'Queria injuriar papai, era servir só um prato'

Em entrevista, Paloma Jorge Amado fala da relação de seu pai, Jorge Amado, com a cozinha

O Estado de S.Paulo

09 Agosto 2012 | 07h54

Qual era a relação de seu pai com a cozinha?

Ele aproveitava o que saia dela e comia (risos) e dizia que era "incapaz de fazer mesmo que seja um ovo cozido". Ora, não saber fazer um ovo frito, tudo bem; mas não saber fazer um ovo cozido? Mas ele gostava muito de comer e entendia que a qualidade do produto fazia uma comida melhor. Então ele dizia: "Vem comer aqui em casa que eu vou fazer um coq au vin". E tudo que ele fazia nesse prato era entregar a garrafa de vinho pra cozinheira, mas ele entregava um bom vinho! E no fim dizia: "Se não fosse eu, não seria assim tão bom".

O que ele gostava de comer quando estava fora de Salvador?

Ele sempre levava uma farinha com ele e dizia: "Tudo é possível, mas não ficar sem farinha". Quando estavam no exílio, o passadio era muito duro. Era pós-guerra e eles estavam sem dinheiro - e mesmo que tivesse dinheiro não teriam o que comprar. Tudo era sempre pouco e sem muita escolha. Mas a mamãe era muito boa cozinheira e o que ela fazia, papai gostava.

Uma vez chegou um saco de marinheiro, que vovô tinha mandado do Brasil pra eles, em Praga. Tinha farinha, feijão, carne-seca, linguiça e cigarro. Tudo embrulhado em papel. Só que o pacote levou três meses para chegar e o papel molhou com a umidade do navio. Quando eles abriram o saco, os papéis estavam desfeitos e tudo misturado. Papai ficou desesperado. Mas mamãe era muito prática e nada era um problema para ela. Então, eles puseram vários lençóis no chão, despejaram tudo e passaram dias separando feijão para cá, farinha para lá, fumo para cá. E tiravam os pedaços de carne para guardar. Papai contava que refez centenas de cigarros - certamente um cigarro com gosto de carne-seca, mas que ele achou uma maravilha. E mamãe pegou tudo e fez uma feijoada. Foi uma feijoada na medida do possível, mas uma feijoada. Com carne-seca, linguiça e farofa.

Como eram as refeições na casa de vocês?

As domingueiras, como a gente chamava, eram animadíssimas. Uma coisa era principal: "Comida só de muito", papai dizia. Muita quantidade, muita variedade e muita qualidade. Queria deixar papai injuriado na vida, era convidá-lo para um jantar e só colocar uma lasanha na mesa. Porque para ele, jantar não podia ser um prato, tinha de ser muitos. Ele gostava de fartura e não se importava muito que fosse saudável ou que tivesse colesterol. A preocupação era com o gosto.

E ele adorava frutas...

Sim, ele tinha paixão por frutas. Quando viajava, sempre se preocupava em descobrir novas frutas. Para ele era essencial. Para onde quer que viajasse e parasse o carro, ele ia atrás de um lugar que vendesse fruta, provando o gosto que tinha. Para ele a coisa do gosto era muito importante. Ele gostava de comer, não só frutas, e também gostava muito de alimentar os outros. O que eu acho que é uma coisa muito baiana e de pai.

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