'Que frustração? Estou feliz com o novo papa'

Um dos mais cotados para suceder Bento XVI, d. Odilo afirma que não deu corda 'para esse tipo de especulação'

Entrevista com

O Estado de S.Paulo

15 Março 2013 | 02h06

ROMA - Considerado pela imprensa internacional até a noite de quarta-feira como um dos favoritos a ocupar o trono de Pedro, o cardeal brasileiro d. Odilo Scherer falou ontem pela primeira vez à imprensa desde que chegou a Roma para o conclave que definiu Francisco como sucessor de Bento XVI.

Com ar austero, o arcebispo de São Paulo demonstrou contrariedade ao ser questionado sobre as especulações que o colocavam como um dos principais papáveis, ao lado do arcebispo de Milão, Angelo Scola. "Eu tenho os pés no chão", disse ele. "A Igreja tem grandes personalidades que poderiam ter sido escolhidas."

Segundo d. Odilo, ainda que Jorge Mario Bergoglio seja nascido na Argentina - confirmando a análise de vaticanistas que consideravam a eleição de 2013 como o "conclave das Américas" -, a origem do pontífice não esteve em pauta. "O critério da região do mundo de onde viesse o papa não pesou", disse.

O seu nome era um dos mais especulados para suceder Bento XVI. Como encarou isso?

Com muita naturalidade e com muito realismo. Eu nunca me fiz ilusões e procurei não dar corda para esse tipo de especulação, bem conhecendo como as coisas acontecem no conclave. Por isso procurei me manter bastante neutro quanto a essas manifestações que ocorreram, e cuja amplitude estou tomando conhecimento agora.

Nesse sentido não ficou nenhum tipo de frustração por não ter sido escolhido?

Que frustração? Eu estou muito feliz pela escolha do papa Francisco. Não existe frustração.

Em que momento o nome do Bergoglio ganhou força entre os cardeais, dando mostras de que poderia ser o escolhido?

O nome dele apareceu durante a semana que precedeu o conclave. Essa semana serviu para tomarmos conhecimento e para discutirmos a Igreja, sua vida e sua missão. E também apareceram os que seriam adaptados e idôneos para assumirem a condição de papa. Nesse momento, o nome do cardeal Bergoglio surgiu. Pode não ter aparecido na mídia, mas já era evocado, sim.

Muda alguma coisa para a América?

Nós na Igreja não olhamos para essas escolhas como uma conquista, mas como uma graça, um dom. É uma alegria que a Igreja da América possa dar ao mundo um papa, depois do tanto que recebeu da Igreja.

O papa Francisco representa um rompimento em relação aos anteriores, João Paulo II e Bento XVI? Ele traz uma nova filosofia para comandar a Igreja?

Eu não diria isso. A Igreja basicamente permanece. O que é importante na Igreja não depende de uma ou outra pessoa. A Igreja tem seu evangelho, tem as suas convicções, tem a pessoa de Jesus Cristo como preferência, tem a Bíblia como referência fundamental. Isso não muda. Agora, o papa escolhido tem uma personalidade diferente, tem posturas diferentes de certo discurso, de certa abordagem, de certas preocupações. A ruptura é o jeito da pessoa, mas que não muda a Igreja enquanto tal.

Como um jesuíta chega ao papado, existe uma tendência maior à reforma da Igreja?

Eu não entendo que tipo de reforma deveria ser feita.

Da Cúria, por exemplo...

A Cúria é um organismo a serviço do papa. O papa vai dar a ela a forma que ele quiser. A Cúria é um auxílio, não um organismo autônomo. Se for preciso, ele vai fazer uma reforma. Isso certamente é um desejo bastante grande manifestado em geral. / A.N.

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