. "A capacidade é mais complicada do que a nota que uma pessoa tirou em uma prova naquele dia. Se quiserem avaliar a capacidade, é precisa avaliar mais variáveis, como fazem as boas universidades dos EUA", ponderou.

Uma das variáveis é a origem do estudante. Brito compara, por exemplo, dois vestibulandos com a mesma performance na prova, um oriundo de escola privada e outro de pública. "Sabemos que dali a dois anos o da escola pública estará melhor."

Além da origem, outros fatores também podem ser levados em conta. "Pode-se dar pontos a quem toca instrumento, ou outro critério, por exemplo."

O governo e os reitores evitaram falar em cotas - afirmam que a seleção será por mérito. Coordenador da Univesp, Carlos Vogt argumenta que a palavra cota tem carregado uma conotação de que é uma entrada automática. "O que nós queremos é trabalhar com o conceito de metas", afirmou.

"Acho que está havendo um desrespeito à universidade. É um absurdo que isso tenha sido apresentado sem aval do Conselho Universitário. É até temerário", diz o diretor do Colégio Bandeirantes, Mauro Aguiar. Para ele, quem mais perde são alunos de classe média. "São aqueles cujos pais se esforçam para pagar as mensalidades."

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